“A fé acaba por ser luz num mundo em que vivemos com tantas dificuldades, tantos problemas e situações tão adversas”. A frase foi proferida no passado sábado por Paulo Sabino, 27 anos, tenente do Exército Português que pertence ao regimento de Comandos e fez parte do contingente português em 2021 numa missão de sete meses na República Centro-Africana.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O orador foi o convidado da rubrica mensal da paróquia da matriz de Portimão, intitulada ‘Partilhas Inspiradoras’, um ciclo de testemunhos que está a decorrer desde o início deste ano e que nesta terceira edição procurou abordar a temática da fé em contexto de guerra e de privação.

Filho do diácono permanente Vítor Sabino da Diocese do Algarve, o orador, natural de Portimão e membro daquela paróquia, explicou que a sua caminhada cristã começou com o batismo. “O meu caminho na fé começou na família e a família foi, numa fase inicial, a pedra basilar de todo o meu seguimento”, afirmou, lembrando que “não só a família, mas todo o ambiente envolvente de comunidade” fê-lo crescer e sentir-se apoiado. Depois, frequentou a catequese e as aulas de Educação Moral e Religiosa Católica, foi escuteiro do Corpo Nacional de Escutas, pertenceu ao grupo de jovens paroquial, realizou o Convívio Fraterno 1162 e ainda se mantém como acólito.

No encontro que teve lugar no Centro Pastoral da Matriz de Portimão, Paulo Sabino testemunhou ainda a importância da associação ‘Candeia’ – que promove o voluntariado com jovens e crianças institucionalizadas, provenientes de famílias desestruturadas – na sua caminhada de fé e de vida. O palestrante assegurou que todas estas vivências o enriqueceram. “Acima de tudo, foi solidificando muito aquilo que era a formação da minha personalidade”, contou, realçando a importância de viver a fé em comunidade. “Se eu vivesse a minha fé de uma forma isolada, mais tarde ou mais cedo ia acabar por perder a referência e o norte no seguimento”, considerou, referindo a importância das “bases” da “educação” e da “fé cristã” na sua postura na vida militar.

Após ter terminado o ensino secundário, Paulo Sabino seguiu para Lisboa, mas sem conseguir entrar no curso que “achava que queria”, o mestrado na especialidade de fuzileiro da Marinha. Entrou antes no de Engenharia Naval, ramo de Armas e Eletrónica, mas logo percebeu que não gostava da vida no mar e desistiu. Seguiu depois para Engenharia Física, mas assim que teve oportunidade concorreu à Academia Militar. O orador disse que a presença da família e dos amigos ao longo deste percurso foi “um grande sinal de Deus”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Depois de ter ingressado nos quadros permanentes do Exército quis fazer o curso de Comandos. “A necessidade de procurar mais é que nos faz crescer e abraçar novos desafios. Quero testar-me, saber até onde é que consigo ir, aquilo de que sou capaz, estar nas piores situações, ser levado ao limite e na minha especialidade de infantaria, o pináculo são as tropas especiais e para mim não existiam dúvidas: queria pertencer aos Comandos”, explicou.

Paulo Sabino disse que a oportunidade da missão na República Centro-Africana foi a concretização do desejo que o fez querer servir nas Forças Armadas. “Porque é que eu quis vir para as Forças Armadas? Não só porque gosto muito da parte do treino físico, de me superar, de estar no mato, de sentir que sou autossuficiente, mas também porque achava que era redutor ficar apenas cingido àquilo que era o nosso território nacional e à nossa realidade. Eu queria ir para situações complicadas, queria estar fora da minha zona de conforto”, certificou.

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O orador lembrou que a missão em África se inseriu no âmbito das Nações Unidas, sendo objetivo do contingente nacional “constituir uma força de reação rápida para atuar nas várias zonas do país onde o governo não tem capacidade para fazer valer a lei e a ordem”. “Existem vários grupos rebeldes, 14, de várias ideologias, religiões e em várias zonas do país, que lutam para dominar minas de ouro, de diamante e de cobre e para controlar as rotas de transumância que entram no país desde o Chade”, observou, acrescentando que, “como em todas as guerras, quem sai maioritariamente prejudicado é a população e são as pessoas que acabam por sofrer bastante”.

Paulo Sabino contou que para além dos grupos rebeldes surgem mercenários russos que “fazem ações de falsa bandeira” e se regem “pelo dinheiro e não pelo Direito Internacional ou pela Carta dos Direitos Humanos”, um problema que disse ter tido início “na altura das Primaveras Árabes com infiltrados no meio das manifestações” e que “faz alterar a política internacional toda e a estabilidade interna de um país”.

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O conferencista explicou que a missão portuguesa consistiu em fazer patrulhas de segurança, contactar com a população e com os mercenários russos, marcando “presença” com “assertividade”. “A postura destes indivíduos era sempre muito provocadora. É necessário ter nervos de aço não só para connosco, mas essencialmente para com aqueles homens que estão à nossa responsabilidade e ao nosso encargo”, afirmou.

Paulo Sabino acrescentou que a guerra não se limita ao terreno, mas também se estende ao ciberespaço onde garantiu existir espionagem em redes abertas como as do Telegram, WhatsApp, Facebook ou Instagram. “Nós não temos noção de que aquilo que colocamos na Internet fica na Internet para sempre e de quem é que utiliza esses dados”, alertou.

Aquele paroquiano da matriz de Portimão, que teve de gerir homens entre os 18 e os 30 anos durante sete meses longe da família, considerou que os colegas militares, “de certa forma, também foram presença de Deus” na sua vida. “Eu posso ser o tenente Paulo Sabino quando estou a trabalhar, a lidar e a exigir aos meus militares, contudo também tenho de estar bastante atento à parte humana para perceber como é que é o ambiente familiar destes militares, quais são as suas inquietações”, referiu, acrescentando que alguns “cresceram num bairro da margem sul do Tejo num ambiente de criminalidade e a tropa foi a forma que arranjaram de ganhar autonomia e começar a ser independentes”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Paulo Sabino constatou ainda que a guerra é uma realidade desde que o mundo existe. “Nós não a queremos, mas temos sempre de salvaguardar e perceber que há sempre alguém que pensa diferente de nós e pode causar coisas que não queremos”, alertou, considerando que “quando corre tudo bem a política funciona, mas quando a política deixa de funcionar começa a guerra”. Nesse contexto disse ser “necessário que haja alguém com algum alento e que seja capaz de se sacrificar e dar a sua vida para defender os outros, para estar ao serviço”. “Mostrar que temos a capacidade [da força] mas que optamos por não a utilizar ou por não a fazer valer e optarmos sempre pela via do diálogo, da responsabilidade e do amor é de uma grande nobreza”, sustentou, acrescentando: “imaginar um mundo sem guerra era muito bom, mas ela existe e temos de saber lidar com estas adversidades e saber dar a volta”.

As ‘Partilhas Inspiradoras’ da paróquia da matriz de Portimão prosseguem no último sábado de cada mês, em abril com o testemunho de uma psicóloga que fez um doutoramento sobre a importância da fé na felicidade e em maio com o do diácono permanente Nuno Francisco e da esposa.