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História

O encerramento, em 1759, dos Colégios da Companhia de Jesus em Faro e em Portimão, teve sérias repercussões na formação do clero algarvio.

Com efeito, o Concílio de Trento renovou a legislação da Igreja sobre a escolha e formação do clero e criou os Seminários (sessão XXV), ordenando que em cada diocese houvesse um Seminário. As dificuldades foram grandes na execução deste decreto e a Santa Sé transigiu em que a formação do clero fosse confiada aos Jesuítas, mesmo em regime de externato, onde eles tivessem Colégios.

Assim aconteceu em Faro, pois sabe-se que, em 1741, o Arcebispo – Bispo D. Inácio de Santa Teresa (1740-1751) resolveu estabelecer no antigo Paço de D. Afonso de Castelo Branco (1581-1585), um internato para os ordinandos, ainda que eles continuassem a frequentar as aulas do Colégio de S. Tiago Maior (hoje Teatro Lethes).

Esse antigo Paço corresponderia, certamente, ao conjunto de todas as construções que hoje integram a parte norte do Seminário, na qual ainda são visíveis estruturas quinhentistas e a presença de uma janela de traçado manuelino. No piso superior encontra-se também, numa das salas que actualmente serve de biblioteca, um tecto de masseira, em que os diversos caixotões apresentam uma primorosa ornamentação de brutesco fantasista, na opinião de Vitor Serrão provavelmente encomendada pelo Bispo D. Francisco Barreto I (1636-1649) a “algum artista lisboeta”, sendo de notar a sua semelhança com a decoração da Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra.

Conhecido todo este conjunto como o Paço de D. Afonso Castelo Branco, assim se compreende que ao cimo da escadaria principal do Seminário, edificado por D. Francisco Gomes do Avelar no prolongamento dessas antigas construções, tivesse sido colocado o brazão de armas daquele segundo bispo da sequência episcopal com sede em Faro, a partir de 1577.

Até à fundação do Seminário actual, empreendida por D. Francisco Gomes de Avelar (1789-1816) e após o encerramento do Colégio de S. Tiago Maior, a formação do clero conheceu um retrocesso nos caminhos novos que se anteviam. Continuaram os tradicionais percursos, através das escolas dos conventos e do apoio dos párocos, mas era preciso regulamentar os estudos e avançar com outras iniciativas. Por isso se viram os prelados na necessidade de providenciar rumos futuros.

  1. André Teixeira Palha (1783-1786) foi o primeiro que, sendo coadjutor de D. Fr. Lourenço de Santa Maria (1752-1783), – uma vítima das prepotências de Pombal -, publicou e regulamentou o currículo académico do Seminário, instituindo no seu próprio Paço um curso trienal de aulas eclesiásticas.

Eram quatro as cadeiras por ele instituídas: Teologia Dogmática, Moral, Cânones e História Eclesiástica, com frequência obrigatória para quem quisesse tomar ordens sacras.

Para mais estimular ao estudo, estabeleceu prémios aos estudantes mais aplicados; reservou para património de clérigos pobres e estudiosos, as tesourarias paroquiais; e instituiu concursos para provimento dos benefícios curados.

O seu sucessor, o oratoriano D. José Maria de Melo (1787-1789), conservou a organização que estava, substituindo apenas a Cadeira de História Eclesiástica pela de Sagrada Escritura. O tempo mínimo de frequência para cada Cadeira foi fixado em três anos, excepto para Escritura, com apenas dois.

Foi este prelado lançou os fundamentos para a construção do Seminário, aproveitando as instalações do referido antigo Paço de D. Afonso Castelo Branco, que vinha de 1585 e no qual viveram os bispos algarbienses até ao tempo do arcebispo D. Fr. Lourenço de Santa Maria (1752-1783). Integrado hoje na parte norte do Seminário, é o edifício setecentista que faz ligação com o actual Paço Episcopal, ao nível do andar nobre superior através de um passadiço.

Como D. José Maria de Melo só esteve pouco mais de um ano à frente da Diocese do Algarve, coube, pois, ao seu sucessor, também oratoriano, D. Francisco Gomes de Avelar (1789-1816), vir a ser de facto, o fundador do Seminário Episcopal de S. José do Algarve, incorporando-o, nas sobreditas anteriores instalações.

Dando continuidade à volumetria existente e à composição do alçado principal, foi então construído, para sul, um longo corpo, definido no andar norte por dezanove vãos de janelas, projecto confiado ao arquitecto genovês Francisco Xavier Fabri, que D. Francisco Gomes mandara vir de Itália, e que veio a ser um dos principais divulgadores do neoclassicismo em Portugal, com trabalhos também em Lisboa, nomeadamente no Palácio Real da Ajuda.

Ainda que não totalmente concluído mas utilizável, pois o corpo da cozinha e refeitório só em 1806 se completou, foi pomposamente inaugurado em 8 de Janeiro de 1797, então dia da Sagrada Família, com um solene pontifical presidido por D. Francisco Gomes do Avelar, seu emblemático fundador, estando presentes o Cabido e mais clero e pessoas importantes da cidade.

Para formadores do Seminário, aproveitou D. Francisco a chegada a Lisboa, em 1796, de dois religiosos italianos da Congregação da Missão, os Padres Ansaloni e Maffei, que voltavam de Goa, onde tinham instalado também um novo Seminário.

Entretanto, muito embora D. Francisco tivesse diligenciado meios para o acabamento e manutenção do Seminário, viu-se na necessidade de nele incluir Aulas públicas de primeiras Letras, ministradas para a cidade.

Dificuldades de vária ordem não faltaram, como em todo o projecto que se imponha a hábitos adquiridos ou a novidades incómodas. D. Francisco conheceu situações críticas, mas soube superá-las com a reconhecida elevação da sua autoridade moral, particularmente notória no difícil contexto das invasões francesas.

Anteviam-se, porém, outros dias atribulados para o Seminário, que, com as convulsões políticas da época, se viu seriamente ameaçado, tal como os prelados sucessores de D. Francisco Gomes.

Com a implantação do liberalismo, em 1834, os cursos eclesiásticos foram interrompidos, continuando apenas a funcionar as aulas públicas, transformadas em 1848 no Liceu Nacional.

Só após o restabelecimento das relações diplomáticas do Governo português com a Santa Sé, o Bispo D. Carlos Cristóvão Genuês Pereira (1855-1863) voltou a reorganizar, a partir de 1855, o ensino religioso no Seminário.

Em 1906, o Liceu foi transferido para um edifício então construído junto da Alameda. Ficou o Seminário mais desafogado. Contudo, o número de seminaristas chegou a ser tão elevado que o Bispo D. António Barbosa Leão (1907-1919) ainda pensou mandar construir mais um andar na obra setecentista.

Mas a instauração da República veio pôr fim a este projecto. O edifício foi confiscado e nele se instalou o Regimento de Infantaria 33. Padres e seminaristas alojaram-se, inicialmente, numa casa da Rua Prof. Norberto da Silva e depois na Rua do Município, até que, em 1933, após a extinção do citado Regimento, regressaram à parte sul do edifício do Seminário. A outra parte só foi devolvida em 1940, tendo servido de Paço Episcopal e Câmara Eclesiástica até 1964. Depois do 25 de Abril de 1974, acabou por ser cedido, temporariamente, para acolhimento de retornados das ex-colónias portuguesas.

Os candidatos ao sacerdócio foram então enviados para o Seminário de Vila Viçosa, da arquidiocese de Évora, e, só em 1986, após prolongadas obras de restauro, levadas a cabo pelo grande empenho de D. Ernesto Gonçalves Costa (1977-1988), o Seminário de S. José ficou em condições de voltar a ser reaberto.

A actividade escolar desta veneranda casa, ainda que em alguns momentos com aulas dentro e em outros com aulas fora, tem vindo a acompanhar as alterações dos programas nacionais, frequentando os seminaristas, actualmente, os cursos secundários das escolas públicas de Faro.

Para quem aqui termina os estudos secundários ou procura e é recebido no Seminário em qualquer situação académica, após o 12.º ano, estruturou-se um regime Propedêutico, conforme as indicações da Santa Sé, com um programa próprio interno em ordem ao discernimento vocacional e preparação para um futuro ingresso no Seminário Maior e respectivos estudos teológicos, neste momento em Évora.

Paralelamente, funciona a instituição do Pré-Seminário, em forma de acompanhamento, devidamente programado e assistido, para potenciais futuros candidatos ao Seminário.