1. “Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (Act 2, 4) Com uma pequena frase, o livro dos Actos transmite-nos o acontecimento que alterou profundamente a vida dos apóstolos, reunidos no cenáculo, em oração, no mesmo lugar da instituição da Eucaristia. Hoje, reunidos em Eucaristia na nossa Sé Catedral, em dia da nossa Igreja diocesana, estamos a reviver o clima daquela manhã de Pentecostes. Convosco, que participais nesta Eucaristia, sinto-me particularmente unido a cada uma das nossas comunidades paroquiais e aos seus pastores, abertos à acção do Espírito, certos de que é Ele que nos congrega na mesma Igreja, nos conduz e nos fortalece no anúncio e no testemunho da Boa Nova de Jesus. Também no nosso tempo a Igreja é atravessada por um vento impetuoso. Um vento – qual força irresistível de Deus que vem ao encontro do homem; um vento que sacode, desperta, desinstala… um vento que varre medos e fantasmas, desfaz receios e temores; um vento que impele os apóstolos – a Igreja nascente e a Igreja de todos os tempos – para a realização do mandato de Cristo. Mandato que vem inspirando os nossos programas pastorais destes últimos anos – ide e anunciai o evangelho… anunciar o Evangelho é o serviço da Igreja ao mundo… – e nos tem mobilizado na construção de uma Igreja que pretendemos cada vez mais comunidade ministerial, dominical/eucarística e missionária. Só será possível progredir nos objectivos deste projecto pastoral, se formos uma Igreja cada vez mais aberta à acção do Espírito: todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas… Todos, sem excluir ninguém. Falar outras línguas é a capacidade, o dom do Espírito, de construir uma nova maneira de relacionamento entre pessoas, povos e culturas; de superar egoísmos, orgulhos de que Babel (cf Gn 11) continua a ser expressão e lição. Lá, os homens escolheram o orgulho, a ambição desmedida que conduziu à separação e ao desentendimento; aqui, regressa-se à unidade, à relação, à construção de uma comunidade capaz do diálogo, do entendimento, da partilha. Ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus: é o surgir duma nova humanidade, unida, não por uma força exterior, mas pela partilha da mesma experiência interior, fonte de liberdade, de comunhão e de amor. Uma comunidade universal, nascida do anúncio do Evangelho e da acção do Espírito, constituída por todos os povos da Terra, que, sem abandonarem a sua cultura e a sua especificidade própria, passarão a falar a mesma língua e poderão experimentar esse amor que torna povos tão diferentes, capazes de comunicar e se relacionar como irmãos. 2. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum Da carta de S. Paulo aos Coríntios deduzimos que na comunidade de Corinto havia partidos, divisões e rivalidades que perturbavam a comunhão e impediam os seus membros de falar a mesma linguagem do amor e da fraternidade, constituindo, por isso mesmo, um contra testemunho. Tudo isto devido à má compreensão e ao mau uso dos dons e carismas pessoais. Eram geradores de atitudes de autoritarismo, de divisão, de rivalidades… de comportamentos incompatíveis com o Evangelho de Jesus Cristo. Quando os dons do Espírito deixam de ser dom para a comunidade, sendo-o apenas para si mesmo, transformam-se em fonte de competição e de divisão. Precisamente o contrário da verdadeira acção do Espírito na Igreja e em cada comunidade: há diversidade de dons espirituais, mas é o mesmo Espírito que actua em todos; há diversidade de funções, mas é o mesmo Senhor que está presente em todos; há diversidade de acções mas é o mesmo Deus que age em todos. 3. Abertos aos dons e à acção do Espírito Celebrar o dia da nossa Igreja diocesana é reconhecer a presença e a acção do Espírito que nela se manifesta de muitos modos e através de muitos dons: – é Ele que conduz e assiste esta Igreja local e cada uma das suas comunidades, dotando-as com os dons necessários à realização, em fidelidade, do mandato missionário de Cristo. – é Ele que é nos impele a construirmos uma Igreja mais adulta e mais plural, ou seja, mais ministerial: uma Igreja comunhão edificada na unidade do Espírito e na pluralidade de dons e serviços, que o mesmo Espírito suscita para o bem da comunidade eclesial e de toda a comunidade humana. – é Ele que suscita a riqueza de tantos dons e carismas, presentes também nos consagrados e consagradas inseridos na nossa Igreja diocesana, nos movimentos eclesiais, surgidos na Igreja neste tempo pós-conciliar e já definidos como verdadeira Primavera do Espírito, resposta providencial, entre outras, às exigências da nova evangelização, para a qual o saudoso Papa João Paulo II nos convocou a todos e que só será possível concretizar com comunidades cristãs abertas à acção do Espírito. Meus caros diocesanos, abri-vos com docilidade aos dons do Espírito! Acolhei com gratidão e docilidade os dons que Ele não deixa de conceder à Igreja! Não esqueçais que cada carisma é concedido para o bem comum, ou seja, em benefício de toda a Igreja. Façamos nossa a invocação da liturgia deste dia: vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. O Espírito Santo, que transformou radicalmente os Apóstolos, fechados e receosos no Cenáculo, em fervorosos arautos do Evangelho, ampare a nossa Igreja diocesana na sua missão evangelizadora e faça suscitar nela testemunhas corajosas da fé.