Como é que correu a experiência? Carmem – Correu muito bem. Foi uma grande experiência de vida difícil de expressar por palavras. Não quis criar expectativas para não me desiludir. Fui vivendo cada dia. Contactei com uma cultura muito diferente da nossa que me possibilitou também encontrar Deus. Recebi mais do que dei, pelos gestos, pelos sorrisos e pela forma como me mimaram. Senti-me sempre muito bem acolhida desde o primeiro minuto. Normalmente o que custa mais é a integração, mas como o povo angolano é muito acolhedor, senti-me, desde logo, muito acolhida e em casa. Ficaste alojada aonde? Na missão católica em Saurimo das irmãs franciscanas que contempla uma escola primária com valência de pré-escolar. Fui também a um outro município, muito pobre, a 160 quilómetros de Saurino, que se chama Dala. Foi também uma grande experiência ter contactado com aquele povo e ter passado pelas suas dificuldades. No fundo, senti na pele a dificuldade da missão, por exemplo, por termos levado 7 horas para fazer 160 quilómetros devido ao estado degradado da estrada. Era também um lugar onde não havia luz eléctrica, água canalizada, nem meios de comunicação. Estive lá uma semana e senti uma coisa muito importante: percebi que não era necessário falar. Bastou a minha presença para que aquele povo se sentisse feliz e importante. Senti-me evangelizadora. Recordo-me que participei também numa reunião de jovens naquele lugar e que foi muito interessante, pois tive oportunidade de partilhar com eles a realidade de Portugal e do Algarve. Embora só tenha estado ali uma semana senti-me uma verdadeira missionária. O que é que fizeste concretamente durante aquele mês? As irmãs também têm trabalho na área da saúde em postos de saúde (financiados pela Caritas). A minha missão centrou-se também na ajuda àquele povo a este nível. O horário de trabalho era das 8 às 16/17 horas e o meu local de trabalho ficava a 7 quilómetros de Saurimo, no bairro 4 de Fevereiro. O objectivo da enfermagem era igual, ou seja, prestar cuidados, sensibilizar, educar… mas a realidade das condições de trabalho eram muitos diferentes das que tenho cá. Existem muitas necessidades e os medicamentos estão a terminar por causa dos financiamentos que estão a chegar ao fim, apesar de haver muitas pessoas doentes. A malária é um grande problema que atinge tanto crianças como adultos. Que avaliação fazes deste mês? Acho que foi um mês muito importante na minha vida. Sinto que não surgiu por acaso e não foi por acaso que só agora aconteceu. O facto de ser só um mês – algo que inicialmente era visto por mim como uma dificuldade – percebo agora que era o tempo que Deus queria que fosse e que Deus queria que eu desse de mim. Realmente por vários motivos, entre os quais profissionais e escolares, não poderia dar mais de mim neste momento. A missão não surgiu somente para eu me dar aos outros, pois possibilitou-me um encontro pessoal com Deus. Sinto que não desperdicei este tempo e que me entreguei ao máximo porque senti que era o tempo que tinha. Por isso não venho com qualquer sentimento de tristeza por ter sido apenas um mês ou por querer lá ficar, pois sinto que me entreguei a 100 por cento enquanto lá estive. Cada vez louvo mais a Deus pelos desafios que me coloca e cada vez lhe agradeço mais por ter a capacidade de O olhar e escutar e de receber estes convites, respondendo-lhe com um ‘sim’. Não estou a mesma pessoa. Várias pessoas me diziam que quem vai a África não regressa a mesma pessoa e agora eu percebo. É um mundo tão diferente do nosso. O que mais admirei naquele povo foi o facto de viver sem olhar ao relógio. Parece que os dias são muito grandes e dão para muito mais. As pessoas têm uma vida muito mais despreocupada e valorizam muito mais a partilha. Encaras a possibilidade de voltar a repetir a experiência até mais alargada no tempo? Quando me propus para esta missão a minha vontade não era ir só um mês, mas não consegui ir mais tempo. Claro que gostaria imenso de repetir e se fosse por mais tempo também, mas não sei quando. Ainda estou a digerir o que vivi agora. Gostaria de repetir em África, mas a América Latina também é uma zona que me agrada muito. O que achaste de Angola? Um país de extremos. A cidade de Luanda é muito confusa, onde se vê uma grande diferença entre ricos e pobres. A periferia da cidade e a zona necessita muito de ajuda. A zona interior do país é mais humilde. Embora o contraste não seja tão visível, a pobreza está muito presente. Mas o povo não expressa muito as dificuldades que tem… Vivem felizes apesar das dificuldades? Vivem. E têm a grande riqueza deles que são as crianças. Os angolanos não conseguem perceber porque é que em Portugal as famílias só têm um ou dois filhos. Para eles ter filhos é uma forma de partilha. Quem não tem filhos é sinal de que não se dá e que é egoísta. Lá existem crianças por todo o lado e são a alegria daquele povo. Em relação à diferença de cor da pele viveste alguma manifestação? Nunca me senti excluída ou descriminada. Até me esquecia de que era de cor diferente e só me lembrava quando as crianças choravam ao olhar para mim ou me tocavam, pois alguns nunca tinham visto um ser humano branco. Mais alguém integrou a missão contigo? Fui daqui sozinha. Lá juntei-me a um grupo, integrando-me na vida comunitária das irmãs, incluindo a Eucaristia diária às 6 horas. Esta experiência vai influenciar a forma como vais continuar a trabalhar na tua paróquia? Quando digo que venho diferente, não quero dizer uma outra pessoa, pois sou a mesma Carmem… …mas sentes uma força maior para trabalhar agora cá? Sim, porque pelo facto de ter ido para um lugar tão diferente do nosso onde denotei dificuldades que nós não temos e vi as pessoas, mesmo assim, a superá-las com alegria, faz com que agora eu consiga dar mais valor ao que tenho na minha vida. Vejo agora que não me falta nada e que o que tenho não deveria ser motivo para que alguma vez me queixasse. A diferença que sinto em mim é que não sou a pessoa exigente que era. Sinto que estou mais tolerante e dou mais valor ao que tenho. Foste bem colhida quando lá chegaste. E quando regressaste cá como foi a recepção da tua paróquia? Muito boa. As pessoas preocuparam-se sempre muito comigo, talvez até demais. Mandavam-me sempre cumprimentos e estavam sempre a perguntar por mim. Com a minha chegada as pessoas foram incansáveis e demonstraram a alegria que também sentiram com a minha ida. Sinto que as pessoas também foram em missão comigo. Mais fotos, brevemente na Galeria de Imagens