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Foto © Sandra Moreira

Uma sala pintada em tom azul celeste e outra num tom rosado, onde sobressaem peças de pintura, imaginária e outras, com origem nos séculos XV, XVI e XVII acolhem os visitantes que, a partir do dia 8 de dezembro, já podem visitar a coleção de Arte Sacra da Paróquia de Tavira.

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“Assim na Terra como no Céu” é o título dado a esta exposição, que se encontra na Igreja de Santa Maria. «Nesta primeira sala encontramos peças do séc. XV e XVI, peças que nos permitem ver que Tavira era uma cidade de devoção, mas também onde havia uma ligação ao mundo artístico dessa época, já que aqui temos peças cuja origem é muito diferente: Nottingham (Inglaterra), Bruges (Flandres) e até o Japão», explicou, no decurso da inauguração, Daniel Santana, Técnico de Património da Câmara Municipal de Tavira e um dos curadores desta exposição. «No andar superior há peças essencialmente do séc. XVII, peças que nos transportam para o luxo e para a riqueza das celebrações religiosas do Barroco, mas que revelam bastante sobre como a Igreja algarvia vivia, nomeadamente no período pós Concílio de Trento», conta Marco Lopes, Diretor do Museu Municipal de Faro e o outro curador da mostra. Os visitantes encontrarão «essencialmente peças de caráter religioso, com funções devocionais, usadas em contexto de cerimónia litúrgica ou como elementos de culto», explicam Marco Lopes e Daniel Santana. Desde «pinturas, a imagens religiosas de vulto, passando por extraordinárias peças de arte nanbam, paramentaria, livros e ourivesaria, muitos deles originais de Santa Maria, outros de Santiago e alguns de São Paulo», todos estarão acessíveis e com informação que explicará a sua origem e função.

Um grupo considerável de pessoas (entre as quais o Bispo do Algarve, D. Manuel Neto Quintas, o Secretário de Estado da Descentralização e da Administração Local, Jorge Botelho, O Presidente da Assembleia Municipal de Tavira, José Baía, o Vereador da Câmara Municipal de Tavira responsável pelo pelouro da Cultura, João Pedro Rodrigues, o Presidente da União de Freguesias de Tavira, José Mateus Costa e Alexandra Rodrigues Gonçalves, Diretora da Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve) teve a oportunidade de conhecer melhor as peças em exposição e de perceber o trabalho que foi feito para a montagem desta mostra, que agora se constitui como uma coleção visitável de Arte Sacra.

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Marco Lopes (E) e Daniel Santana (D), os curadores da exposição • Foto © Sandra Moreira

«Algumas destas peças foram restauradas aqui, no atelier da ARTgilão Tavira, a empresa da paróquia que tem vindo a promover a preservação da Arte Sacra existente», explicou à Folha de Domingo Marta Pereira, a técnica de restauro da paróquia e salientou que «outras ainda o serão, o que torna esta exposição ainda mais interessante, pois se os visitantes cá regressarem poderão ver o antes e depois de algumas destas peças». Marco Lopes e Daniel Santana ressaltaram a importância de todas as imagens, quadros e demais objetos escolhidos, destacando que vários deles estão bem estudados, já que em ocasiões anteriores integraram exposições de grande importância nacional e regional.

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Foto © Sandra Moreira

Algumas peças, que apesar de terem estado visíveis nestas mesmas salas, não tinham todavia possibilidade de serem apreciadas como a partir de agora os visitantes o poderão fazer. «Em setembro de 2016, quando o Sr. Bispo me pediu que me colocasse ao serviço das paróquias de Tavira como pároco, visitei, desde logo, a Igreja de Santa Maria, como se fosse um vulgar visitante, um turista», contou o Padre Miguel Neto, Pároco de Tavira e recorda: «Deparei-me com uma entrada escura e fria, onde se entregavam simples bilhetes como as antigas rifas, cortados de uma cadernetazinha, penso que no valor de 1.50€. Garantiam a possibilidade de entrar no templo e num museu que tinha importantes peças, mas que estavam deficientemente destacadas e em alguns casos acompanhadas de muito pouca informação. Abundavam as placas de proibição» e «a sacristia onde habitam dos mais belos azulejos desta casa estava incessível ao visitante, assim como a torre sineira, que é, na minha opinião, o mais belo miradouro desta linda cidade».

Foi nessa altura que o sacerdote, igualmente responsável pela Pastoral do Turismo da Diocese do Algarve e membro do Secretariado da Obra Nacional da Pastoral do Turismo recebeu do Bispo do Algarve a incumbência de rentabilizar o património destas paróquias.

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De lá para cá e com o total aval de D. Manuel Neto Quintas, foi constituída a empresa ARTgilão Tavira, o que permitiu a abertura de uma loja, a criação de produtos de merchandising (entre os quais os Vinhos Sete Cavaleiros do Castelo, criados em colaboração com a Casa Santos Lima) e a abertura de um atelier de restauro, onde trabalham duas técnicas, que têm vindo a dedicar-se intensamente ao cuidado de tudo o que está à guarda da Paróquia. «O meu papel foi somente o de me esforçar por encontrar uma forma atual, contemporânea e assente nos pressupostos definidos internacionalmente para a preservação e exposição de Arte Sacra e de procurar os meios para que tal pudesse ser realizado. E nesse esforço não estive sozinho», referiu o Padre Miguel neto, destacando o trabalho realizado com o apoio dos colaboradores da empresa e com os paroquianos, bem como com a Santa Casa da Misericórdia de Tavira, com quem, em parceria, foi possível dinamizar o projeto “Igrejas Tavira”, que possibilita aos visitantes a compra de um só bilhete de acesso a vários templos que estão abertos. «Não basta abrir os espaços e não queremos uma cidade das Igrejas, mas com Igrejas de portas fechadas», reforçou o pároco e destacou mesmo a importância de manter um «trabalho de cooperação e de desenvolvimento de iniciativas conjuntas», considerando que o que se tem feito «é um exemplo de como, através da valorização da diversidade, do estabelecimento de diálogo e da insistente defesa do bem comum, colocados acima do interesse mesquinho e individualista, todos temos a ganhar».

Jorge Botelho, anterior Presidente da Câmara Municipal de Tavira e atual Secretário de Estado da Descentralização e da Administração Local manifestou-se muito satisfeito com a iniciativa e encantado com a forma como as peças ganharam vida e foram dignificadas. «Devemos orgulhar-nos de sermos cristãos e tavirenses, pois este trabalho, que representa o esforço da paróquia e a nossa identidade, é um passo importante no caminho que deve continuar a ser traçado para a preservação do património da cidade. O Padre Miguel Neto está de parabéns».

O Bispo do Algarve, D. Manuel Neto Quintas felicitou todos os intervenientes neste projeto e salientou ser seu desejo «que o património de mais paróquias no Algarve pudesse ser valorizado do mesmo modo e que o que a aqui se fez pudesse ser replicado», já que «dignificando o património, dando-o a conhecer e preservando-o estamos a cumprir um importante papel cultural que é também parte da missão da Igreja».

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Os projetos da Paróquia a este nível não ficam por aqui: «Há muito por fazer nas igrejas de Tavira, como por exemplo, adequar e normalizar as Igrejas de Santiago e de São Paulo para as visitas», refere o Padre Miguel Neto, que considera que o visitante «quer qualidade na informação e na forma como o espaço é apresentado» e que é preciso «apostar na criação de plataformas mais contemporâneas de mostrar a história cristã de Tavira, plataformas que possam incluir linguagens como o multimédia ou a realidade aumentada, quem sabe, de maneira a que possamos, por exemplo, explicar aos nossos visitantes, que na generalidade o desconhecem, porque é que Tavira tem tantas Igrejas»

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