Senhor_passos_faro_2016 (35)
Foto © Samuel Mendonça

O bispo auxiliar de Braga, que presidiu no passado domingo à procissão em honra de “Nosso Senhor Jesus dos Passos”, promovida em Faro pela paróquia de São Pedro, lembrou que aquele Cristo em sofrimento carregando a cruz representa toda a “humanidade sofrida” e constitui apelo a todos os seus dramas.

No habitual sermão no final da procissão que evoca o encontro de Jesus com a sua Mãe no caminho para o Calvário, D. Francisco Senra Coelho convidou a multidão presente a um “olhar penetrante” para aquele Cristo, lembrando “tantos seres humanos que carregam no seu dia-a-dia pesadas «cruzes»”. “Ao olhar para Ele, lembro as multidões que se arrastam em sofrimento indescritível, em rico de vida, em fuga da guerra, que pedem acolhimento, que batem à porta, que chegam”, afirmou, evocando os refugiados que fogem de países do Médio Oriente que já tinham sido lembrados durante a reflexão feita numa das estações da via-sacra realizada durante o cortejo. “Ninguém pode dormir em paz enquanto tivermos irmãos nossos caídos nas águas, no pó ou na lama”, entoaram os altifalantes pelas ruas da baixa farense.

“Ao olhar para este Cristo como não lembrar todos aqueles que experimentam o vazio de coração, a escuridão interior, a falta de sentido para a vida; os que perderam a fé ou nunca a conheceram; os que precisam urgentemente de encontrar a beleza da salvação de Deus: a evangelização”, prosseguiu o prelado, referindo-se aos “grandes sofredores espirituais que transportam feridas tão profundas interiormente, aqueles que são as margens, as periferias existenciais no dizer do papa Francisco”.

O bispo auxiliar da arquidiocese bracarense lembrou igualmente os “idosos na sua solidão, com viúvos e viúvas que levam o abandono e, muitas vezes, a ingratidão daqueles que os deviam acompanhar e amar” e “a frieza de tantas casas transformadas em pensões aonde o amor morreu, onde apenas se juntam para tomar refeições, dormir, lavar a roupa, usar o computador e ver televisão”, bem como “aqueles que se sentem sós no seio da sua família, os que são encontrados mortos passado muito tempo com um cadáver de um cão ou de um gato também junto a si”.

D. Francisco Senra Coelho fez memória ainda de “tantos pais que, depois de um trabalho árduo, dedicado, para formar os seus filhos viram que eles não tiveram lugar à mesa da nossa sociedade e tiveram que emigrar e hoje, na saudade, comunicam pela imagem através da internet, falam-se à distância”. “Gostaria de trazer aqui os doentes, os terminais, os que vivem semana a semana a sua hemodiálise, a sua quimioterapia”, acrescentou, considerando que aquele Cristo “representa todo o sofrimento da humanidade”. “Queria ver neste Cristo todas as vítimas da guerra, da violência, do abandono”, afirmou.

O bispo auxiliar de Braga, que fez memória das quatro Missionárias da Caridade assinadas no Iémen “ao serviço da fraternidade, dos pobres e da humanidade”, “sem explicação e sem qualquer sentido do absurdo”, desafiou a Igreja, à imagem de Maria, a ser Igreja-Mãe, Igreja-acolhimento, Igreja que sente os apelos da humanidade que lê os sinais dos tempos, no dizer do papa Francisco, Igreja-hospital que se abre às periferias da humanidade, que vai ao encontro, que procura”.

“Temos de perceber com Francisco que as lágrimas de quem chora são as lágrimas de Cristo. Temos de perceber com João Paulo II que o caminho mais direto para Deus é o ser humano, na medida em que o servirmos, o acolhermos, o respeitarmos”, acrescentou, desafiando os católicos a serem “Igreja que faz crescer no mundo a humanização”. “Maria é modelo desta Igreja frente à humanidade sofrida que é o seu Filho Cristo e este é o encontro da Igreja com a humanidade”, simbolizou.

Exortando os algarvios a serem “peritos de humanidade”, lembrou que muitas vezes já enxugam o rosto de Cristo com o “linho branco” da sua “caridade solidária” porque sabem “viver as obras de misericórdia”. O prelado pediu ainda que o Espírito Santo “conduza e dê olhos no coração para, como Maria, verem o Cristo em cada ser humano”. “Nós pedimos a capacidade interior de sermos dignos do momento que vivemos e estarmos à altura de responder às expetativas do homem do nosso tempo que sem saber é faminto de Deus. Que a sociedade se humanize a partir de nós, na nossa cidadania assumida e compreendida, com os cristãos que transpõem para a sua vida a fé que professam”, desejou.

O prelado já tinha presidido, na igreja de São Pedro, à eucaristia que precedeu a procissão, pedindo “atitudes de acolhimento esmerado” que refletem o acolhimento de Deus.

Depois da primeira estação da via-sacra, realizada ainda dentro da igreja, seguiu-se então a procissão pelas principais ruas de Faro com uma evocação junto ao coreto do Jardim Manuel Bivar aos pescadores da cidade que “quiseram construir uma ermida e construíram aquilo que viria a ser a futura igreja de São Pedro”, como fez questão de lembrar o pároco, o cónego Carlos César Chantre.

A procissão contou ainda com a presença do Santo Lenho, uma relíquia que terá sido trazida de Jerusalém pela Ordem de Malta para Vera Cruz de Marmelar e que, segundo a tradição, se trata de um pedaço da cruz onde Jesus foi crucificado.

Fotorreportagem

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