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© Samuel Mendonça

O bispo do Algarve disse na tarde desta Sexta-feira Santa que a “vida, tantas vezes amargurada, sofrida e crucificada, encontra na contemplação da cruz de Cristo, força, coragem e lenitivo para as próprias dores”.

D. Manuel Quintas, que presidiu na catedral de Faro à celebração da Paixão do Senhor, lembrou a cruz feita com madeira de barcos naufragados em Lampedusa vai percorrer a Itália. “Imaginemos o sentido simbólico desta cruz, a referência a tantas vidas perdidas, naufragadas, gente que procura uma vida melhor, mães, muitas, até com os filhos aos colo… Vemos imagens na televisão que nos deixam consternados, situação a que o Papa, quando foi a Lampedusa, classificou como vergonha da humanidade”, afirmou.

“Esta cruz, certamente que grita muito alto pela referência que ela tem e por encarnar tanto sofrimento humano. Aquele que é conhecido e aquele que não é conhecido. É este sofrimento que converge para a cruz de Cristo e que, em Cristo e na sua cruz, encontra sentido redentor”, acrescentou.

O prelado, que se referiu também à Cruz das Jornadas Mundiais da Juventude entregue pelo Papa João Paulo II aos jovens em 1984 e à Cruz das Jornadas Diocesanas da Juventude existente no Algarve, evidenciou que a cruz é uma “referência insubstituível” na vida de Cristo e de cada cristão, sendo “muito mais que um ornamento ou um símbolo” que distingue os cristãos. “A cruz é, acima de tudo, o mistério do amor de Deus que se dá a si mesmo, que se humilha a si mesmo e se faz pecado, que não resiste aos que o crucificam. Não é possível entender o sentido redentor da cruz sem acolher a lição e a mensagem de Cristo, crucificado por nosso amor e para nossa salvação”, acrescentou, considerando que Jesus “morreu na cruz como gesto supremo de serviço”.

“Ao falarmos da cruz, naturalmente que não queremos, nem devemos reduzir a tal o Cristianismo. Mas também não podemos pensar num Cristianismo sem a cruz. Como cristãos seguimos uma pessoa – Jesus – erguida sobre uma cruz que se deixou crucificar para nos salvar”, destacou.

O bispo do Algarve explicou assim que, por tudo isto, nesta tarde os cristãos são “convidados a contemplar, venerar e adorar a cruz de Cristo com todo o sentido e conteúdo que ela tem”, inclusivamente na sua vida pessoal.

Voltando à exortação apostólica do Papa, ‘Evangelii Gaudium’ (A Alegria do Evangelho) – que tem sido referência durante as suas intervenções ao longo deste Tríduo Pascal – D. Manuel Quintas lembrou que a entrega de Jesus na cruz constitui o “culminar de um estilo” de “proximidade e de encontro com todos” que “marcou toda a sua vida”, “uma vida de doação e de entrega aos outros”. “Fascinados por este modelo também nós devemos inserir-nos no mundo, partilhar a vida com todos, ouvir as suas preocupações, colaborar na medida das nossas possibilidades, material e espiritualmente nas suas necessidades, alegrarmo-nos com os que estão alegres, chorarmos com os que choram e comprometermo-nos na construção de um mundo novo, lado a lado com os outros, tudo isto como uma opção pessoal que nos enche de alegria e nos dá uma identidade”, exortou, citando um trecho do capitulo V do documento papal.

O prelado advertiu que “só quem oferece a sua vida – toda e em todas as situações e circunstâncias, à semelhança de Cristo – pode nascer de novo e herdar uma vida marcada pela plenitude espiritual e pela comunhão com Deus”.

No dia de Sexta-feira Santa, aliturgico por ser o único do ano em que a Igreja não celebra a eucaristia mas a Paixão e Morte de Jesus Cristo, imperam o silêncio, o jejum e a oração.

A celebração desta tarde, centrada na adoração da cruz, nas igrejas com os altares desnudadas desde a noite de ontem, é uma espécie de drama em três atos: proclamação da Palavra de Deus, apresentação e adoração da cruz, comunhão eucarística.

Na catedral de Faro, a celebração da Paixão do Senhor iniciou-se, como acontece em todo o mundo, em silêncio, com o bispo do Algarve a prostrar-se diante do altar descoberto, e terminou também em silêncio “contemplativo e orante”, cujo sentido o prelado fez questão de explicar na homilia (ouvir áudio abaixo). “O silêncio na liturgia não é estéril, mas fecundo. E hoje, de modo particular, não se trata de um silêncio estéril e vazio, mas de um silêncio que se transforma em grito fecundo, testemunha do amor sem limites de Deus pela humanidade”, explicou D. Manuel Quintas, desejando que este silêncio possa ser “expressão de acolhimento do amor até ao extremo que a cruz gloriosa de Cristo, quotidianamente, transmite”.

A celebração teve continuidade com a liturgia da palavra, constituída por um dos elementos mais antigos da Sexta-feira Santa, a Oração Universal, à qual é hoje dado igualmente particular relevo por refletir o caráter também universal da morte de Cristo. Composta por dez intenções, a oração procura abranger todas as necessidades e todas as realidades da humanidade.

Seguiu-se depois a apresentação e veneração da cruz realizada por uma fila imensa de fiéis, incluindo muitos estrangeiros, e a comunhão da eucaristia ontem consagrada.

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