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Foto © Samuel Mendonça

O bispo do Algarve convidou esta tarde os cristãos a deterem-se na afirmação de Jesus na hora da morte que transporta para o Ano Santo da Misericórdia que a Igreja está a viver.

“«Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem». Esta afirmação leva-nos a considerar a grandeza da misericórdia de Deus por nós, da qual Jesus é o rosto visível”, afirmou D. Manuel Quintas na celebração da Paixão do Senhor a que presidiu na catedral de Faro.

“É possível que, entre aqueles que crucificaram Jesus ou pediram a sua morte, houvesse muitos que não sabiam o que estavam a fazer. Alguns, certamente, agiam para cumprir ordens, mas havia muitos que agiam de maneira consciente, tentando, finalmente, eliminar aquela voz da consciência que não tinham”, considerou o prelado, acrescentando que “a ignorância, se reconhecida, reduz a culpa e deixa aberta a estrada para a conversão”. “Reconhecer a ignorância e acolher o perdão de Deus é caminho que conduz à verdadeira conversão. Permanece esta consolação para todos em todos os tempos, o facto de o Senhor apresentar a ignorância como o motivo do pedido de perdão, referindo-se tanto àqueles que apenas executavam ordens, como àqueles que sabiam que o tinham condenado”, complementou.

Lembrando que a cruz constitui “o sinal da revelação suprema do amor de Cristo e o início da vida nova” e que é esse amor divino, traduzido no “gesto supremo de doação e entrega de Jesus por toda a humanidade”, que “sustenta e dá consistência” àquilo que são os cristãos, o bispo do Algarve considerou que a atitude que deve prevalecer neste dia “é, acima de tudo, o silêncio orante e contemplativo”. “É esta a interiorização que nos convida toda a liturgia da tarde desta Sexta-feira Santa: um silêncio orante e contemplativo como meio para interiorizarmos quanto a palavra de Deus, particularmente a narração da paixão do Senhor, nos sugere”, afirmou, considerando que aquela celebração deve levar a cultivar este silêncio interior. “Não se trata de um silêncio estéril e vazio, mas de um silêncio que transforma em «grito» fecundo, testemunha do amor e da misericórdia de Deus para connosco e para com toda a humanidade. Possa este silêncio contemplativo e orante ser expressão de acolhimento do amor até ao extremo e da misericórdia desmedida do Pai que a cruz gloriosa de Cristo continuamente nos transmite”, complementou.

A celebração desta tarde ficaria ainda marcada pela oração pelas vítimas dos atentados terroristas de Bruxelas e do acidente que na noite de ontem ocorreu em Moulins, Allier, no Centro de França, matando 12 portugueses, entre os sete e os 60 anos, que viajavam a caminho de Portugal. “São situações de morte que nos tocam a todos. Temos de ter presente aqueles que faleceram, mas também neste momento as suas famílias. Que todos encontrem na cruz de Cristo a luz que ilumina situações de sofrimento e de morte. Que encontremos todos força para ultrapassar essas situações”, pediu o bispo diocesano.

No dia de hoje, Sexta-feira Santa, aliturgico por ser o único do ano em que a Igreja não celebra a eucaristia mas a Paixão e Morte de Jesus Cristo, imperam o silêncio, o jejum e a oração.

A celebração desta tarde, centrada na adoração da cruz, nas igrejas com os altares desnudadas desde a noite de ontem, é uma espécie de drama em três atos: proclamação da Palavra de Deus, apresentação e adoração da cruz, comunhão eucarística.

Na catedral de Faro, a celebração da Paixão do Senhor iniciou-se, como acontece em todo o mundo, em silêncio, com o bispo do Algarve a prostrar-se diante do altar descoberto, e terminou também em silêncio.

A celebração teve continuidade com a liturgia da palavra, constituída por um dos elementos mais antigos da Sexta-feira Santa, a Oração Universal, à qual é hoje dado igualmente particular relevo por refletir o caráter também universal da morte de Cristo. Composta por dez intenções, a oração procura abranger todas as necessidades e todas as realidades da humanidade. Assim, esta tarde, rezou-se pela Igreja, pelo papa, pelos bispos, presbíteros, diáconos e todo o povo de Deus, pelos catecúmenos, por todos os que crêem em Cristo de diferentes Igrejas, pelo povo judeu, pelos que não crêem em Cristo e pelos que não crêem em Deus e pelos governantes de todas as nações. Pediu-se ainda pela paz, pela liberdade religiosa, para que Deus “livre o mundo de todos os erros, afaste as doenças e a fome em toda a terra, abra a porta das prisões e liberte os oprimidos, proteja os que viajam e reconduza ao seu lar os imigrantes desterrados, dê saúde aos enfermos e a salvação aos moribundos”.

Seguiu-se depois a apresentação e veneração da cruz realizada por uma fila imensa de fiéis, incluindo muitos estrangeiros, e a comunhão da eucaristia ontem consagrada.

Homilia do bispo do Algarve:

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