© Samuel Mendonça/Arquivo
© Samuel Mendonça/Arquivo

Após a oração da manhã, o simpósio sobre o Concílio Vaticano II que a Igreja Católica do Algarve está a promover em Faro, no salão paroquial de São Luís, hoje com um acrescento de participantes que ascendem a cerca de 300 ontem e hoje, teve início com a apresentação da reflexão de Manuela Silva, que não pôde estar presente devido a um problema grave de saúde.

Procurando apresentar o pensamento da autora no âmbito do tema “Vocação e missão dos Leigos na Igreja”, Filomena Calão destacou que a missão dos leigos não pode ficar acentuada apenas, nem sequer como acento tónico no interior da Igreja, sendo que a sua especificidade é exercida prioritariamente no interior do mundo.

Manuela Silva, ex-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz e ex-secretária de Estado para o Planeamento, com base nos documentos conciliares que considerou “matriciais” para a sua reflexão – Lumen Gentium e Gaudium et Spes –, salientou ainda a exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici. No seu trabalho começou por identificar o que é ser cristão leigo: “é profundamente errada a ideia de que a igreja é constituída por um somatório de classes, sendo uma delas a de leigo.” “O concílio quis realçar que ser leigo é ser consagrado ao Senhor por consequência do batismo. Portanto, ser consagrado ao Senhor não é específico apenas dos sacerdotes e religiosos”, afirmou Filomena Calão, destacando que “a diferença radica, essencialmente, na função, ministério, serviço ao povo de Deus que daí advém”. “Em vez de leigo, padre ou religioso ser um substantivo, [deveria] passar a ser um adjetivo porque está a classificar, a colorir uma determinada maneira de ser cristão”, afirmou, sublinhando que “decorre desta participação no tríplice múnus sacerdotal a forma como a Igreja, sobretudo através da índole secular e peculiar dos leigos, age no mundo e deve fazê-lo ao jeito de fermento na massa”.

Manuela Silva destaca ainda que os “leigos desenvolvem a suas responsabilidades porque participam, a certo modo, do tríplice múnus sacerdotal, profético e real de Cristo”. “Os batizados unem-se a Cristo e ao seu sacrifício na oferta de si mesmos e de todas as suas atividades. Deste modo, os leigos, agindo em toda a parte santamente, como adoradores consagram a Deus o próprio mundo. São chamados a fazer brilhar a novidade e a força do evangelho na sua vida quotidiana, familiar e social e a manifestar, com paciência e coragem, nas contradições da vida presente, a sua esperança na glória também por meio das estruturas da vida secular”, explicou Filomena Calão, lembrando que “algumas das caraterísticas para a ação da Igreja no mundo dos leigos no mundo tornaram-se mais claras e conscientes por influência do concílio”.

A autora da reflexão, apontando à “participação na vida pública, da qual os leigos não podem nem devem demitir-se”, concretiza assim que “o campo da atividade evangelizadora dos leigos é vasto e complicado mundo da política, da realidade social, da economia, da cultura, das ciências, das artes, da vida internacional, dos instrumentos de comunicação social e ainda outras realidades como o amor, a família, a educação das crianças e adolescentes, o trabalho profissional, sofrimento”.

“Mesmo se alguns, por vontade de Cristo, são instituídos doutores, dispensadores dos mistérios e pastores para o bem dos outros, quanto à dignidade e atividade comum a todos os fiéis na edificação do corpo de Cristo, reina entre todos uma verdadeira igualdade”, referiu Filomena Calão, citando a Lumen Gentium.

Manuela Silva recorda ainda que “a posição da Igreja tem de ser uma posição de diálogo”. “A Igreja pós-conciliar só encontrará lugar na modernidade numa posição dialogante com os anseios dos diferentes povos e culturas, numa atitude sincera de serviço em humanidade. Os cristãos leigos estão em posição privilegiada para fazerem esta ponte e trazerem esta interioridade do mundo para a Igreja. A Igreja deve estar ao serviço do mundo, ou seja, estar no mundo sem ser do mundo, mas ao serviço do mundo”, sustentou Filomena Calão, aludindo a um “jeito dialogante com todos os povos, religiões ou culturas”, “que seja respeitador da sua diversidade, sem temor da diferença e enriquecendo-se com ela”.

Manuela Silva quantificou ainda os princípios orientadores para a presença dos leigos no mundo, enumerando a “dignidade da pessoa humana, desde a conceção à morte natural, a igualdade fundamental entre todos os seres humanos e os seus correspondentes direitos e deveres, o valor do trabalho humano, a importância da Doutrina Social da Igreja nas instituições laborais, o valor do matrimónio e da família”.

A autora da reflexão lembra que “os cristãos leigos, no interior da Igreja, são chamados a colaborar com os seus pastores no serviço da comunidade eclesial para o crescimento e vitalidade da mesma, exercendo ministérios diversíssimos segundo a graça e os carismas que o Senhor lhes dispensou”. “Sem a ação dos leigos, o próprio apostolado dos pastores não pode conseguir plenamente o seu efeito”, complementa.

Na sua reflexão lembra ainda a importância, manifestada no decreto sobre o apostolado dos leigos, da criação de “centros de documentação e de estudo (…) para fomentar mais as qualidades dos leigos em todos os campos do apostolado”, bem como o surgimento de “comissões específicas para problemas específicos”. “Na tomada de decisões, se as estruturas sinodais funcionarem com verdade, isto é, não apenas formalmente mas na realidade, ou seja, se as consultas variadíssimas forem efetivamente feitas, discutidas e partilhadas, a tomada de decisões, mesmo cabendo aos pastores por inerência da sua presidência na comunidade, são facilmente assumidas por todos porque todos sentem que a informação circula e todos se sentem a participar, ao seu nível, na decisão tomada”, conclui Manuela Silva.