© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

O secretário para os seminários da Congregação para o Clero veio ontem ao Algarve pedir aos padres do sul de Portugal que sejam “pais espirituais”.

D. Jorge Patrón Wong disse em Albufeira aos bispos, padres e diáconos das dioceses de Algarve, Beja e Évora que o sacerdote “é um pai espiritual porque acompanha, está próximo e reflete o amor, misericórdia, o carinho e a proteção de Deus” que é Pai.

Aquele responsável da Santa Sé, que abordou os temas “Identidade do presbítero no Mundo atual” e “A formação do Presbítero: dimensão inteletual, espiritual e pastoral” na oitava edição da atualização do clero da Província Eclesiástica do Sul que integra as três dioceses, organizada pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, acrescentou que “o padre de hoje tem de ser um pai que escute, compreenda, que perdoe e também que corrija”, “que possa orientar e, sobretudo, amar”. “Mas também um pai que aprenda a ser melhor pai com os filhos”, completou em declarações à Folha do Domingo e à Agência Ecclesia. “Aprende-se a ser padre todos os dias porque todos somos discípulos e alunos do grande pai que é Deus”, completou.

O arcebispo mexicano apontou mesmo o Papa Francisco como o “exemplo mais bonito” do que é ser um “bom pai”. “É um pai para todos: para crianças, jovens, sãos, doentes, para os que se sentem perto e para os que se sentem longe da Igreja, para os que crêem e para os que não crêem”, observou, acrescentando que “o Papa expressa essa paternidade no amor misericordioso que é um amor generoso, de entrega que não exige nada e apenas se dá por pura misericórdia”. “Hoje a grande tónica do amor de Deus que cada sacerdote deve expressar é a gratuidade”, prosseguiu, considerando que o sacerdote deve “ser gratuito e generoso para os outros”. “Isto significa que é necessário viver uma espiritualidade forte de comunhão com Deus-Pai que seja humanamente reflexo do coração de Deus”, afirmou.

© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

O prelado evidenciou que o “grande desafio e aventura” do sacerdote, apesar de “ser pai de muitos”, “não é o que faz tudo, mas o que trata de estimular positivamente e criar um laço de amizade e fraternidade, trabalhando em comunhão dentro da Igreja e com a sociedade”. “Um sacerdote, como bom pai, deve aprender a delegar e confiar. A Igreja hoje não é unicamente o presbítero, o bispo ou o religioso, mas inclui todos os batizados. Nesse sentido, o Papa Francisco pediu que todos os batizados sejam missionários e discípulos, que não deixemos o sacerdote só”, sustentou, advertindo que “muitas das responsabilidades pastorais devem ser transmitidas aos leigos”.

D. Jorge Patrón Wong considerou assim viver-se um momento em que “a vocação laical deve crescer”, o que, na sua opinião, provocará o surgimento de “vocações sacerdotais”. “É das famílias, dos jovens leigos comprometidos que surgem vocações sacerdotais”, evidenciou, acrescentando que “nalguns países desenvolvidos” isso já está a acontecer.

Aquele membro da Congregação para o Clero disse ainda ser necessário que se ajude os jovens a entender a vida como “vocação”. “Se temos bons sacerdotes, próximos das famílias, muitos jovens descobrirão que a vida é mais do que uma profissão. É uma vocação”, considerou, lembrando que “Deus gera uma vocação em cada jovem”.

“Como a nossa cultura não educa a descobrir e a responder à vocação, pois unicamente educa para a profissão, temos de ajudar os jovens a ver a vida como vocação e, dentro da vocação cristã, descobrir se Deus chama a ser sacerdote, religioso ou a ter família e ser um leigo comprometido”, prosseguiu, lamentando que também “muitas famílias” tenham deixado de “falar e viver a vida como vocação”. “Também temos de perder o medo de perguntar aos jovens: Já pensaste ser sacerdote? Poderá Deus chamar-te a ser sacerdote? Alguém tem que fazer a pergunta e alguém tem que dar testemunho. E nisto, famílias e sacerdotes, devem ajudar”, acrescentou.

D. Jorge Patrón Wong disse ainda na formação ao clero do sul do país – que teve início na passada segunda-feira, procurando responder à questão “Que pastores para a Igreja no mundo atual?”, e que hoje terminou numa unidade hoteleira algarvia -, que para além de pai, a identidade sacerdotal deverá levar cada sacerdote a identificar-se como filho de Deus e irmão de Jesus.

© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

O conferencista destacou ainda a importância de uma “formação permanente e integral”. “Conservemos sempre uma atitude disponível para a aprendizagem em qualquer uma das dimensões da nossa personalidade”, pediu, alertando que “não basta que o Seminário tenha a melhor formação possível”. “É preciso que tenha uma referência viva de formação permanente”, afirmou, referindo-se à importância do testemunho de fidelidade no ministério junto dos vocacionados.