D. Manuel Quintas defendeu que a diocese algarvia precisava de uma manifestação pública de fé, apelando à mobilização “de todos aqueles que se dizem cristãos” e ela acabou mesmo por acontecer. Vindos de todas as partes do Algarve e até da vizinha Andaluzia espanhola, os cristãos começaram a reunir-se por volta das 19.45 horas junto ao Liceu farense. Os autocarros foram chegando, uns a trás dos outros, tornando difícil a circulação automóvel no cimo da avenida 5 de Outubro, até que as autoridades tiveram mesmo de cortar o trânsito naquela artéria. Segundo informações recolhidas pela FOLHA DO DOMINGO junto dos agentes da PSP de Faro presentes no local, as autoridades contabilizaram cerca de 100 autocarros que terão entrado na cidade naquele dia, alguns dos quais espanhóis, sendo que a movimentação começou logo a partir das 8 horas. Isto sem contabilizar, naturalmente, os muitos veículos particulares que se deslocaram para Faro. Um mar de gente ocupou toda a faixa de rodagem, quando, pouco depois das 21 horas, abriram uma passagem para a chegada do carro dos bombeiros que transportava a imagem. Depois de carregada pelos soldados da Paz para o palco ali montado, deu-se início à celebração mariana, presidida pelo Bispo do Algarve, que só terminaria após a procissão para a cidade velha. O longo cortejo litúrgico, que demorou mais de uma hora, constituiu, pelas velas que os fiéis traziam na mão, uma autêntica onda de luz que desceu a avenida 5 de Outubro e rua de Santo António, com a multidão a inundar completamente a via pública. Os fiéis de todas as idades, com destaque para os muitos jovens e crianças, recitaram, durante o percurso, a oração do Rosário. Muito foram também aqueles que se quiseram associar a esta iniciativa e que vieram para a rua ver passar a procissão ou que, das suas casas, observaram a passagem do andor, transido em ombros pelas forças de segurança (Marinha, PSP, Bombeiros e GNR), tendo colocado colchas às janelas e acendido velas. Depois de iniciada junto ao Liceu, onde três crianças vestidas como Lúcia, Francisco e Jacinta, fizeram memória das aparições aos Pastorinhos, a celebração mariana teve continuidade já no largo da Sé, onde aguardava a procissão um outro palco montado para o efeito. Ali, onde o largo se tornou pequeno para acolher a imensa multidão, foi feita a leitura do Evangelho de onde foi extraída a frase proferida por Maria, que serve de lema ao Projecto Pastoral da Igreja algarvia até 2012: “Fazei o que Ele vos disser”. A meio da evocação das 4 vigararias da diocese do Algarve presentes D. Manuel Quintas proferiu a sua homilia. O Bispo diocesano começou por sublinhar que esta visita da imagem de Nossa Senhora ao Algarve pode ser vista também como uma retribuição. “Foram certamente muitas as vezes que, individualmente, em família, em grupo ou mesmo como Igreja diocesana nos deslocámos ao Santuário de Fátima para nos encontrarmos com a Mãe e assimilarmos a mensagem deixada há 90 anos. Agora é Ela que vem retribuir-nos a visita”, acentuou o Prelado, recordando a designação de Faro, denominada, desde tempos imemoráveis de Santa Maria de Faro. “Ela vem como Mãe, acolhamo-la como filhos. A mãe faz sempre falta na vida de um filho. Quem quiser conhecer, de modo detalhado, a sua história pessoal, desde o primeiro momento da sua existência deve procurá-lo no coração de sua mãe”, destacou D. Manuel Quintas, justificando a intermediação de Maria para se chegar ao seu Filho Jesus. O Bispo diocesano lembrou a propósito que Nossa Senhora “não quer ser, nem quer que a consideremos como mais importante para nós”. “Tudo em Maria converge e aponta para Jesus. Por isso, esta noite, como outrora nas bodas de Caná, Ela nos remete: ‘Fazei o que Ele vos disser’”, complementou, acrescentando que “Maria dispõe-se a conduzir-nos e a acompanhar-nos até seu Filho Jesus”. “Faz-se peregrina connosco, de modo a não nos perdermos, nem a esmorecermos no caminho que nos conduz a Cristo”, salientou. O Bispo do Algarve lançou então o repto à diocese algarvia. “Apoiados em Maria, caminhemos sem receio, ao encontro de Cristo para escutarmos e fazermos o que Ele vem hoje dizer-nos enquanto Igreja diocesana do Algarve. Estou certo de que Cristo nos dirigirá o mesmo convite proferido no início da sua vida pública e que constitui o coração de anúncio do Reino – arrependei-vos e acreditai no Evangelho –, apelo que se situa igualmente no coração da mensagem de Fátima”, disse. D. Manuel Quintas exortou assim à “penitência e oração”, “uma proposta de vida, traduzida em obras concretas e visíveis”, à “conversão do coração, mudança de vida”, através da oração, enquanto meio para adquirir melhor “qualidade de vida cristã”. Para isso, o Bispo diocesano apelou ao “conhecimento aprofundado da Palavra de Deus”, à “participação consciente e fiel” na Eucaristia dominical, à “prática da caridade a verdade de uma vida cristã, chamada a ser sinal e testemunho convincente do amor de Deus manifestado em Cristo”. “Escutar e fazer o que Cristo tem hoje a dizer-nos, enquanto Igreja diocesana do Algarve passa seguramente por um testemunho de fé, como luz que ilumina, orienta e aconchega; de esperança, como sal que preserva da corrupção, que tempera e dá sabor à vida; por um testemunho de caridade, como fermento que promove e multiplica a fecundidade do amor”, afirmou, considerando que “só um ousado e decidido testemunho cristão será capaz de se opor à indiferença e à ignorância religiosa, bem como superar a separação entre a fé que se professa e celebra e as opções pessoais quotidianas”. Depois de uma oração em que confiou toda a diocese ao cuidado de Nossa Senhora e após a enumeração das restantes vigararias, já no final da celebração, o Bispo do Algarve lembrou a última visita da imagem peregrina ao Algarve, há 53 anos, e mostrou-se surpreendido com a adesão dos cristãos algarvios. “Esperava que viesse muita gente, mas não esperava tanto”, admitiu, agradecendo aos que vieram de mais longe. Gostaria que esta noite ficasse gravada no coração de todos nós e sobretudo que, nos momentos mais difíceis da nossa vida, nos recordássemos dela e da presença de Maria na vida de Jesus, da Igreja e da nossa própria vida”, referiu D. Manuel Quintas mostrando-se confiante de que esta mesma resposta será dada em cada uma das paróquias por onde irá passar a imagem até 2009. No final, debaixo do acenar de muitos milhares de lenços brancos e de algumas salvas de palmas, a imagem recolheu à Sé e seguiu nessa mesma noite para Aljezur, a primeira a paróquia a receber a sua visita. Onda solidária e generosa com o ‘Lar da Mãe’ A terminar a homilia, D. Manuel Quintas lançou um apelo à diocese algarvia, “como expressão concreta” do testemunho cristão. “Que a passagem da imagem peregrina por todo o Algarve, nos mobilize a todos na resposta concreta a um compromisso diocesano assumido há diversos anos a construção do Lar da Mãe, obra social de acolhimento temporário às grávidas e mães solteiras, necessitadas de apoio, finalidade que a Caritas diocesana vem respondendo, mesmo sem um espaço adequado, como tal serviço o reclame e o exige”, disse, pedindo que a passagem da imagem peregrina por todo o Algarve, gere “uma onda solidária e generosa” que ganhe força em todas as famílias algarvias e em todas as comunidades cristãs, de modo a testemunhar, com esta obra, a sua conversão a Cristo e ao Evangelho e a edificação de “comunidades eucarísticas, fraternas e imbuídas de dinamismo missionário”.