Sexta-feira 29 de Novembro de 2019
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1506 – 19, 20 E 21 DE ABRIL – 2006

Era Domingo de Pascoela. O País vivia uma época de vacas magras. Três anos de seca e de reduzida produção agrícola. Tinha que se arranjar um bode expiatório. Durante uma missa dominical na Igreja de S. Domingos, um crente achou que a imagem de Cristo se tinha iluminado. Alguém questionou, alegando que se trataria simplesmente de um reflexo solar. Esse alguém era um cristão novo, um judeu recém convertido. Foi o suficiente! Foi arrastadado para a rua e linchado. Nesse dia 19 de Abril, Domingo de Pacoela e nos dois dias seguintes, 20 e 21 de Abril, foram perseguidos e mortos em Lisboa, quatro mil portugueses, pela única e exclsiva razão de serem portugueses de origem e tradição judaica. Muitos deles até se tinham convertido ao catolicismo. Nem tal conversão, sincera ou interesseira, lhes valeu. Foram mortos! Pessoalmente não fomos agentes de tal crime. Foram os nossos antepassados. Foram aqueles que há quinhentos anos eram católicos como nós somos hoje. Só posso sentir vergonha e pedir perdão. Quatro mil vidas foram abruptamente ceifadas. Injustamente interrompidas, com dor, sevícias, tortura e sofrimento. Foram autores de tão horrível massacre, pessoas cristãs, católicas, portuguesas, do cristianíssimo reino de Portugal, súbditos do Venturoso Rei D. Manuel I. Católicos, cegos e obstinados, incitados por clérigos de uma Ordem Religiosa, cuja espiritualidade nada tem a ver com semelhante ideologia anti semita. Essa Ordem é a mesma que deu grandes homens à Igreja em Portugal, como por exemplo o Beato D. Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga, um grande pastor da Igreja, um dos nossos mais ilustres padres no Concílio de Trento. Mas “no melhor pano cai a nódoa” e em 1506, naquele triste e lêdo Domingo de Abril, os padres dessa Ordem em lugar de acalmarem os ódios irracionais e serenarem os ânimos, antes pelo contrário os incitaram e ainda mais os incendiaram. Quinhentos anos depois, só podemos pedir perdão pelo passado vergonhoso e dizer “nunca mais”! Nunca mais à “matança dos inocentes”! Nunca mais às perseguições aos judeus ou a quem quer que seja. Nunca mais à “caça às bruxas”! Porque devemos saber ler bem as Escrituras, o­nde S. Paulo nos ensina que “não há judeu, nem grego, escravo ou livre”. O que há é a natureza humana. É o homem. E o homem, qualquer homem, merece respeito e amor.

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