Após a actuação de um grupo de dançarinos da Rússia, Ucrânia e Moldávia, deu-se então início à sessão que foi moderada pelo conhecido jornalista da SIC, Joaquim Franco. O moderador, que começou por introduzir a conversa com uma pergunta – “Porque razão se fala tanto da multiculturalidade particularmente na Europa?” – , considerou que “a Bíblia dá pistas interessantes para reflectir a direcção do diálogo cultural, das minorias e dos migrantes, pois “está impregnada desta dimensão das minorias e da necessidade do diálogo entre culturas e do acolhimento do diferente”. Nuno Martins lembrou que o povo judeu, “para transmitir a mensagem de Deus, está em diáspora por todos os lados do mundo”. “No Algarve existe uma comunidade judaica, constituída por holandeses, alemães, ingleses, que representa essa diversidade cultural que o Algarve é hoje”, justificou. Aquele representante da comunidade judaica, garantiu que esta “chegou a Faro no século XIX, teve a sua influência na sociedade local, gostava de viver em Faro, foi bem acolhida pela população local, e isso é um ensinamento para todos os portugueses e para todos os algarvios em especial”. Nuno Martins salientou que “os judeus da altura, como povo de diáspora e como povo colocado à parte da sociedade civil por causa das suas características, foram iniciadores da diversidade cultural”. Sobre a questão da multiculturidade ou multiculturalidade no concreto do espaço europeu, o representante do Judaísmo considerou que “a Europa nunca soube lidar com o problema religioso por vários motivos e nunca soube respeitar as minorias religiosas”, apontado a II Guerra Mundial e o Holocausto como exemplo dessa dificuldade. Nuno Martins considera que presentemente caiu-se num outro extremo. “O Estado e a lei é que mandam”, criticou, afirmando que “algo não bate certo”. “Para umas coisas existe a secularização, mas para outras já não é assim”, acrescentou, referindo-se concretamente ao questão do véu islâmico. “O conselho que eu deixaria aos juristas é que quanto menos se legislar sobre estes aspectos melhor”, advertiu. Helena Vilaça lembrou que nem sempre a multiculturalidade é sinónimo de igualdade de direitos para todos. Para aquela socióloga “pluralismo sugere tolerância e igualdade”, e, desse ponto de vista, “a história do Cristianismo teve muito poucos momentos de pluralismo religioso”, afirmou. Apesar disso, Helena Vilaça lembrou que o Cristianismo introduziu a “dimensão individual da fé”, a “fé como uma questão pessoal”. “O Cristianismo apela para a consciência individual e liberdade de opção, o que é completamente antagónico do fatalismo religioso das religiões pré-cristãs”, observou, considerando o Cristianismo da primeira fase como “uma religião puramente inclusiva onde todos os outros factores de identidade são relegados para segundo plano”. No entanto, Helena Vilaça salientou que o Cristianismo da segunda fase, cujo início coincide com a queda do império romano, e que se prolongou até à actualidade, “foi profundamente exclusivista e intolerante”. Aquela socióloga das religiões considerou ainda na sua intervenção que o individualismo e o secularismo, características tão denotadas na sociedade europeia contemporânea, não são fenómenos novos. “Está nas raízes do Judaísmo e do Cristianismo primitivo, recuperados depois na reforma protestante”, justificou. O padre Jude Arinze, sacerdote claretiano a trabalhar em Portimão, na paróquia de Alvor e no vicariato da Pedro Mourinha, há cerca de um ano e sete meses, encontrou semelhanças entre a multiculturalidade existente na Europa e em África, concretamente entre Portugal e o seu país natal: a Nigéria. “A Nigéria um país multicultural com 140 milhões de pessoas e três tribos principais, cada uma, com três línguas diferentes, através das quais mantêm a cultura. Numa destas tribos há mais cristãos do que nas outras, na parte ocidental do país há uma maior mistura de muçulmanos e cristãos e no norte há mais muçulmanos. No entanto, apesar de termos muitas diferenças, vivemos juntos como comunidade e como país”, relatou o sacerdote. “Na parte Este da Nigéria a religião condiciona a escolha dos nomes a atribuir às crianças”, testemunhou o padre Jude Arinze, com o seu próprio exemplo. “Mas no Oeste e no Norte já dão os nomes aos filhos de acordo com a sua cultura”, acrescentou, justificando que “a cultura no Norte e no Oeste é muito forte, embora, na parte Este, as pessoas sejam mais abertas”, sublinhou, garantindo que o que vê em Portugal lhe faz lembrar a cultura da parte Este da Nigéria, de onde é oriundo. “A forma como as pessoas aqui vivem o dia-a-dia, como se cumprimentam e como passam o dia, faz-me lembrar muito a forma como vivemos lá”, disse. No final do debate houve ainda a oportunidade de apreciar algumas especialidades gastronómicas de algumas das culturas presentes no Algarve. Mais fotos da exposição multimédia na Galeria de Imagens