À pergunta: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?”, não respondo: “Estava a preparar o Inferno para as pessoas que fazem perguntas incómodas.” Isso seria fugir à questão, diz Santo Agostinho nas suas Confissões. O Tempo vegetal Se dissermos a um agricultor que a sua sementeira apenas existe após as primeiras 10 semanas de vida, que dirá ele? Certamente que estamos doidos e nada percebemos de agricultura. Para o agricultor a sua plantação existe desde que lança as sementes de trigo à terra. Não será assim? O tempo modifica a aparência exterior da semente e da planta, mas não a sua existência enquanto ser. Se voltarmos a perguntar ao agricultor em que momento está mais preocupado com a sua seara, que responderá? De certeza desde que lança as sementes à terra e durante as primeiras semanas de vida. No início a seara é mais frágil, necessita de maior carinho e atenção enquanto não amadurece. Não será assia com todos os seres vivos? A protecção da Vida animal Cada vez mais ouvimos os defensores dos animais dizer, e com razão, que todos os animais (irracionais) têm dignidade na sua vida e na morte. Não devem ser maltratados, nem sujeitos a torturas. É necessário proteger a vida animal, principalmente as raças em vias de extinção. Cada vez mais a caça é proibida e limitada. E mesmo quando permitida proíbe-se a morte de fêmeas na época de gestação (e não apenas após as primeiras 10 semanas), assim como proíbe-se a morte de crias e animais jovens. A auto-estrada para o Algarve foi desviada do seu traçado original, segundo dizem, para preservar a vida de determinada colónia de morcegos. Um outro traçado de uma via rápida no norte do país foi desviado para proteger-se a vida de uma alcateia de lobos. Louvamos e somos solidários com esta crescente preocupação pela defesa e preservação da vida dos animais (irracionais). Mas será que este crescente interesse pela vida dos animais corresponderá também uma crescente protecção pela vida do homem (racional) desde o seu início? O caso de um recém-nascido No dia 9-10-2004 chamou-me à atenção ver um timorense (Henrique de Carvalho) construir uma campa de bebé recém-nascido, seu sobrinho, no cemitério Rai Koto, em Comoro, Dili, Timor-Leste. Ao lado da campa no chão estava uma cruz de madeira estragada pelo tempo, na qual conseguia ler-se: «Júlio de Carvalho, nasceu e faleceu em 27-05-1993». Ou seja, passavam já 11 (onze) anos após a morte do recém-nascido. Porque só agora teve oportunidade, o tio lá estava a construir a sua campa com o maior carinho e amor do mundo. Este é um dos muitos exemplos de que os timorenses têm um respeito e veneração especial pelos seus defuntos, em especial pelas crianças. O tempo aqui não esmoreceu a memória e amor pelo recém-nascido. O culto aos mortos é também um modo de venerar a dignidade da vida, independentemente do decurso do tempo, mesmo quando se trata de um recém-nascido. “Como tudo roda entre essa dicotomia vida e morte estão intimamente ligadas. O vivo nunca se sente tranquilo enquanto não contribuir para o repouso definitivo do morto”. Diz Ramos-Horta (no filme Timor-Leste O Sonho do Crocodilo de Diana Andringa, 2004). A imprecisão do tempo Segundo Santo Agostinho, Deus existia fora do tempo, que só começou com a criação do mundo. O tempo é uma função da mente humana, mais do que uma coisa real no mundo. Como medir o tempo? “O tempo é simplesmente uma extensão, embora não faça ideia de quê.” “Quando meço o tempo, é a imprecisão que meço”, diz Santo Agostinho. Será que o simples decurso do tempo é determinante para definirmos a dignidade da vida humana? Esta dignidade pode ser medida em dias ou semanas? Não será o decurso do tempo uma medida precária, uma “medida de imprecisão”? Espero que não sejam estas as perguntas incómodas a que se refere Santo Agostinho!