Constatando que “há, cada vez mais, espiritualidades, correntes e movimentos espirituais”, que se afastam das tradições religiosas, Ambrosio alertou que “a família cristã corre o rico de ficar fora de moda porque também o cristianismo corre esse risco”. O conferencista defendeu que “toda a família e também a cristã não pode ser uma realidade sujeita às tendências passageiras fundamentadas no gostar ou não gostar como é a moda”. “Apesar disso a família cristã tem de ser uma realidade encarnada em cada momento concreto da história, sem deixar de ser fiel à sua identidade. Haverá um filão que identifica a família cristã e que é o mesmo em todos os momentos da história, mas há outro filão que tem de ser obrigatoriamente diferente em cada momento da história, porque é o próprio dinamismo da encarnação que exige que assim seja”, advertiu na intervenção, alertando que a família deve estar muito atenta à realidade concreta de cada momento. Juan Ambrosio considerou que “o cristianismo não é antagónico à realidade, nem a realidade ao cristianismo”. “Posso ser um homem modermo e cristão”, justificou. Na sua apresentação, Juan Ambrosio destacou o facto de ser na família que o homem aprende a língua materna, ou seja, o sentido para a vida. “Com cada palavra que eu aprendo vem o peso do significado e sentido dessa palavra. Quando eu aprendo uma língua, não aprendo só a palavra, mas o sentido que essa palavra tem, um sentido para a vida”, esclareceu, designando este processo como “o ‘empalavrar’ da realidade”. “Aquilo que não sou capaz de traduzir por palavra (escrita, pensada, imaginada, ou que nem sequer é capaz de ser escrita por fonemas mas é um símbolo) não faço meu, não assumo humanamente, não faz parte do meu horizonte de vida”, complementou, lançando uma interrogação à assembleia presente: “Como ‘empalavrar’ Deus?”. “Se eu não ‘empalavro’ o mistério de Deus, não O faço meu, não O assumo, não faz parte do meu horizonte de vida”, explicou. Justificando que “a capacidade de expressar e de dizer é fundamental” para passar do caos ao cosmos, Ambrosio aludiu que “o ser humano precisa de dizer a partir de uma multiplicidade de linguagens, porque a realidade é complexa”. “Se eu não utilizo todas as linguagens há certas áreas do meu viver que ficam condenadas ao mutismo, ou seja, não são ditas. Reduzir a condição humana a uma única linguagem é um perigo tremendo”, defendeu, lembrando que “a sociedade hoje fala predominantemente a linguagem do económico e tem muito pouca capacidade para entender outro tipo de linguagens como a do religioso ou do simbólico”. O conferencista advertiu ainda que “a família cristã tem de transmitir as letras e a gramática com que se escreve e fala a linguagem cristã”. “Se a família cristã não inicia as suas crianças na linguagem do religioso, há determinadas zonas da vida que não serão ‘empalavradas’, logo serão condenadas ao mutismo”, referiu, lembrando que “o mistério de Deus sempre está no meio da vida das pessoas, mas há pessoas que não têm as ferramentas e a linguagens necessárias para ler esse mistério, o que quer dizer que a dimensão do mundo que aí está escrita jamais se abrirá para essa gente e muitos deles não aprenderam essa linguagem porque depois não lhes transmitiram nem as letras nem as gramáticas com que se lê e se fala essa linguagem”. “Para muita gente o mistério de Deus será sempre uma zona reservada ao mutismo pois não pode ser dita porque não percebem o que lá está”, afirmou o conferencista, assegurando que “a iliteracia religiosa é dos principais problemas das nossas famílias”. A terminar apresentou alguns “desafios concretos” a que a família cristã é hoje chamada a responder para que não aconteça esta iliteracia religiosa. “As famílias devem ser estrutura onde se promove a formação integral das pessoas”, exortou. “Desenvolvemos muito nas nossas crianças as capacidades e competências humanas e esquecemos-nos de desenvolver as capacidades e as competências divinas”, complementou Juan Ambrosio, lembrando que “o respeito pelos nossos filhos implica as perspectivas possíveis: as científicas, e as históricas, mas também as religiosas com a finalidade de facilitar a construção da sua própria identidade”. “È urgente que a família dê uma visão onde apareçam várias referências e entre elas a referência de análise e interpretação cristã”, apelou. Ambrosio destacou ainda a necessidade de “possibilitar, testemunhar e promover o encontro com Jesus Cristo” na família. “Ensiná-los a ser fiéis a Deus e fiéis à condição humana. Sempre esta dupla e não uma à custa da outra”, complementou. A importância de aprender a escutar a Palavra foi outro dos aspectos salientados por Juan Ambrosio. “Um dos dramas do cristianismo da nossa actualidade é sermos soberbos, arrogantes e cheios de nós mesmos”, mas “Deus é sempre mais do que aquilo que nós dizemos d’Ele”, afirmou, considerando que ser necessário ajudar os diversos membros da família “a escutar a Palavra com a consciência de que o mistério nunca se esgota na sua tradução”. Ambrosio desafiou ainda as famílias algarvias a darem razões da sua esperança. “A proposta cristã não é hoje a única proposta”, constatou, recordando que “se há uns tempos atrás ela não tinha concorrência e bastava-se a si própria”, hoje a proposta cristã tem de ser fundamentada com razões de ser. Destacando também a oração como uma das linguagens que importa aprender desde tenra idade, o teólogo lembrou que como todas as linguagens, também esta só se aprende falando. “Depois admiramo-nos que os nossos jovens não rezem…”, examinou Juan Ambrosio, incitando a que se comece a falar esta linguagem, a “língua materna do cristianismo”. “Tal como em qualquer língua materna eu aprendo o entendimento que essa língua tem do mundo, ao falar a língua materna do cristianismo, eu aprendo a cosmovisão do mundo que Deus tem. Aprendo a olhar o mundo com os olhos de Deus, a entender o significado do mundo que o próprio Deus lhe dá”, explicou. Às famílias algarvias pediu ainda que sejam “sinal de Boa Nova”. “O cristianismo precisa de ser testemumha e veículo de uma cura concreta para as feridas concretas do ser humano de hoje”, concretizou, acrescentando que “tem de ser uma Boa Nova concreta para o homem concreto de cada momento da história e por isso é fundamental que as nossas famílias se comprometam na construção da história humana”. “O cristianismo não pode ser mais só uma experiência social, mas tem de ser uma experiência pessoal”, completou. Juan Ambrosio salientou que “a qualidade do cristianismo constrói–se”. “Posso ter bons homens e mulheres sem ser cristãos. Mas não posso ter bons cristãos senão forem bons homens e boas mulheres. Posso ter boas famílias sem serem famílias cristãs, mas não posso ter uma boa família cristã se não assumir até às últimas consequências a missão de ser família. O desafio passa por, na família, viver a vida concreta no horizonte de Deus. Se quisermos ser verdadeira família cristã temos de procurar o mistério de Deus no interior da família, mas viver a missão da família no interior do mistério de Deus”, concluiu.