Quinta-feira 22 de Agosto de 2019
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“A família está a desaparecer” afirmou mons. Feytor Pinto às ‘Famílias em Congresso’

Com a participação de cerca de 350 pessoas, entre as quais muitas famílias de Loulé e de outros pontos do Algarve, a conferência do monsenhor padre Vítor Feytor Pinto, subordinada ao tema ‘Os Desafios da Família’, diagnosticou muitas problemáticas e lançou apelos fortes à estrutura familiar actual, particularmente à preconizada no seio da comunidade cristã. Por outro lado, a prelecção do orador elucidou claramente os presentes sobre a posição da Igreja Católica no que se refere a muitas matérias relacionadas com a Vida. Membro do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e coordenador Nacional da Pastoral da Saúde, monsenhor Feytor Pinto começou por interrogar: "Que modelo de família queremos?". "Que modelo ao nível da estrutura jurídica? Uma família civil, com uma marca religiosa, católica ou de outra religião? Ou uma união de facto?", questionou, considerando que "há hoje famílias extremamente interessantes, com bastante estabilidade, e que não são mais do que uma união de facto". Não obstante, esclareceu que "como cristão desejaria que todas as famílias tivessem um quadro de modelo cristão. Um homem e uma mulher a amarem-se profundamente e a partir desse amor, uma vida que se multiplica responsavelmente". "Uma consciência da própria comunidade na responsabilidade parental e a partir daí a construção de uma felicidade através de uma estabilidade conseguida", complementou, interrogando: "e onde estão essas famílias? As nossas famílias serão assim?". Interpelando a assembleia presente considerou "urgente redescobrir a família numa sociedade quase já sem família". "Saem todos de casa por volta das 7 da manhã e voltam a reencontrar-se às 8/9 da noite. Os filhos ficam na escola ali ao lado e depois, com o banho já tomado, quando os pais chegam a casa a criança já está de pijama, o que é dramático", constatou, afirmando que "o problema das relações torna-se dificílimo". "Quando eu falo da dificuldade na relação entre os cônjuges é porque a sua vida profissional, social ou outras vidas impedem tantas vezes a relação estável que daria a felicidade necessária", referiu, defendendo que "talvez seja necessário redescobrir o universo relacional porque a família está a desaparecer". Objectivo: A felicidade de todos Referindo-se à "institucionalização dos mais velhos", lembrou que "hoje quando uma pessoa atinge uma certa idade, a tentação de toda a família é ver se encontram lugar num lar para que ele tenha cama, mesa e roupa lavada". "Onde é que está a família? Já não cabem lá os mais velhos. É a própria sociedade que desestrutura a família. Porque a família perdeu o jogo dos afectos – que é aquilo que a caracteriza melhor – conseguido em ordem à felicidade da criança, do adolescente, do jovem, do casal, dos aderentes e dos mais velhos", identificou. Lembrando que "o serviço à vida implica duas perspectivas – a transmissão e a educação" – monsenhor Feytor Pinto salientou que "o objectivo da família é atingir a felicidade de todos os seus membros, a felicidade na unidade" e defendeu "a optimização das relações dentro da família" que considerou ser "lugar de cultura, de fé e de felicidade". Falou da importância de se criar, dentro da família, "o mecanismo do amor que supõe o perdão, a re-conciliação, a unidade, o diálogo construtivo, a avaliação, a correcção de atitudes e a solidariedade permanente". A evolução do pensamento eclesial O sacerdote lembrou que, a par da "comunhão de vida", é a "continuação de vida" que a Igreja considera ser o "objectivo primário da família". "Durante muito tempo a própria Igreja afirmou que o objectivo primário do matrimónio era a fecundidade e a procriação. O Vaticano II há 40 anos contrariou esta orientação. Veio dizer que há 2 fins primários no matrimónio: primeiro a comunhão de vida e em segundo a continuação responsável da vida", esclareceu, explicando que "as famílias cristãs têm como dever primeiro viver a comunhão e a unidade e quando vivem a unidade merecem a procriação". "É que se não for assim nascem crianças indesejadas e isso não pode acontecer. Toda a criança que nasce dever nascer por uma atitude responsável do pai e da mãe", defendeu. "Confunde-se sexualidade com actividade sexual" Monsenhor Feytor Pinto considerou que "só através do exercício correcto de uma sexualidade assumida" é que a "transmissão da vida" se consegue. "Infelizmente a maior parte dos cidadãos não sabe o que é a sexualidade e confunde-a com actividade sexual que é o elemento mais pobre da sexualidade", lamentou, advertindo que a "sexualidade é um dinamismo que atinge a vida toda do homem" e que tem "duas componentes fundamentais: a afectividade e a genitalidade". "O prazer é um bem quando enquadrado em objectivos" Monsenhor Feytor Pinto, esclarecendo a posição da Igreja perante o prazer na vida afectivo-sexual, explicou que quando esta é conduzida pelo prazer "logicamente tudo está deformado". Identificando três objectivos para a sexualidade – "comunhão de vida segundo um projecto, continuação da vida segundo um quadro de responsabilidade e prazer, com a riqueza que traz consigo" – o conferencista lembrou que, para a Igreja, "o prazer também é um bem quando enquadrado em objectivos". Caso contrário "é de um egoísmo brutal e é isso que acontece por aí em todo o lado e daí que é impossível controlar, de maneira responsável, a própria continuidade da vida. Porque este homem e aquela mulher que tiveram relações, não se amam ao ponto de se comprometerem um com o outro. Utilizaram-se", clarificou, considerando que "não respeitar a sexualidade humana é o drama que está na origem de tragédias". Educação integral da pessoa humana Defendendo a educação integral da pessoa humana, sob o ponto de vista físico, psicológico, social, cultu-ral, espiritual e religioso, monsenhor Feytor Pinto lembrou que esta é "extensiva à vida toda do ser humano". Advertindo para a chamada educação paralela, lembrou que "quem educa não é só o pai e a mãe, a escola e a catequese". "Ou ensinamos as nossas crianças e jovens a dizer não, ou eles não saberão reagir a elementos altamente negativos e estarão sujeitos a todas as agressões", justificou, acrescentando que "só uma educação critica permite utilizar os recursos e não se deixar influenciar pelas correntes de opinião" e que "qualquer educador tem de educar pela presença, pelo testemunho e pela palavra oportuna". "50% dos casais não são felizes porque não se prepararam para o casamento" Referindo-se também à responsabilidade eclesial em todo este processo, recordou que “a Igreja deve assegurar a comunhão do casal, a transmissão generosa da vida, a educação cristã dos filhos e um testemunho de vida”. “Infelizmente limitamo-nos tantas vezes a ajudar na preparação do casamento de um rapaz e de uma rapariga e depois deixamo-los caminhar sem os inserir de imediato numa dinâmica de vida cristã que lhes permita, ao longo do seu caminho, fazerem opções de vida na linha da transmissão, da educação e da felicidade”, lamentou, referindo-se ao trabalho realizado pela Igreja ao nível da preparação para o Matrimónio. A este respeito, monsenhor Feytor Pinto garantiu ainda que “50 por cento dos casais que casam anualmente não são felizes porque não se prepararam para o casamento”. “Não tiveram o cuidado de preparar e descobrir e a primeira coisa a descobrir e a respeitar é o outro. A segunda é o amor. É que se julga que o amor é paixão e não é. Se o amor não é paixão, também não pode ser desejo. Por outro lado o amor também não é sentimento. O sentimento é muito ténue”, justificou. Procurando definir o conceito de amor citou o filósofo e pedagogo Erich Fromm que diz que “amar é sair de si para ir ao encontro do outro e fazê-lo feliz em todas as circunstâncias”. “Este amor raras vezes existe por isso, muitas pessoas ao casarem não radicaram num amor que desse estabilidade ao próprio casamento”, concluiu. "Igreja aceita nalguns casos a PMA homóloga, mas rejeita sempre a heteróloga" Debruçando-se sobre o problema da infertilidade, o conferencista adiantou que "16,5 por cento dos casais jovens são infecundos neste momento em Portugal". "Motivado por quê? Pelo estilo de vida que se vive que deturpa e destrói as fontes da vida", concluiu monsenhor Feytor Pinto, lembrando que "a infertilidade é uma deficiência que pode ser ultrapassada pela técnica e a técnica deve ir ao encontro dessas pessoas quando há razões para uma terapia de fertilidade". A próposito desta matéria, o ponente considerou que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) teve uma "coragem fabulosa" quando recentemente veio dizer que "há situações em que por causa da felicidade, da estabilidade emocional do casal ou para educar melhor os filhos já nascidos ou por causa do equilíbrio dos filhos em desenvolvimento se pode justificar uma Procriação Medicamente Assistida (PMA) homóloga (com os gâmetas do casal)", assumindo uma posição diferente do Papa João Paulo II que afirmou na encíclica ‘Evangelium Vitae’ que a PMA é sempre de recusar, indesejável e de não considerar. Dentro da PMA, aquele membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida explicou que não vale tudo. "Pedimos muito aos técnicos que não utilizem o método FIVETE (fertilização artificial in vitro) porque aí praticamente há sempre embriões excedentários", o que a Igreja considera "completamente ilegítimo". Já o GIFT e sobretudo a injecção citoplamática são métodos aceites pela Igreja porque não têm embriões excedentários. "O desafio ético, ao pormos questões éticas neste processo obriga o cientista a ir mais longe e tentar descobrir a dificuldade que lhe surgiu através da objecção dos investigadores", referiu monsenhor Feytor Pinto que frisou que "o que é completamente inaceitável é o problema muito grave da fecundação artificial heteróloga em que se vai buscar um óvulo ou um espermatozóide fora do casal". "Traz repercussões brutais para a união do casal e consequências graves porque não permite a identificação da paternidade e transporta também um grande sofrimento para a mulher que se sujeita a estas técnicas", clarificou. Igreja contra a utilização de células estaminais embrionárias Também ao nível das células estaminais a Igreja recomenda que não sejam utilizadas as estaminais embrionárias (retiradas ao embrião) porque se destrói a Vida. “Não aceitamos que as estaminais embrionárias possam sequer ser utilizadas para reprodução”, confirmou monsenhor Feytor Pinto. Já as estaminais adultas (por exemplo retiradas da pele de um adulto) ou as germinativas estaminais (por exemplo do cordão umbilical) não apresentam para a Igreja qualquer problema. "O homem é colaborador mas não o Senhor da Vida" Lembrando que "o homem não é o autor da Vida", mas que apenas "colabora no poder criador de Deus, através da sexualidade, a riqueza maior de que o homem é portador", o conferencista considerou que "o pecado humano está em querer ser o homem o Senhor da Vida". "Temos de saber que a solução para a maternidade indesejada não está na interrupção voluntária da gravidez", advertiu o sacerdote, aludindo que "é necessário prever as situações, o que só é possível com uma educação sexual responsável". "Com todos os métodos que hoje as pessoas têm à sua mão e com toda a capacidade que têm de dizer não uma educação responsável, levaria a que não fossem surpreendidos com uma fecundação indesejada", afirmou, garantindo que, "perante a Vida, seja qual for o lugar onde ela está em desenvolvimento, há valores sagrados a respeitar sempre" e que "a função da medicina é defender e promover o ciclo vital". Lembrando a posição da Igreja "quando alguém é arrastado para uma situação de ruptura", sublinhou que só existe uma atitude: "a do perdão com o propósito de emenda". Considerando que "para uma família ser feliz é preciso que respeite, que eduque, que promova a vida e que tenha qualidade de vida", o conferencista lembrou que "há muitas formas de construir a família como centro da vida", dando como exemplo a adopção. Sobre a objecção de consciência defendeu a sua legislação, recordando que "apenas é um direito mas não está legislado" e que se trata de um "direito individual" e não colectivo, de "um direito livre que não pode ser condicionado". “Por vezes chamam eutanásia àquilo que não é” Relativamente ao respeito pela Vida no outro extremo do ciclo vital, monsenhor Feytor Pinto, salientou que a eutanásia, ou seja, o acto de “precipitar a morte”, “é sempre ilegítimo”. “Acontece que por vezes chamam eutanásia àquilo que não é eutanásia”, afirmou, referindo-se à distanásia e ao encarniçamento terapêutico, “um prolongamento exagerado da vida, às vezes até indicação de prolongamento, quando a morte já se deu”. “Eu posso, com máquinas, manter a respiração ou a monitorização cardíaca, mas a pessoa já morreu. Isso é anti-humano. Se os cuidados que estão a ser prestados são fúteis, inúteis e despropositados devemos ajudar a pessoa e dar dignidade à morte, permitindo ao doente que adormeça em paz”, explicou. “Caso Esmeralda é porque não temos leis sérias, certas e suficientes” A propósito do caso Esmeralda, monsenhor Feytor Pinto lamentou o actual panorama da adopção em Portugal. “Não temos leis sérias, certas e suficientes para o problema da adopção das crianças e é por isso que depois aparecem casos como o da Esmeralda”, afirmou, acrescentando: “temos de ter justiça com leis muito profundas, sérias e humanas”.

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