O Estado é laico, e a abertura solene do ano judicial é por natureza uma “liturgia laica” e nem de outro modo poderia ser. Porém, os cristãos, quando conscientes e responsáveis, não se demitem dos seus deveres e o seu primeiro dever é rezar, é interceder a Deus pelos homens e pelas instituições humanas, particularmente quando os homens ou as suas instituições estão doentes, estão como se diz, em crise. Foi assim que muitos cristãos, profissionais do mundo forense, de todas as profissões forenses, não quiseram deixar passar o dia da abertura do ano judicial, sem se encontrarem antes da cerimónia oficial, para juntos rezarem pela Justiça, pelas instituições da Justiça portuguesa. Num regime de saudável separação entre o Estado e as Igrejas, como felizmente é actualmente o nosso País, não há lugar para uma celebração de cariz religioso no contexto de uma cerimónia oficial de Estado, como seguramente é a abertura do ano judicial, mas nada impede que nessa ocasião, aqueles que o desejem, livremente se encontrem para celebrarem a fé, tendo como intenção comum e preocupação central o tema da justiça. Esta é uma nota que, por si só, merece ser salientada, é um sinal positivo da maturidade da fé daqueles que se juntaram para promover esta iniciativa: Não foi o Estado, através de um qualquer dos seus orgãos quem pediu para ser celebrada aquela Eucaristia, nem foi a Igreja, através da sua hierarquia ou de um qualquer secretariado pastoral quem se lembrou de tomar uma tal iniciativa. Foram os cristãos profissionalmente inseridos na vida judicial que tomaram a iniciativa de promover esta celebração. Por curiosidade refira-se que o convite era assinado, em nome dos promotores, por um representante de cada uma das profissões judiciais: Um Juíz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, uma Procuradora-Geral Adjunta, um Advogado, (por sinal também Professor de Direito), um Solicitador e um Secretário Judicial. A Eucaristia foi marcada para as 12H30, mas a partir das 11 horas quem quisesse podia ainda preparar-se melhor junto de um Confessor. D. José Policarpo saudou os participantes, como que justificando aquele encontro: «Porque sois crentes, viestes para ouvir a Palvra de Deus, no desejo de encontrar nela luz inspiradora para a importante função de administrar a Justiça.» O Patriarca de Lisboa, em palavras oportunas e lucidas, alertou os presentes para a necessidade de «escutar as pessoas…escutá-las porque são pessoas, independentemente da posição social que ocupam… nunca as confundindo com o seu presumível crime, pois toda a pessoa é sempre mais que o seu pecado», recordando que «nenhum sistema judicial, por mais perfeito que seja, garantirá cabalmente a justiça na sociedade, se esta não assentar na busca da verdade e da justiça». A relação entre a fé a justiça vem já dos tempos da Antiga Aliança. É assim que por exemplo podemos ler no Salmo 98 «Vós sois o rei que ama a justiça: Vós estabelecestes o que é recto e exerceis em Jacob o direito e a justiça» ou no Salmo 96: «O Senhor é rei: exulte a terra, a justiça e o direito são a base do seu trono». Isto significa que Deus quer que a justiça e o direito, constituam como que a base, os fundamentos, os alicerces de uma sociedade de rosto humano, de uma sociedade inspirada em valores éticos, de tal modo que inspirou ao salmista colocar esses valores fundamentais como se fossem pedras basilares do trono divino, que o mesmo é dizer que apresentasse a justiça e o direito, como os valores fundamentais o­nde assentam e se desenvolvem as relações entre todos os seus filhos.