Para iniciar, o sacerdote começou por elucidar que “o sentido da vida implica e é sempre o sentido e resultado do mistério da própria morte”, lembrando, como exemplo, que, desde a concepção, morrem células para dar lugar a outras. Por outro lado, constatou que é sempre diante da realidade da morte que o ser humano mais se angustia com “o temor de que tudo acabe para sempre”. “Acho que é isto que nos faz temer a morte”, considerou. “A vida para além da morte está tão vedada para nós neste momento como quando éramos pequeninos no seio da mãe estaria esta que agora vivemos”, justificou. “O que é que é a vida junto de Deus? O que é que é a morte? O que é que nos vai acontecer?”, questionou, interpelando a reduzida assembleia presente, apenas constituída por cerca de 12 elementos. “É preciso humildade suficiente e crescimento também para entendermos que isso não nos pertence só a nós e um dia haveremos de viver essa verdade. Conheceremos Deus, verdadeiramente rosto a rosto. E portanto a morte não é o fim de nós mesmos”, respondeu. Analisando igualmente a “mediatização do fenómeno” em contraponto com a “difusa anulação dos seus sinais e até da própria presença e expressão da morte”, o padre Carlos de Aquino exemplificou com o sucedido com a morte do Papa João Paulo II, em contraste com necessidade de hoje de construir os cemitérios em locais afastados ou destituídos de qualquer elemento que recorde o fenómeno. “Se puder ser um jardim sem cruzes, nem pedras, tanto melhor”, realçou, identificando tratar-se de um “pensamento ocidental secularizado a respeito desta questão”. O sacerdote esclareceu que “a realidade da morte para um cristão tem sempre um sentido positivo e nunca corresponde a uma fatalidade”. “A maior dificuldade hoje para se entender, aprofundar e acolher o fenómeno da morte é andarmos muito confusos sobre a realidade da vida”, defendeu, considerando que “quem mais medo tem da morte é que mais medo tem da própria vida”. “Pessoas que não assumem por inteiro a vida e não são livres diante da vida são as que mais dificuldades têm em entender a própria fenomenologia da morte”, complementou. O padre Carlos de Aquino acrescentou ainda que “morrer é um acto que se realiza ao longo da vida inteira, com intensidade variada, e não apenas um momento”. “É um acto cristão que se realiza ao longo da própria existência. É um acto cristão de autêntica liberdade e não um sofrimento passivo. Por isso a morte é sempre um espaço concreto e nunca um desastre fatal de uma desistência ou desencontro”, explicou, admitindo que “para aqueles que não são crentes, a morte, deve ser um acontecimento trágico”. Constatando que “o homem é uma unidade de espírito e corpo”, o conferencista justificou assim porque não defende a Igreja a teoria da reencarnação. “Não acreditamos na reencarnação porque isso é negar a unicidade da pessoa que é corpo e espírito”, completou. Quase a concluir, o padre Carlos de Aquino afirmou que, “para o cristão, esse fim último acaba por ser apenas aquilo que durante toda a sua existência foi um perder-se para si mesmo para se dar, à semelhança do que aconteceu com o próprio Jesus”. Por outro lado, relacionou ainda a morte com o Baptismo. “A nossa morte recebe o valor de um processo de nascimento que nós mesmos não nos podemos dar. Mas quem nos dá esse renascimento é o Espírito de Deus”, afirmou o sacerdote, certo de que “a ciência pode evoluir muito, mas nunca ressuscitará um morto”. “Quando celebramos o sacramento do Baptismo, com a passagem para vida nova, o que é que vamos fazendo em cada dia? Não é ir aperfeiçoando-nos em cada dia e silenciando esse mistério de morte que acontecerá de modo mais fecundo na hora da nossa morte? Esse momento é apenas o finalizar de um processo que iniciamos quando vivemos e assumimos esta verdade do nosso Baptismo”, concluiu.