No início da sua conferência, começou por evocar Platão, constatando que já no século IV a.C. era reconhecida por alguns a importância da Palavra. “Que poder tem para nós a Palavra? Quem conhece a Palavra, conhece a realidade”, citou o sacerdote, observando que “Deus cria pela Palavra a realidade ontológica”. O padre Dinis Faísca salientou igualmente que “o Novo Testamento, tal como o Antigo Testamento, reconhece na Palavra o poder de criar”. “Tudo foi feito pela Palavra e sem a Palavra nada foi feito”, sublinhou, lembrando que “Jesus Cristo é a encarnação da Palavra criadora do Pai” e que “a desordem anterior à criação do universo é a desordem da ausência das palavras, do silêncio de Deus”. O sacerdote, que alertou para o facto de que o “acto de dar nome, chama as coisas ao nosso mundo, à existência”, advertiu também para a consciência de que “a Palavra cria a realidade, positiva ou negativa, na interacção com os outros”. Referindo-se à evolução do nominalismo – que afirma a identidade entre os nomes e as coisas –, passando para o conceptualismo – que defende que as coisas transcendem as palavras –, até ao construtivismo – que declara que a palavra constrói a realidade – justificou que “até as realidades mais profundas são uma construção”. “Até as correntes psicológicas mais materialistas admitem a força e a capacidade de regeneração e de construção da própria Palavra”, alertou o padre Dinis Faísca, considerando a realidade como “uma construção do sujeito que pensa e acontece na interacção entre sujeitos pensantes”. Como exemplo apresentou o caso dos primeiros cristãos que “não tiveram a pretensão de construir uma matriz religiosa e cultural desenraizada das tradições judaicas e pagas antigas, por isso, mais que criticar e combater a cultura reinante, aproveitaram-se dela para difundir a mensagem da Boa Nova cristã”. “Utilizaram a mensagem cristã como fermento para levedar o mundo. Foram capazes de lançar um olhar positivo sobre a realidade pagã e vislumbrar aquilo que nela havia de bom para potenciá-lo e «contaminá-lo» com o amor de Cristo”, complementou. A terminar, deixou um apelo aos presentes. “Chegou a hora de tirarmos os «óculos» do pessimismo e vermos o mundo com o olhar da esperança que provém de Deus e de participarmos na obra da criação de um mundo cada vez mais justo e fraterno”, concluiu.