A propósito, lembrou que os gestos realizados na altura em que Jesus fez uma leitura na Sinagoga de Nazaré continuam a ser ainda hoje os gestos da proclamação da Palavra nas assembleias cristãs actuais. No entanto, “hoje as nossas assembleias são menos festivas e parece que menos encantadas pelo mistério da Palavra. Nós não damos tanto valor sagrado à Palavra como damos ao Pão da Eucaristia. Falta-nos muito fazer esta unidade”, lamentou o coordenador do Departamento Diocesano da Pastoral Litúrgica, lembrando que “por detrás do leitor que proclama o texto sagrado, é sempre o Espírito Santo que fala, tal é o mistério e a grandeza do exercício da proclamação da Palavra nas assembleias cristãs”. Procurando interpelar a assembleia interrogou, quase em jeito de provocação, sobre a actualidade dos textos sagrados. Corrigindo, sublinhou que as questões que devemos aprofundar são: “porque proclamar ainda hoje a Palavra de Deus em celebração? Que finalidade temos ao celebrar a Palavra de Deus? Para que serve ler a Escritura na assembleia sagrada?”. Em resposta sublinharia que “o reflorescimento da Igreja, empreendido pela reforma conciliar, tem a sua raiz na Palavra de Deus e aí busca toda a força”. “Urge continuar a converter sem cessar toda a comunidade cristã, sufocada e envelhecida, não raras vezes pelo peso do cerimonioso, do ritual, da instituição, numa Igreja verdadeiramente aberta e renovada pelo Espírito que age na força da Palavra que é uma pessoa: Jesus Cristo”, defendeu. Mais adiante, referindo-se à celebração da Palavra como “celebração da Aliança”, havia de explicar que “as duas partes de que consta a missa – a Palavra e a liturgia eucarística – estão extremamente unidas que formam um único acto de culto: a celebração memorial da Nova Aliança”. “Tanto no Sinai como hoje na missa, a Palavra é o fundamento da Aliança de Deus com cada criatura humana que a acolhe na fé. Agora se compreende que, sendo o fundamento dessa Aliança e da Eucaristia, só ela tem lugar e só pode ser utilizada como leitura na celebração cristã”, clarificou. “Como não há Eucaristia ou celebração cristã sem celebração da Palavra, assim também não há celebração da Palavra sem a celebração da Aliança Nova de Deus connosco e de nós com Deus”, acrescentou. A propósito da unidade entre Palavra e Liturgia, citando Bento XVI para lembrar que “escritura e liturgia convergem num único fim: levar o povo ao diálogo e à obediência da vontade do Senhor”. “A Palavra que saiu da boca do Senhor, testemunhada nas Escrituras, volta para Ele em forma de resposta orante, vivida e resposta que brota do amor”, destacou. Questionando sobre “de onde vem a importância da Palavra de Deus”, explicou que a mesma é “criadora e a raiz de tudo quanto existe”, inclusive “da própria comunidade eclesial reunida, reflexo do seu chamamento e do seu amor” e que “a Palavra salva”. “Somos chamados, convocados, reunidos, criando-se comunhão entre nós a partir da Palavra de Deus. Deus ainda hoje continua a chamar cada comunidade eclesial pela sua Palavra eterna, por Jesus. A comunidade que crê e acolhe a Palavra é a cada instante recriada no amor”, frisou, defendendo que “a escuta da Palavra deve renovar-se sempre, incessantemente”. “Se queremos crescer no caminho da aprendizagem da vontade de Deus a nosso respeito temos de ouvir com o coração de discípulos, não episodicamente mas todos os dias esta Palavra”, confirmou. Salientando, como outros oradores, a unidade entre Palavra e o Corpo de Cristo feito Pão, o padre Carlos de Aquino elucidou que “a Palavra tem a mesma importância que a Eucaristia”. “A Palavra é tão venerável quanto o Corpo do Senhor. Aquele que comunga a Palavra comunga o Senhor”, justificou, explicando que “a Palavra da Aliança Nova pede sempre uma fé viva que cresce na medida em que se alimenta da própria Palavra”. A terminar, aludiu que “a Palavra de Deus, quando é anunciada pela Igreja e levada à prática, ilumina os fiéis pela actuação do Espírito e arrasta-os a viver na sua totalidade o mistério do Senhor” e alertou para alguns aspecto práticos como a tonalidade ou a altura da voz. “Há muita gente que quer proclamar a Palavra de Deus na Igreja, mas não tem vocação. A proclamação da Palavra deve evitar sempre o estilo oratório, enfático, seco ou rígido ou mesmo teatral do texto. É preciso prestar-se atenção aos diferentes géneros literários do texto e que são tão diferentes. É grave ler-se muito depressa e esta é uma tentação de todos os leitores”, advertiu, lembrando que “o leitor litúrgico não informa, proclama” e por isso “deve permitir uma assimilação orante por parte da assembleia”. Por fim, aconselhou a “alegria, a beleza e a interioridade” para que a Palavra de Deus seja “uma verdadeira celebração”.