Esta iniciativa, que o pároco de Ferreiras, o padre Carlos César Chantre, também ele caboverdiano, classificou como uma “constelação de cores e de cultura”, um “momento de louvor a Deus e solidariedade entre os africanos”, teve, nesta sua 14ª edição, a participação de largas centenas de africanos, assim como a presença do padre Júlio Tropa Mendes, responsável pelo Sector das Migrações e Comunidades Étnicas da diocese do Algarve, entre outros sacerdotes, de Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, e diversos responsáveis de entidades e serviços regionais e representantes das embaixadas e consulados dos países africanos. Na Eucaristia, que precedeu o almoço e a festa que teve continuidade durante toda ao final da tarde, o presidente da celebração fez salientou que “o Criador fez com que as diferenças fossem um sinal de unidade”. “Por causa da inteligência que o Criador nos deu, pegamos nessa beleza que é a diferença e escangalhamos tudo. Porque queremos ser superiores ao Criador, pegamos na diferença e, em vez de unir como manda o Criador, entramos numa correria de ambição inconsequente e matamo-nos uns aos outros. É o escândalo da criação”, lamentou. O padre César Chantre considerou o ser humano “tão inteligente que chega a utilizar o nome de Deus para matar o seu irmão”. “No decorrer da história todas as religiões, sem excepção, cometeram este pecado gravíssimo”, lastimou, considerando que sem a religião a situação seria ainda mais negativa. “Mesmo utilizando Deus para fazer maldades, se não fosse a religião ainda estávamos pior”, defendeu. Salientando o significado daquele encontro realizado em pleno Ano Europeu do Diálogo entre Culturas, o sacerdote considerou que “a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) tem «pernas para andar», mas precisa ter filosofia de base”, acrescentando precisar igualmente de “alma”. “A CPLP já ouviu as religiões? Já chamou os responsáveis da espiritualidade dos povos para os ajudar a criar o espírito de filosofia da CPLP? Congregam o desporto (e muito bem), congregam a arte (e muito bem), mas quando chega à religião às vezes têm cá um medo… Eu chamo a isso complexo de cultura”, denunciou. O padre César Chantre lembrou ainda os fiéis que a imagem e semelhança de Deus, de que devem ser espelho os homens, é uma imagem e semelhança “de amor e de solidariedade”. Sem deixar de lembrar as situações que presentemente se vivem no Centro-Norte da China, no Sul do Sudão (Cartum), ou nalgumas capitais árabes, o prior das Ferreiras, agradeceu aos africanos “pelo sangue novo que trazem à Europa” e, citando João Paulo II, exortou-os a escancarar as portas a Jesus Cristo. Considerando aquele XVI Encontro de Caboverdianos como um abraço dos africanos aos europeus pela herança legada da fé em Jesus Cristo, o sacerdote exortou-os ao “diálogo intercultural sem complexos idiotas do passado, mas olhando para o futuro”. “Temos de descobrir qual a maneira de fazer com que a segunda e terceira geração não percam as suas raízes”, apelou. A celebração eucarística, que se prolongou por quase 2 horas e meia, foi contagiada dos ritmos africanos, onde não faltaram os batuques, o ofertório dançado, as mornas e coladeiras, interpretadas pela cantora Titina, uma das vozes mais emblemáticas de Cabo Verde, também uma presença já habitual nesta iniciativa. Este ano, a artista recebeu os sacramentos da Iniciação Cristã (Baptismo, Crisma e Eucaristia) no decurso da celebração, protagonizando assim um dos seus momentos mais significativos. No final da Eucaristia, a governadora civil do distrito de Faro agradeceu pelo “momento de troca de fé”. “Gostaria de agradecer-vos por nos terem mostrado que é preciso e é possível rezar com muita alegria, com muita vida e com muito carinho. Que se sintam na nossa região, provavelmente não como no vosso país, mas perfeitamente integrados entre amigos e irmãos de fé, de amor, e de solidariedade”, afirmou Isilda Gomes. Mais fotos na Galeria de Imagens