As comunidades paroquiais, constituídas pelos seus párocos, consagrados e leigos, em colaboração com a sociedade civil de que a Igreja faz também parte, Câmaras, Juntas de Freguesia, associações, colectividades, grupos ou entidades particulares, voltam a animar as localidades com as Festas de Verão que movimentam multidões. Numa altura em que o Algarve se transforma na região do País com maior densidade populacional, recebendo cerca de um milhão de pessoas, as Festas Religiosas Populares assumem um carácter importante na acção acolhedora do povo algarvio aos visitantes, turistas e veraneantes, nacionais ou estrangeiros. Através das Festas procura-se “humanizar a sociedade”, uma vez que as mesmas constituem uma manifestação da alegria de viver e criam espaço e oportunidade para o convívio descontraído e livre entre as pessoas; congregam e aproximam os que andam distantes ou dispersos; reforçam a comunhão entre os membros da comunidade; esbatem a tentação do individualismo e do isolamento; afirmam ou reforçam a identidade e a fisionomia de comunidades ou povoações. Neste contexto, a importância destas manifestações populares torna-se evidente e acontecimento privilegiado para o encontro das pessoas e para o acolhimento aos emigrantes da terra, bem como na oferta cultural da região tão apreciada por tantos que visitam o Algarve também em busca desses aspectos mais genuínos da cultura local. Assim, as festividades de Verão contribuem não só para a economia regional, como para a dinamização turística da região e são ainda o programa cultural de eleição de quem tem menos condições financeiras para poder optar por alternativas mais dispendiosas. Aliando a componente religiosa à vertente cultural, com cartazes repletos de artistas anónimos ou, por ventura, com programas preenchidos com caras mais mediáticas, figuras públicas do meio artístico nacional, as festas de Verão esforçam-se por conciliar estes dois aspectos. Este é muitas vezes um factor que constitui um verdadeiro quebra-cabeças para os párocos, na busca do equilíbrio desejado e do sentido festivo. No contexto da componente litúrgica, as iniciativas em honra do patrono ou santo da devoção da comunidade assumem papel central. A Eucaristia e a procissão com a imagem do venerado, abrilhantada pela actuação das bandas filarmónicas, são a fonte, cume e ponto alto das festividades, particularmente das celebrações litúrgicas. A procissão procura reconhecer publicamente o testemunho do padroeiro. Trata-se de uma manifestação pública de fé. Existem mesmo comunidades onde esta manifestação assume um carácter particular, muito arraigado na realidade do povo que a promove. Recorde-se por exemplo no Algarve as diversas procissões com as imagens dos padroeiros a seguirem em cortejo nas embarcações de pesca das comunidades piscatórias que as promovem. Expõe-se também o património religioso preservado. Imagens, estandartes, paramentaria, ourivesaria, entre outras peças são alguns elementos do tesouro da Igreja que é trazido para a rua em dias especiais de festa. Por vezes, prolongadas por vários dias, as festas incluem uma novena ou um tríduo de oração e de acção de graças a Deus pelos dons concedidos às comunidades e pelo exemplo do padroeiro ou com pregações ou conferências e momentos de cariz mais formativo. A preparação inclui também, não raras vezes, iniciativas culturais de vertente religiosa como concertos de música clássica e sacra. Outro dos aspectos que normalmente se inclui nas preocupações das comissões de festas prende-se com a área económico-financeira. Esta vertente acaba por vezes por condicionar a realização da própria Festa e, nalguns casos, até por levar ao término das festividades. Tantas vezes, condicionadas pela falta de apoios, as comissões são levas a extinguir expressões de religiosidade popular que vêm sendo promovidas de geração em geração ao longo dos tempos. Também entre os cuidados que as organizações procuram ter presente está um outro risco: o de os objectivos financeiros assumirem o papel capital na realização das festividades. No Algarve, a prioridade a este nível passa na maioria dos casos pela angariação de fundos para ajuda nas despesas da comunidade paroquial. Pese embora, esta finalidade comum a quase todas as Festas Religiosas Populares, existem contudo algumas comunidades que definiram desde logo outro objectivo para as receitas reunidas com estas iniciativas. Algumas paróquias assumiram mesmo projectos em diversas áreas de apoio à comunidade para os quais fazem canalizar as verbas provenientes das chamadas Festas de Verão. Muitos desses projectos estão directamente ligados à pastoral sócio-caritativa, com a prevista edificação de lares, centros de apoio à terceira idade ou até de acolhimento de passantes e sem-abrigo, refeitórios, entre outras valências. Outros estão relacionados com a pastoral profética, com a construção de Centros Paroquiais, salas de catequese, salas de reuniões, salões para iniciativas diversas. Outros ainda referem-se à pastoral litúrgica, com a construção de novas igrejas, a realização de obras de requalificação, recuperação e restauro nos templos já construídos, ou até para aquisição de novo mobiliário ou equipamento de natureza diversa para a dignificação das celebrações litúrgicas. Mas a aplicação dos fundos oriundos das Festas Religiosas não se fica por aqui. Mais relacionada com a área educativa, há também a projecção de construção de infantários, creches e unidades do pré-escolar. Também no que concerne à gastronomia apresentada na vertente cultural das festas, a oferta é variada. Muitas apostam nos tradicionais petiscos, como os pipis, caracóis, camarão, moreia frita, ore-lha de porco de coentrada, entre muitos mais, enquanto há aquelas que fazem questão de fazer dos pratos tradicionais algarvios, com o marisco da Ria Formosa, como a feijoada de búzios, cataplana de marisco, o arroz de lingueirão, as ostras abertas com limão, ou até o xarém de sardinhas ou conquilhas. Todos estes componentes pro-põem-se contribuir para a finalidade destas iniciativas e poderão ser facilmente identificados em qualquer festa religiosa realizada em qualquer localidade do Algarve e do País ao longo destes meses de Verão. Muitas vezes são mesmo motivo de investigações culturais, constituindo assunto de conversa de estudiosos e historiadores das origens da terra ou tema para uma qualquer tese académica ou de outro qualquer trabalho a editar.