A iniciativa, promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), através da Comissão Episcopal Missões (CEM), das Obras Missionárias Pontifícias, da CIRP – Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal e dos IMAG – Institutos Missionários “Ad Gentes”, da FNIS – Federação Nacional dos Institutos Seculares e da FEC – Fundação Evangelização e Culturas, foi constituída por alguns aspectos relevantes. Desde logo, o facto de a Igreja estar a viver o Ano Paulino, tendo sido exibido um filme sobre a vida e missão daquele apóstolo; o envolvimento de todas as dioceses num workshop de partilha de experiências; e a realização de um concerto jovem, por um grupo da diocese de Aveiro, onde esteve em destaque a música de missão. O congresso apelou de modo inequívoco ao empenhamento dos leigos, sobretudo dos jovens, e deixou bem claro que a missão deve ser assumida, em primeiro lugar, nos locais de origem de cada pessoa. Também por essa razão foi acentuada a responsabilidade das paróquias na dimensão missionária da Igreja. A formação e os desafios que se colocam em relação ao futuro foram igualmente dos aspectos mais apontados no congresso. Também D. António Couto, presidente da CEM e Bispo Auxiliar de Braga lembrou o papel das mulheres nas missões (em clara maioria relativamente aos homens) e defendeu uma transferência de acções dos sacerdotes para os leigos, acrescentando que o sacerdote terá de ser “um dinamizador e um estimulador de bons cooperadores”, contrariando um hábito de o padre “fazer tudo e ser protagonista”. D. Lúcio And rice Muandula, secretário da Conferência Episcopal de Moçambique, considerou da mesma forma que os missionários leigos não deverão nunca ser excluídos ou considerados como meros espectadores, apontando que os Bispos das respectivas igrejas particulares devem criar “mecanismos e instituições suficientemente capazes de preparar pessoas para a missão”. O também Bispo de Xai-Xai, em Moçambique, afirmou competir em primeiro lugar aos Bispos, “promover, coordenar e dinamizar a cooperação entre as igrejas”. Os sacerdotes são chamados a “esforçar-se por descobrir novos caminhos de cooperação missionária entre as Igrejas-Irmãs”. Os Institutos de Vida Consagrada, “em particular aqueles que se dedicam à missão Ad Gentes, ocupam um lugar estratégico e privilegiado, no contexto da partilha de missionários entre as Igrejas-Irmãs”, uma colaboração que classificou como um “acto de generosidade”. “Nunca deveria ser encarada como um simples gesto de voluntariado”, indicou. De entre os leigos, os jovens foram apontados como os protagonistas privilegiados da missão. D. José Policarpo sublinhou “muito consolador perceber na juventude um grande dinamismo” e uma vontade de “reservar algum tempo da sua vida estudantil ou profissional para ir em missões trabalhar com as Igrejas fora de Portugal”. Num tom optimista, o Cardeal Patriarca de Lisboa apontou que “Portugal tem muitas iniciativas de reflexão e dinamização missionária, tanto a nível de paróquias como de movimentos”, considerando que a Igreja portuguesa não tem uma lacuna nesta dimensão eclesial que deve “transformar-se em urgência pastoral em todas as realidades da Igreja”. Concordando que a Igreja portuguesa tem um “nível razoável de missão e evangelização”, D. António Couto reconheceu que é possível “fazer mais e melhor”, “animando e dinamizando os fiéis leigos que actualmente são muito importantes na missão”, sobretudo através dos jovens formados para isso. Já o padre Rui Pedro, antigo responsável pela Obra Católica Portuguesa das Migrações, actualmente em Roma, como missionário saclabriniano, lamentou que os jovens missionários não encontrem espaço nas paróquias e comunidades para por a render o capital adquirido em missão. O sacerdote pediu que, para além da reflexão (“que temos muita”), é necessário investir na “ousadia de fazer coisas novas”. Tendo os leigos como protagonistas da missão, a formação desses agentes foi outro dos aspectos mais referenciados. A este nível, o padre António Vaz Pinto advertiu que a missão não deve criar “dependências mas sim independências”. Aquele jesuíta, durante 20 anos assistente dos Leigos para o Desenvolvimento, defendeu que as paróquias, as congregações e dioceses “devem apostar na formação dos leigos para a missão”, pois ela é fundamental para o trabalho no local em áreas como a saúde, a educação ou a construção. O conferencista considerou também essencial a formação cristã. “Seria uma grande irresponsabilidade enviar missionários sem catequese básica, experiência de oração pessoal, convivência e experiência em grupo de trabalho e acompanhamento pessoal”, advertiu o padre Vaz Pinto que não considerou como missões as experiências de Verão de um ou 2 meses, apesar de “positivas”. Também entre os congressistas foi recorrente a ideia de que a missão começa no contexto local de cada um dos agentes missionários. No segundo dia de congresso, D. António Couto lembrou que “há pessoas que vivem seriamente a missão, no seu mundo, não descurando a missão Ad Gentes”. A metodologia não se centra mais em África ou Índia. “A missão Ad Gentes é para viver aqui”, observou. Também João Duque, professor de teologia e cristão leigo, foi ao congresso advertir os participantes para o destino e o fundamento da vocação cristã, alertando que a missão não se concretiza apenas além fronteiras, mas começa dentro de casa, na família. Na sua intervenção sublinhou que na realidade concreta de cada comunidade, “devem surgir orientações palpáveis, credíveis para saírem para fora, sem limites de tempo e espaço. É para o diferente que Deus nos envia”. D. Jorge Ortiga finalizou igualmente a sua intervenção reforçando que a missão é para ser vivida “em qualquer lugar, em todos os âmbitos da vida real”. A este nível, foi igualmente tónica dominante nas intervenções a responsabilidade das paróquias. O presidente da CEM sublinhou a necessidade de combater o hábito instalado nas paróquias de uma não aposta prioritária nas missões. D. António Couto incitou mesmo à criação de “centros missionários nas paróquias”. Com a paróquia como centro, “impõe-se uma conversão pastoral, de modo que toda a dinâmica da paróquia tenha conotação missionária”, apontou ainda D. Jorge Ortiga, presidente da CEP, considerando ser “imperioso criar células de ambiente, em especial nas cidades, com sentido missionário”, como espaços “para viverem a fé e não apenas amigos para tomar café”. D. Jorge Ortiga defendeu mesmo que a dimensão missionária “seja colocada nos programas de formação dos seminários diocesanos”, que incida numa “formação de consciência missionária”. Que o contexto das missões Ad Gentes está a mudar, abrindo a um horizonte novo oportunidades, parece ter ficado claro para os congressistas. Isso mesmo o afirmou D. António Couto, apontando para uma dinâmica nova de cooperação entre as Igrejas, ajudas em projectos de solidariedade, viagens de cooperação, geminações projectos educativos de novos estilos de vida, denuncia de abusos, como exemplos de áreas onde os cristãos podem e devem trabalhar. O padre José Ornelas Carvalho, superior geral dos Dehonianos, apontou que é preciso sair das sacristias e assumir-se como semente e fermento. O carácter minoritário tem de ser encarado como “nova oportunidade de missão”, defendendo que os contactos com a Índia e as perspectivas na China como desafios de missão. Acabar com a divisão Norte/Sul, encarar a Igreja como universal e independente dos poderes e descobrir a minoria como ocasião de missão foram alertas deixados pelo sacerdote aos congressistas. Os novos caminhos e desafios da missão foi o tema desenvolvido padre Ornelas Carvalho, considerando que a realidade do hemisfério Norte contrasta com a do Sul, estando a Igreja a deslocar-se para Sul, “não apenas em número mas também em vitalidade e perspectivas de futuro”. A ex-deputada Maria José Nogueira Pinto indicou também que o voluntariado é considerado um sinal de esperança, talvez um valor para o futuro. Importante foi também o dia dedicado ao Leigo Voluntário Missionário com a realização de uma feira-exposição em que cerca de 50 entidades que enviam leigos para a missão se deram a conhecer e mostraram o seu trabalho. Realizou-se também uma Eucaristia de envio de leigos para a missão, onde foram acolhidos leigos de regresso de uma missão. Do congresso saíram as propostas de criação de “um documento-base para a Missão em Portugal” pela CEP e de Secretariados diocesanos missionários, grupos missionários paroquiais, semanas de animação missionária, geminações, voluntariado, sacerdotes "fidei Donum", institutos de vida consagrada. Sugeriu-se ainda a realização de um Congresso Missionário em cada diocese e a promoção de “formação missionária às crianças, jovens, adultos, seminaristas, consagrados e sacerdotes, de acordo com o novo paradigma de Missão”, bem como a fomentação de “comunhão e a partilha de fé, de pessoas – numa dinâmica de partir e receber – e de bens entre as diversas Igrejas”.