“Só se salva quem vive no amor”, afirmou Borges de Pinho A propósito da encíclica de Bento XVI, Borges de Pinho, numa fase inicial, aludiu à visão de Deus e da pessoa humana que está subjacente à primeira parte da encíclica e, numa fase posterior, relativa à segunda metade do documento, referiu-se à Igreja e à sua responsabilidade na dimensão social. Borges de Pinho lembrou, porque “Deus amou-nos primeiro”, que “a nossa vida humana tem de ser entendida à luz desse amor antecipador que nos cria e nos salva”. O conferencista sublinhou que o Cristianismo, que “é dom e não conquista” dos cristãos, “assenta no amor gratuito e contínuo de Deus”. “E só porque isso acontece é que somos capazes de amar”, considerou, citando o Papa João Paulo II: “nós, cristãos, só temos a anunciar o amor de Deus”. Destacando que “a existência humana não pode ser senão entendida segundo uma perspectiva da doação” como resposta ao amor, “fruto da iniciativa criadora e salvadora de Deus”, lembrou que, tal como a condição de “ser cristão é um caminho de amadurecimento pessoal”, também “o amor é levado a amadurecer, a purificar-se e a um caminho de crescimento”. “Ninguém nasce capaz de amar como Deus quer que amemos, porque se fossemos capazes de amar assim não precisávamos de Deus para nada”, afirmou. Borges de Pinho lembrou que os cristãos não deverão viver a sua fé “à margem do testemunho da realidade de seres humanos”, que considerou ser o “problema grande de qualquer religião”. “Há muita realidade na nossa vida que corre o risco de não ser integrada nesta doação”, considerou, exortando à transmissão da “convicção fundamental” de que “o ser humano, na busca da plenitude da sua realização, à luz do mistério do amor de Deus, é chamado a essa doação” de dar e de se dar. Borges de Pinho recordou, que “não há amor a Deus sem amor ao próximo e o amor ao próximo é o caminho para o amor a Deus”, sintetizou, considerando este o “núcleo fundamental da credibilidade da proposta cristã”. “Nós cristãos temos algo a propor à humanidade, porque se Deus veio ao nosso encontro não é para ficarmos satisfeitos, mas para sermos sacramento de Deus para a humanidade”, afirmou. Referindo-se à chamada de atenção do Papa para a “amplitude do amor cristão”, interpelou os presentes. “Temos de ser católicos no amor”, disse. A propósito de 2 passagens que considerou “fundamentais”, sublinhou “o sentido da oração e contemplação na vida cristã”. “Como é que a nossa oração é lugar o­nde emerge Deus? E o que somos chamados a ser na abertura a Deus?”, interrogou Borges de Pinho, classificando o amor como “critério decisivo para a validade/utilidade ou inutilidade da vida do ser humano”. “Quem é que se salva? Salva-se aquele que verdadeiramente vive no amor”, advertiu, admitindo que “pode acontecer que, fora da Igreja católica, esse amor seja também vivido”. Referindo-se à Igreja como “ícone da trindade e família no mundo”, lembrou que “tudo se decide a partir da experiência de Deus que fazemos”. “O nosso perigo é pensarmos que controlamos a vida. Por isso devemos fazer a pergunta: o que Deus pensa? O que Deus quer?”, complementou.Na segunda parte da sua intervenção, Borges de Pinho começou por definir caridade como o “elemento fundamental na identidade e missão da Igreja” e por apresentar os sinais do anúncio e testemunho de Cristo ressuscitado: “a escuta da Palavra, a celebração da fé e a diaconia (serviço e amor fraterno) cristã”. “O Papa dá o devido relevo à diaconia”, “dimensão estrutural da vida da comunidade que tem de marcar o resto da sua acção”, exortou. Sobre a relação entre justiça e caridade afirmou que “a proposta cristã deve ser um contributo para a construção de estruturas mais justas”. “Seria errado pensar que a caridade é tarefa da Igreja e a justiça tarefa do Estado. Isso não corresponde à verdade. Não se pode fazer essa dicotomia”, esclareceu, justificando que o “compromisso por um mundo mais humano faz parte da tarefa evangelizadora da Igreja”. “A Igreja tem uma intervenção política que deve assumir sem medo”, defendeu, esclarecendo contudo que “a Igreja não deve entrar na acção partidária”. “Toda a acção da Igreja decorre da sua própria identidade. Intervimos na sociedade porque estamos convencidos que, a responsabilidade como cidadãos e cristãos deve ser exercida como proposta de humanização”, justificou, argumentando ser necessário “saber discernir o­nde e quando a Igreja deve intervir” e que essa intervenção “passa não só pela palavra, mas também por pequenos gestos”. Borges de Pinho defendeu ainda que “a consciência cristã tem de se transformar no sentido de perceber que a própria condição cristã envolve uma vocação pública”. “O que é que Deus quer de mim para um contributo à humanização deste mundo? Será que estamos atentos à descoberta da vocação pública de cada cristão?”, interrogou.Borges de Pinho reconheceu por fim que a Igreja tem “dificuldade em comunicar” para explicar a fundamentação do seu agir. Um tema central na existência cristã Borges de Pinho começou por salientar a importância da temática do documento. “Mais importante que tudo o que esta encíclica diz é o facto de ter surgido com este tema”, frisou, lembrando que o Papa, no documento, “não diz muitas coisas, mas chama a atenção para aquilo que é central na existência cristã”. “Coordenação da caridade não pode ser somatório de serviços”, considerou Marinho Antunes Marinho Antunes, num estilo mais interpelativo com a assembleia, apresentou uma leitura sócio-pastoral da encíclica. A propósito do costume da primeira encíclica de cada Papa dar indicações das prioridades de cada pontificado, considerou que “o amor é a grande opção” de Bento XVI. Segundo Marinho Antunes, Bento XVI, na sua primeira encíclica, apresenta uma “novidade liber-tadora”. “O amor é uma única realidade, embora com distintas dimensões”, concretizou, sublinhando que “o Papa, por um lado distingue diferentes tipos de amor, mas acaba por dizer que o amor é único, embora com diferentes dimensões”. “O Papa explica que quem é amado por Deus há-de responder com amor”, refere Marinho Antunes, esclarecendo que “todos os homens são chamados a isto”. “E mais nós que constituímos a Igreja”, acrescenta, recordando que “por esta circulação do amor passa a salvação de Deus”. A propósito do serviço eclesial da caridade, o conferencista salientou que o Papa refere que “a caridade faz parte da Igreja” e “não é uma coisa acessória”. “A caridade começa em casa, na família”, afirmou, deixando um estímulo aos casais e às famílias e alertando que “toda a nossa acção deve vir com este selo de alguém que é amado e tudo o que faz é com amor”. A propósito da organização da pastoral profética e litúrgica das paróquias, o conferencista interrogou: “e a caridade?”. “Não se pense que diz unicamente respeito à Caritas ou à Segurança Social”, advertiu, interpelando novamente a assembleia. “Como é que pelo meu comportamento anuncio a Boa Nova de Jesus Cristo? Na maneira como conduzo, como pago impostos…”, questionou. Marinho Antunes alertou que, “onde não há espaço para a caridade como algo em que se manifesta o ser da Igreja, a própria Igreja fica diminuída”, exclamando que “não há cristão sem serviço aos outros!”. Admitindo que o documento possa “incomodar” os pastores da Igreja, Marinho Antunes lembra que “todos são família de Deus e não deve haver ninguém que sofra por causa de não ter o necessário”. Realçando o desafio do Papa, o conferencista esclareceu que “os que vivem no amor de Deus deverão ser capazes de resolver os casos que estão mesmo seu lado”. “A Igreja deve praticar o amor”, mas, recorda Marinho Antunes, “o amor também precisa de organização enquanto resposta às necessidades do próximo”. “Gostaria que todas as comunidades se perguntassem: como é que se assegura um serviço comunitário que não fica sujeito às boas vontades?”, interpelou, perguntando “como é que está assegurado este serviço comunitário ordenado da caridade?”. Marinho Antunes defendeu a necessidade de distinção entre acção social praticada pelo Estado e a acção social da Igreja. “Não é para fazer concorrência ao Estado que a Igreja pratica a caridade, mas porque é essencial ao ser e à missão da própria Igreja. Não é porque o Estado faz ou não. O que está em causa é o bem de pessoas em necessidade”, afirmou Marinho Antunes, considerando igualmente que “o Estado tem o direito e o dever de promover formas de solidariedade organizada”. Marinho Antunes destacou ainda que “é serviço da caridade o modo como, em tudo o que fazemos, somos capazes de transmitir o amor de Deus”. O conferencista criticou a descoordenação entre as diversas organizações da Igreja que trabalham na caridade e defendeu “uma articulada coordenação, que não pode ser apenas um somatório de serviços”. Marinho Antunes considerou ainda necessário “atacar as causas” e não só os atingidos por elas, que entende ser o primeiro nível.Na sua intervenção apoiou ainda a independência da Igreja em relação ao Estado e partidos políticos e lembrou que “o amor não é só um meio, mas um fim”. Por isso, “quem realiza acção social da Igreja não pode impor aos outros a fé da Igreja”, concretizou.Por fim, salientou o perfil apresentado por Bento XVI para quem faz a caridade da Igreja e mostrou-se concordante com a necessidade da exigência de formação técnica aos voluntários e de sincronização, embora sem a perda de identidade cristã, com outras organizações de solidariedade social. Um estilo papal diferente Marinho Antunes esclareceu que o actual Papa é “muito diferente” do seu antecessor, na maneira como escreve e comunica. “Há aqui uma maneira nova de comunicar”, defendeu, considerando Bento XVI um Papa “desafiador” que “obriga a pensar” e a “dar razões da fé”. “Vamos ter de desmontar um discurso de coisas evidentes e de nos habituar a ler coisas que parecem muito simples, mas que abrem espaço à discussão”, alertou o conferencista. Analisando a estrutura do pensamento de Bento XVI, Marinho Antunes considerou que o Papa “apresenta um discurso entre pólos que se confrontam, para depois esclarecer bem as diferenças entre ambos”.