Taizé, apresentou-se uma vez mais, como um protótipo da comunidade cristã perfeita onde todos contribuem para o bem comum, trabalhando, partilhando os bens, reflectindo em grupo e orando em conjunto. Para a diocese algarvia, e até para a Igreja portuguesa, acabou por constituir um momento histórico em que, pela primeira vez, um Bispo acompanhou os jovens da sua diocese numa peregrinação a Taizé. Isso mesmo foi sublinhado até por um dos motoristas. Os algarvios inseriram-se então na estrutura prevista e apresentada logo à chegada pela comunidade ecuménica, numa semana em que estiveram em Taizé cerca de 5000 pessoas, caindo assim por terra, logo nos primeiros momentos, a sensação inicial, por ventura criada naqueles que ali estavam pela primeira vez, de que seria difícil disciplinar a estadia de toda aquela multidão. Assim sendo, os jovens dos 15 aos 29 ficaram acampados com os respectivos responsáveis, participando nos grupos de reflexão ou optando por meditar em silêncio. Os adultos com mais de 30 anos, individualmente ou em casal, foram acolhidos em alojamentos masculinos e femininos, podendo fazer a mesma experiência de silêncio ou de partilha de grupos. A primeira parte da manhã foi preenchida com introduções, apresentadas a cada grupo por um dos irmãos de Taizé, seguida da partilha em grupos ou da reflexão individual em silêncio. À tarde, os participantes puderam integrar os diferentes workshops e durante o tempo livre foi-lhes ainda possível colaborarem nas várias tarefas para a manutenção da comunidade. As famílias com crianças até 14 anos integraram a comunidade na chamada ‘Olinda’, uma quinta na aldeia vizinha de Ameugny, a cerca de 600 metros de Taizé. Ali também, pais e filhos, puderam assistir pela manhã à introdução do irmão, seguida de reflexões de grupo, enquanto as crianças, segundo as suas idades, envolveram-se em trabalhos que estimulavam o seu entendimento da passagem bíblica de cada dia. À tarde, a encenação apresentada às famílias, novamente com todos os seus membros reunidos, coube à equipa de animação, composta pelos irmãos, irmãs e voluntários que a integraram, contando com a colaboração, em cada dia, com uma família diferente e com um grupo distinto de crianças. O Bispo diocesano, alojado na ‘El Abiodh’, – o edifício da enfermaria local que também serve para acolher os voluntários, as irmãs que colaboram com a comunidade e os visitantes convidados –, começou logo, na viagem para Taizé, por apelar à “predisposição interior” dos peregrinos para se deixarem “conduzir pela acção de Deus, pela ajuda do Espírito Santo e pelo confronto com a pessoa de Jesus”. E precisamente “o verdadeiro conhecimento da pessoa de Cristo, a partir do Evangelho” e a “verdadeira interpelação em relação à vida, apelando a uma conversão e identificação com Cristo” foram os aspectos destacados por D. Manuel Quintas à FOLHA DO DOMINGO para definir a semana vivida em Taizé, experiência que considerou “muito gratificante”, até porque lhe proporcionou uma “reconciliação com o tempo”. Reconhecendo que ficou com uma “visão mais ampla” da comunidade da Borgonha francesa, o Bispo do Algarve explica que isso se deveu ao facto de os irmãos terem proporcionado que passasse por todos os sectores. “Inseri-me na dinâmica que está preparada para cada um dos dias e dirigida a cada um dos destinatários, segundo a sua condição de participação: jovens, adultos ou famílias. Foi enriquecedor e deu-me uma visão do sentido evangelizador e catequizador que os irmãos imprimem à sua acção junto daqueles que ali passam”, elucidou. Por outro lado, o Bispo diocesano foi igualmente convidado a participar, pelo prior de Taizé, na intimidade das refeições dos irmãos, que testemunhou serem marcadas pela simplicidade que marca também a sua vida fraterna a par da dimensão contemplativa. D. Manuel Quintas considera assim que a comunidade francesa apresenta “uma proposta já muito bem estruturada, fruto de muitos anos de experiência, com uma pedagogia própria, que poderá dar muitos frutos a quem nela se quiser deixar envolver e aderir”. “Aquilo que mais saliento são as propostas que nos apresentam, a partir da Palavra de Deus, de forma muito directa, incisiva, humana, existencial e de fácil compreensão, que leva todas as pessoas a aderirem e a fazerem o seu caminho de conversão pessoal no confronto com a Palavra anunciada”. Para o Prelado, outro aspecto positivo e “muito enriquecedor” é a “grande diversidade de proveniência de jovens e adultos”. Por outro lado, D. Manuel destaca ainda que “Taizé permite fazer uma experiência muito grande de comunhão humana”. “Valoriza-se sobretudo aquilo que une: a comunhão na mesma fé que se dirige ao mesmo Deus”, concretiza. O Bispo diocesano, que passou um dia pela ‘Olinda’, mostrou-se ainda surpreendido com a pedagogia utilizada com as famílias. “Surpreendeu–me muito porque é muito envolvente e bem organizada, sobretudo para as crianças”, confessou. Dos peregrinos algarvios, D. Manuel Quintas espera que esta vinda a Taizé os ajude “a levarem consigo a riqueza que receberam e a poder partilhá-la com os outros, sobretudo ao nível da sua participação e inserção na vida diocesana e do cultivo da oração mais contemplativa na sua vida pessoal”. “Espero que nós, que estivemos lá, possamos trazer para a nossa diocese aquilo que vivemos e celebrámos e isso possa ser motivo de enriquecimento nas próprias comunidades paroquiais”, complementou. No cômputo geral, esta peregrinação algarvia acabou por decorrer de forma serena, apenas a registar-se um incidente pontual com um grupo muito restrito de jovens que felizmente acabou por não ter consequências de maior. Jovens com "consistência, fidelidade e persistência" Um dos momentos mais significativos da semana da Peregrinação da Diocese do Algarve a Taizé ocorreu a meio da semana com o encontro dos cerca de 300 portugueses que ali se encontravam. Presidido pelo Bispo do Algarve, o encontro português constituiu uma oportunidade para D. Manuel fazer festa com os jovens portugueses, tendo cantado com eles algumas músicas, entusiasmado pelo ambiente que se vivia em Taizé. Visivelmente animado pelo decorrer da peregrinação algarvia, o Bispo do Algarve pediu aos jovens maior “consistência, fidelidade e persistência” na presença na Igreja. “A vossa presença na Igreja ganhará consistência, adquirirá fidelidade e persistência, quanto mais a pessoa de Cristo fizer parte da vossa vida”, complementou o Prelado, garantindo que os jovens o ajudam “a olhar não só para o presente, mas para o futuro com outra esperança”. Procurando responder a algumas questões levantadas pelo único irmão português presente em Taizé, o irmão David, D. Manuel Quintas aconselhou os jovens a não esperar um lugar especial na Igreja. “Tendes um lugar, que não é físico, que é vosso e que ninguém ocupa por vós. Na Igreja do Algarve tendes o lugar todo. Tendes as portas abertas. Era bom que não vos considerásseis hóspedes na Igreja. Estais na Igreja de pleno direito e quando não estais, fazeis falta”, afirmou, acrescentando que gostaria que os jovens crismados vivessem “comprometidos no anúncio da fé, ou seja na sua transmissão e testemunho”, “vivessem de maneira consciente o seu Baptismo e que assumissem, com responsabilidade, o seu lugar na Igreja, inserindo-se na comunidade cristã, nos diferentes serviços e ministérios”. “Espero sinceramente que estes dias passados aqui em Taizé vos ajudem de tal modo que, ao regressarmos às dioceses, a vossa experiência aqui vivida vos leve a marcar a diferença nas vossas comunidades e seja verdadeiramente sinal”, concluiu. O irmão David, que apresentou uma breve explicação sobre a origem e história da comunidade da qual faz parte, considerou também que “a experiência de comunhão de Taizé só faz sentido se puder ser concretizada com uma procura de comunhão no dia-a-dia”. Durante o encontro houve ainda espaço para a partilha de alguns testemunhos de diferentes vivências do compromisso cristão na Igreja. Lourdes fez parte do programa A viagem de ida para Taizé foi repartida por dois dias, tendo os algarvios pernoitado em Lourdes (França), após uma primeira paragem na estância balnear francesa de Biarritz. Chegados ao santuário mariano, os peregrinos foram alojados na Village des Jeunes e na Maison Saint-Pierre et Saint-Paul , tendo o Bispo do Algarve pernoitado na Maison des Chapelains. Na celebração da Eucaristia, presidida por D. Manuel Quintas na Basílica Superior da Imaculada Conceição, após o visionamento de parte de um filme sobre a história das aparições a Bernardette Soubi-rous, o Bispo do Algarve destacou a importância de descobrir que “a oração não é uma questão de método ou de palavras, mas de amor”. “Quando descobrirmos que somos verdadeiramente amados por Deus, a oração brota espontaneamente de nós”, sublinhou o Bispo diocesano. No dia seguinte, dia 29 de Junho, pelas 6 horas, os algarvios madrugaram para novamente participa-rem na celebração da Eucaristia, que teve lugar desta vez na gruta do Santuário de Lourdes, novamente presidida por D. Manuel Quintas. De seguida, os peregrinos algarvios partiram para Taizé. Desafio à organização Ao Sector Diocesano da Pastoral Juvenil, responsável pela organização da Peregrinação da Diocese do Algarve a Taizé, D. Manuel Quintas deixou um desafio. O repto prende-se com a incrementação e efectivação da peregrinação dos jovens algarvios àquela comunidade ecuménica. “Penso que estas iniciativas são de continuar”, desejou o Bispo do Algarve, recordando o hábito já existente de peregrinar anualmente a Taizé com um ou dois grupos algarvios. “Penso que poderíamos avançar um pouco mais no que diz respeito à preparação, organização e envolvimento daqueles que vêm, para que aproveitem ainda mais e para que, quando regressem, enriqueçam ainda mais as comunidades a que pertencem. Ninguém vai a Taizé que não regresse com algo de novo e de interpelador para a sua vida”, salientou D. Manuel Quintas. Ressonâncias da Peregrinação a Taizé… Catarina Gabadinho – 16 anos “Foi o segundo ano que fui a Taizé. Esta peregrinação teve um significado bastante especial porque fui com o objectivo de me encontrar, de evoluir a nível espiritual e também de partilhar os momentos de oração. Gostei mais este ano porque da primeira vez não estava tão preparada para viver o que é Taizé. Se calhar ainda não tinha a maturidade necessária. Este ano encarei Taizé de uma maneira diferente”. Família Agostinho Luís Agostinho – 37 anos “Já tinha tido uma experiência de participação inserido num grupo de jovens, mas em agora em família teve um significado especial. Toda a dinâmica que existiu, programada na ‘Olinda’, promove a oração em família e a reflexão das passagens bíblicas e isso foi muito importante porque me fez crescer também na fé e no amor a Cristo. Toda esta comunhão que existe dos diversos credos cristãos faz-nos sentir mais unidos a Deus que todos amamos”. Sílvia Agostinho – 35 anos “A participação em família faz-nos crescer em conjunto e a partilha nos grupos permite-nos perceber que existem outras famílias que vivem como nós e isso é muito positivo. A minha participação, nos momentos de oração pessoal, permitiu-me também constatar que o trabalho que estou a fazer na paróquia é necessário porque Deus precisa de mim ali, a desempenhar aquela missão”. André e Inês Agostinho – 8 e 11 anos “O que mais gostámos foi dos momentos de oração”. Pe. Manuel Condeço – Pároco de Algoz e Guia e único sacerdote que integrou a peregrinação “Embora não tivesse sido novidade para mim o esquema de trabalho porque já conheço estes sistemas por ter trabalhado com jovens, ajudou-me a rejuvenescer, pois há muito tempo que os não exercia. Por outro lado foi para mim motivador por ver tantos jovens do Algarve juntos a pedirem algo de novo na sua vida. Já tinha passado em Taizé, mas não tinha entrado. Constituiu para mim uma pausa no trabalho de sacerdote e pároco e foi muito gratificante a todos os níveis. Espiritualmente foi quase um retiro em que pude aliviar o espírito e a mente. Gostei imenso de ter participado e acho que todos os sacerdotes deviam ter uma experiência deste género. Embora não tivesse ficado surpreendido, fiquei impressionado e fez-me reflectir: porque não temos jovens nas nossas paróquias, quando ali há uma adesão tão grande? É importante aproveitar este entusiasmo para, na vida prática de cada dia, possam manter viva esta “chama” que foram buscar a Taizé, mas essa disposição tem de partir dos próprios jovens porque se for imposta não funciona. O facto de terem participado pessoas da minha paróquia, terem-se integrado e virem entusiasmadas é sinal da presença do Espírito e sinto–me feliz. Casal Luís Henriques e Zulete Martins Luís Henriques – 66 anos “Destaco a vivência de uma fé universal. A diversidade de pessoas, de idades, de culturas unidas no mesmo sentimento foi para mim uma alegria muito especial. Importante foi também o valor dado ao silêncio. O silêncio ali é vivido como um encontro muito pessoal e directo com Deus. Nunca me tinha apercebido da riqueza, do alívio e da felicidade do silêncio. Outra coisa que me impressionou bastante foi o facto de, naquela igreja, cheia de gente nas mais diversas posições físicas, sentir que todos estavam numa sintonização perfeita e plena a nível religioso. A expectativa que tinha de Taizé foi ultrapassada. O facto de termos ficado em alojamentos separados não me afectou nada, sobretudo à medida que fui percebendo a dimensão da diversidade. Por outro lado havia momentos de encontro ao longo do dia. Penso que é também uma riqueza, os jovens sentirem a participação dos adultos. A prioridade de participação deverá continuar a ser dos jovens, mas não em exclusividade.” Zulete Martins – 62 anos “Senti que aquele tipo de Igreja seria um bocadinho da Igreja que Cristo sonhou. Senti-me tão jovem como os jovens, até porque penso que a fé é jovem em qualquer idade. Levo uma maior disponibilidade interior de entrega, confiança e esperança na minha fé, perante as realidades da vida. Senti que aqueles jovens são uma promessa de esperança num mundo melhor. Senti que aquele espírito de união que se estabeleceu é a força do Espírito Santo que pairava ali. Nas actividades em que já participo vou estar com um espírito mais evangélico, de maior entrega, humildade, confiança, esperança e paciência”.