O padre José Maia destacando, a propósito, que “Jesus é rico em misericórdia e perdão”, lembrou que “há muita coisa à qual, pela lógica, não se chega, e em que é necessário meter o coração (miser + córdia)”. “O coração é a única motivação para muitas das nossas actuações”, justificou. Sublinhando que “Cristo foi ao encontro das pessoas”, o sacerdote afirmou que essa mesma atitude é característica da actuação de Jesus. “A Igreja tem de se fazer ao largo. Temos de ser fermento, sal e luz”, considerou, observando: “sabemos muitas respostas, mas é para perguntas que ninguém faz”. “Andamos desencontrados com os problemas do mundo e das comunidades”, conclui, afirmando que a exigência evangélica deve levar os cristãos a reformular muitas das suas atitudes. Por outro lado, o sacerdote constatou que “hoje anda muita gente desencontrada com a Igreja”. “A preocupação da Pastoral hoje é promover oportunidades para o reencontro com a Igreja. Temos de ver como é que se podem transformar desencontros em reencontros”, propôs. Frisando que “a Igreja é uma catedral assente em três pilares”, dos quais nenhum pode faltar, sublinhou que “uma igreja pode ter uma celebrações muito bonitas, porém, se não tiver uma comunidade fraterna que seja vida, está doente. Se tiver uma catequese bem organizada, é bom. Mas é necessário mais. O mesmo acontece se tiver uma vertente social muito cuidada, mas descurar as outras duas dimensões”, elucidou, garantindo que “o rosto de Cristo tem de ser incorporado por estas três dimensões: anúncio, celebração e caridade”. Criticando a situação a que são votados muitos dos pobres em Portugal, o padre José Maia, constatou que, hoje, nas cidades “vendem os terrenos das sua casas e mandam-nos para as periferias para fazer dinheiro”. “Em Portugal isto é um escândalo tremendo e nós, cristãos, temos de nos dar conta disto. O povo anda com a sensação de abandonado. Tenho pena que, da parte da nossa Igreja, não haja muito mais presença a dizer que o povo se sente abandonado e traído”, lamentou. Sobre a realidade em outros sectores da sociedade, o sacerdote afirmou que “o que se passa hoje na banca é pornográfico e miserável”, criticando igualmente os lucros das seguradoras. Lembrando as famílias sobrendividadas e muitas outras apanhadas pelo desemprego e as separações, o orador haver “imagens que provam que a Igreja, através das suas expressões de caridade, faz”. “E quem faz, tem autoridade moral para falar e denunciar”, defendeu. Considerando que o fisco está a fazer “tudo por tudo” para promover as uniões de facto, denunciando os benefícios fiscais “que podem atingir os 6000 euros”, o padre José Maia identificou ainda a solidão como “a doença do século XXI que está hoje a matar muita gente antes de tempo”. “Andamos a mexer com estruturas da sociedade. Nos últimos anos, em Portugal, brincou-se demasiado com a natalidade. Um dos problemas nacionais é o desrespeito pela vida. Brincou-se com a vida”, referiu, considerando que “temos uma classe política que, na maior parte dos casos, é de políticos sem classe”. “A maior parte são advogados para defender os interesses do que se faz. Temos um arquétipo legal confusíssimo. Quem quiser, um dia, alterar muitas coisas, vai ser muito difícil”, complementou. Quase a terminar interrogou: “a Igreja está organizada de forma a puder receber toda essa gente que anda oprimida, aflita, desanimada?”. Para o final, deixou também uma interpelação directa aos poucos sacerdotes presentes. “O Cristo que servimos, como presbítero, é um Cristo profundamente empenhado no mundo. Há paróquias empenhadas no social sem terem um Centro Social. Hoje a grande proposta da Igreja é o acolhimento”, sublinhou. Por outro lado o conferencista apelou à necessidade de formação de uma “consciência social”. “Temos de fazer despertar as pessoas”, concretizou, referindo que “todo o futuro que valorize a vida e que ajude a mãe é um futuro interessante”. Por fim exortou a “manter a chama da esperança”. “Compete-nos no mundo ser sinais de esperança. A nossa sociedade de hoje é uma sociedade de gente crucificada. Compete-nos a nós, no momento oportuno, ir tirando pedras de cada túmulo para que, quem está morto possa fazer a experiência de ressuscitar”, concluiu.