FOLHA DO DOMINGO – Já tinhas ido a África? Sandra Fagundes – Não. Foi a primeira vez. Foste integrada numa missão dos combonianos? Sim. Como aconteceu o conhecimento e o contacto com a congregação? Conheci a congregação através da sua revista – a Audácia – embora isto já tenha acontecido há bastantes anos. A partir daí comecei a frequentar encontros e integrei o grupo Fé e Missão e, como era meu desejo ir em missão, passei mais tarde para os Leigos Missionários Combonianos (LMC). Nesse grupo fiz formação até partir para Moçambique. Testemunhaste que, quando chegaste a Moçambique, foste bastante bem recebida e que o acolhimento foi um dos aspectos que mais te marcou. Essa recepção foi de facto marcante para ti? Sim e com o passar do tempo fui-me sentindo cada vez mais em casa. Nunca tiveste qualquer experiência negativa a esse nível? Não. Ao longo destes dois anos onde é que moraste? Morámos numa casa que pertence à escola que se destina a acolher professores. O que é que fizeste no segundo ano da tua missão em Moçambique? Leccionei igualmente aulas de Química, mas deixei as aulas de Educação Cívica e Moral para passar a leccionar aulas de Informática. Organizei ainda dois cursos de Informática para professores e trabalhadores da empresa, funcionários da mesma entidade. E que entidade é essa? Trata-se da Escola Industrial de Carapira que compreende uma empresa de produção escolar como apoio à própria escola nas áreas de carpintaria, mecânica e serralharia. A carpintaria tem um objectivo de subsistência: procura dar lucro para que a escola possa ser autónoma. A mecânica e a serralharia, para além de terem também este objectivo, constituem ainda a componente prática da formação dos alunos, pois os únicos cursos que existem naquela escola são precisamente mecânica e serralharia. Os cursos de Informática foram dirigidos aos trabalhadores desta empresa. Estiveste lá com mais duas pessoas a trabalhar? Sim. Éramos três, sendo os outros dois brasileiros. E os outros faziam o mesmo que tu? A principal actividade era também na escola, embora em áreas diferentes. E como é que tu, engenheira química, foste leccionar aulas de Informática? Foi um desafio pois, embora tendo algumas bases, não estava bem por dentro dessa área. Uma coisa é termos, numa determinada área, um nível de conhecimento suficiente do ponto de vista da nossa utilização pessoal, outra coisa é procurarmos transmitir aos outros conhecimentos nessa área. Portanto o meu segundo ano em Moçambique foi bastante diferente do primeiro porque exigiu mais preparação em casa. Tive de dispensar mais tempo à minha preparação para estar mais apta para passar conhecimentos aos outros. Apesar disso, continuei a trabalhar no lar [das raparigas] e na pastoral . Ao fim de um ano quiseste prolongar a tua missão em Moçambique por mais um ano. Porquê? Por duas razões: a primeira é porque o primeiro ano foi uma experiência muito boa e achei que poderia dar um pouco mais de mim; a segunda, porque tinha sido constituída nesse ano a primeira Comunidade Internacional de LMC, na qual eu tinha sido integrada, e se eu viesse embora ficariam apenas os meus dois colegas brasileiros com todo o trabalho. Teria sido uma falta de responsabilidade ter começado um projecto e vir-me embora. Tiveste noção de que um ano era pouco? Sim. O primeiro ano acabou por ser quase só para conhecer, por ser um país e uma cultura muito diferentes. Foi um ano quase só de aprendizagem. No segundo ano, embora ainda houvesse muito mais a aprender, já consegui compreender e entender melhor certos aspectos. Aspectos culturais? Sim, basicamente culturais. É um pouco difícil, quando lá chegamos, termos logo uma visão correcta da realidade, pois a população também tem de ganhar um pouco de confiança em nós para se abrir mais connosco e essa confiança não a ganhamos em dois, três ou seis meses. O povo Macua é um povo que gosta muito de observar, pouco a pouco vai-nos experimentando e só quando percebe que a pessoa está mesmo para ajudar é que começa a abrir-se mais. E ao final destes dois anos vieste com a sensação de que eles já confiavam totalmente em ti, pondo todas as reservas de parte? A maior parte das reservas, sim. Todas, todas não acredito porque é um povo que fica sempre com alguma resistência. Mas acho que evolui bastante. Como estrangeira e tendo em conta o trabalho que estava a fazer, penso que foi razoável. Depreendo que deixaste lá muitos amigos? Sim, famílias e alunos pelos quais sinto muita saudade. Que balanço fazes destes dois anos de missão em Moçambique? É um balanço muito positivo porque acho que cresci muito como pessoa, tendo em conta os valores. No aspecto da valorização pessoal e humana e ao nível das relações humanas os moçambicanos têm muito a ensinar-nos. Que Moçambique encontraste? Encontrei um Moçambique com vontade de crescer e de se desenvolver. Às vezes consegue, outras vezes nem tanto. Ainda são notórios os sinais de tantos anos em guerra? Um pouco, sobretudo pelo estado de degradação de estruturas que acabaram por não reconstruir. O povo fala um pouco desses tempos. Sobretudo os de mais idade sentem ainda um pouco, mas é algo que já vai passando. Para alguns já faz parte do passado, para outros ainda está um pouco presente. Mas em termos das necessidades nas várias áreas e infraestruturas – saúde, educação, comunicações, entre outras – nota-se desenvolvimento? O problema é que há bastante corrupção e muitas vezes vêm fundos que não são aplicados. A nível de escolas, saúde e infraestruturas poderia estar melhor. A questão é que o que há não é suficiente para as necessidades que existem. Pese embora esta realidade vai-se tentando fazer o melhor que se pode com o que existe. Há muita miséria? Mais para o interior. As pessoas sofrem bastante porque estão longe dos centros e porque não têm mais rendimentos para além das colheitas agrícolas. As pessoas que vivem no mato passam mal. É um país no qual começa a haver muita desigualdade e que está a ficar com dois extractos sociais muito extremados: os que vivem muito bem e os que vivem muito mal. Por causa da globalização penso que estão a ser queimadas etapas que devem ter lugar no processo de desenvolvimento de um país. Adaptaste-te bem à realidade que foste lá encontrar, inclusivamente à gastronomia? Sim. Não sou muito esquisita e gosto de provar coisas diferentes. Se havia algo de que não gostava tanto não comia muito disso. Desde que provemos um pouco eles já não ficam ofendidos. Mas há coisas muito boas como frutas maravilhosas ou comidas com amendoim ou mandioca que gostei bastante. Adaptei-me bem e gostei bastante da comida. Eles comem com bastante frequência rato. Fui à casa de uma família que me convidou para jantar. Disseram-me que tinham um “petisco” e perguntaram-me se eu queria provar, ao que eu respondi: claro que quero! O enorme rato, apanhado no mato, veio inteiro para a mesa e eu questionei como é que se comia. Apesar de ser bom, pus-me a escolher e eles no final disseram-me que era um desperdício eu comer rato porque desaproveitava mais do que comia. É incrível porque eles comem quase tudo. Foi a coisa mais estranha que comi. Não comeste mais nenhum «bicho esquisito»? Comi também formigas, daquelas térmitas grandes. Não tive oportunidade de comer gafanhotos que eles também costumam comer. Durante os dois anos tiveste alguma vez doente? O meu problema eram as malárias (doença transmitida através de mosquito). No primeiro ano apanhei bastantes e no segundo apenas duas. Sentes que a caminhada que fizeste cá, antes de ires para Moçambique, ajudou a consciencializares-te sobre a missão Ad Gentes e que te impulsionou a fazer uma experiência destas ou foi apenas uma curiosidade, ainda pouco consciente, o que te motivou? Toda a caminhada, a preparação com os LMC e depois a preparação com a FEC – Fundação Evangelização e Culturas levou-me a adquirir essa consciencialização. Claro que há sempre aspectos que nos surpreendem e para os quais não vamos preparados, mas penso que tive uma boa preparação e que ia consciente daquilo que ia encontrar. Antes desta experiência já colaboravas na catequese da tua paróquia, também no grupo coral e tinhas também pertencido ao grupo de jovens. Estavas portanto comprometida na paróquia? Sim, embora me tenha afastado um pouco da paróquia com o meu ingresso na universidade. Foi então nessa altura que me integrei mais nos combonianos. Em que medida achas que esta iniciativa marcou a tua vida? No sentido do crescimento humano. Estas novas vivências fazem-nos crescer e ver as coisas aqui de uma maneira muito diferente. Estes dois anos da tua vida foram aqueles em que te sentiste mais útil? Sim. Foi a primeira experiência de trabalho e não foi um trabalho qualquer. Realmente senti-me bem em fazer algo de útil também para os outros e não só para mim. Este teu regresso é temporário ou definitivo? Nos LMC temos, desde há pouco tempo, um título que se designa “ad vitam” que significa para toda a vida e eu serei missionária comboniana para sempre, pelo menos no coração. Continuo ligada ao movimento como apoio na animação e na formação missionária dos que se preparam para ir em missão. Continuarei sempre ligada aos LMC. Se um dia partirei outra vez? Não sei. Depende da vida e do que ela me proporcionar. O regresso agora foi necessário devido a condicionantes relacionadas com o trabalho. Como parti logo quando terminei a universidade e não cheguei sequer a trabalhar será agora necessário procurar arranjar trabalho, pois os anos também começam a passar. Esta iniciativa também contribuiu para agora te integrares mais na tua paróquia de origem? Sim, é muito importante estar comprometido na paróquia. Penso que até que posso dar algum contributo à minha paróquia e esse pode ser um objectivo. O novo pároco pediu-me para eu dar algum apoio ao grupo de jovens. Como é que a paróquia te recebeu? Bem. Estavam todos com muitas saudades. (Risos) Sempre tive um grande apoio da paróquia. A minha mãe contava-me que as pessoas perguntavam e rezavam sempre por mim. Senti sempre a minha paróquia muito perto de mim. Estava também em missão comigo e isso é muito bom. Tal como a paróquia a família te apoiou sempre? Sim. No início talvez não tenham compreendido bem, mas sempre me apoiaram compreendendo mais ou menos. Nos combonianos, a nível nacional, vais ter alguma responsabilidade? Ainda estou na fase dos testemunhos. Tenho ido dar o meu testemunho a Coimbra, ao grupo dos novos formandos. Depois devem pedir-me alguma ajuda para as formações que precisarem. Que mensagem gostarias de deixar aos jovens que equacionem poder vir a fazer uma experiência destas? Os jovens que sentem o desejo de fazer mais não devem ter medo de arriscar. Há muitos movimentos e carismas e é só procurar e ver onde se enquadram melhor. Viver é mais do que nos acomodarmos. Que os jovens não tenham medo de deixar o seu conforto para seguir aquilo que o coração lhes pede. Mais fotos brevemente na Galeria de Imagens