Mais recentemente surgiram ainda outro tipo de manifestações paralelas de celebração da Páscoa, umas ainda com algum contacto com o fenómeno religioso, como as «vias sacras» encenadas ou teatralizadas, ou já mais afastadas, mas ainda assim com um pano de fundo bíblico como as «queimas do Judas» e outras já mais de carácter profano mas procurando estabelecer algum contacto com o ambiente pascal, como por exemplo os festivais de gastronomia que aproveitam a Páscoa para promover turisticamente as localidades e as regiões. Neste contexto, as procissões ganham uma nova força, como mais um «número» do cartaz de promoção turística, como manifestações da cultura popular, como expressão das tradições locais. Poderemos assim enquadrar em três grandes e diferentes grupos as pessoas que habitualmente tomam parte nas procissões: os católicos «praticantes», para quem as procissões são como que um mero prolongamento das celebrações litúrgicas em que já participaram anteriormente; os católicos «afastados» dos ritos litúrgicos e que habitualmente dão a sua preferência à religiosidade popular; e finalmente os que, católicos ou não, querem participar nas procissões por razões «bairristas», para manter vivas as tradições locais implantadas pelos antepassados e que a seu ver dão nome à terra, fazem parte da sua identidade e idiossincrasia ou complementam o cartaz turístico local. Para os do primeiros grupo, pessoas mais envolvidas na vida da Igreja, se por qualquer razão, nomeadamente climatérica, a procissão não se puder realizar, não há qualquer problema, estão de «alma cheia», já celebraram a Páscoa, já escutaram e meditaram a Palavra de Deus, já comungaram, e a procissão seria apenas um complemento piedoso. Já não assim para os dos outros dois grupos: para aqueles que centram a sua vivência religiosa apenas nas manifestações de piedade popular, se a procissão não se puder realizar é o «vazio» mais absoluto, dizem mesmo que “parece que nem há Páscoa” , e a tristeza pode chegar mesmo até ao desespero, face ao «vazio espiritual» que fica por preencher. Para o grupo dos «bairristas», isto é dos fundamentalistas das tradições locais, o caso pode ser ainda mais grave: a procissão até pode realizar-se, mas se não seguir o precurso dos «mais anos», o trajecto idealizado pelos antigos, é o fim do mundo. Não querem saber das alterações urbanísticas, dos sentidos de trânsito, das obras em curso, do número de pessoas disponíveis para transportar os andores, nem sequer do estado do tempo: a procissão «tem de sair» chova ou faça sol, tem que seguir o trajecto tradicional, por mais incómodo ou desajeitado que ele seja, pois é da tradição e as tradições são para se cumprir! Junte-se a isto alguma animosidade ou discordância com os critérios pastorais dos responsáveis locais da Comunidade Cristã e temos o «caldo entornado»… temos os ingredientes todos misturados para a explosão da «ira popular». Foi isto, exactamente isto, que na noite da útima Sexta-feira Santa se passou em Olhão. Os cristãos de «fé viva e verdadeira», que estavam dentro da Igreja com o seu Pároco a organizar a procissão conformaram-se com a intempérie e, responsavelmente, não expuseram à chuva e ao vento as imagens e as alfaias litúrgicas do século XIX que se poderiam degradar irremediávelmente, enquanto que aqueles que aguardavam no exterior reagiram mal à decisão de não realizar a procissão face à inclemência do tempo. E o tempo estava mesmo desfavorável. Noutras localidades do Algarve, como na vizinha cidade de Faro, a procissão também não pôde sair… Ainda há cerca de um mês, no dia 19 de Março, correspondendo ao convite dos cristãos de Olhão e do seu Pároco, tomei parte na Procissão do «Senhor dos Passos» que habitualmente se realiza na Cidade da Restauração no III Domingo da Quaresma. Vi uma Comunidade cristã activa, participativa e empenhada e uma população ordeira que com respeito e até emoção, viu passar a procissão. Por coincidência, o tempo ameaçava chuva e à chegada até começou a chover, de tal forma que a homilia que fui proferir (tradicionalmente chamada de «Sermão do Encontro») não se efectuou na varanda exterior mas no interior da Igreja. Desta vez, porém, o tempo estava de tal modo, que não houve mesmo qualquer hipótese de efectuar a procissão. Não entender nem aceitar uma coisa tão simples como esta, não tem qualquer explicação racional e só pode mesmo corresponder a uma emoção colectiva, a um momento menos feliz, a um «vazio de alma»…