Numa segunda fase, que poderá coincidir com a próxima recolha agendada já para o final de Novembro deste ano, no início da quadra natalícia, a acção do BACFA poderá então ser estendida aos 16 concelhos do Algarve. Para já, o BACFA procurará criar uma rede social, estabelecendo protocolos com 25 entidades e Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), entre as quais a Caritas Diocesana do Algarve e as paróquias da cidade de Faro. Essa rede deverá no futuro ser alargada a outros concelhos com voluntários e unidades comerciais que estejam disponíveis para uma parceria activa com esta iniciativa. Adriano Pimpão explicou que "as instituições são escolhidas de acordo com determinados critérios", sobretudo com "a informação prestada pela Segurança Social", mas também "com aquilo que são as suas iniciativas e a sua credibilidade". Caberá, então, a essas entidades, parceiras da rede social, a distribuição dos bens alimentares pelos carenciados com quem já trabalham. O presidente do BACFA considerou ainda que o problema da fome "no mundo e em Portugal, não é de falta de recursos alimentares, mas de uma política de redistribuição". Adriano Pimpão congratulou-se ainda com o apoio da Câmara de Faro. "Numa altura em corremos o risco, na sociedade portuguesa, de aumentar também o chamado autismo social, é bom que o exemplo venha de cima. Neste caso da Câmara Municipal, considerando como uma das suas prioridades a solidariedade social, não como um objectivo político, mas como uma prática que se faz em parceria com várias instituições, com a sociedade civil e com o cidadão anónimo", disse. José Apolinário, presidente da Câmara de Faro, reconheceu que as IPSS, as paróquias e a Caritas do Algarve "são, no concelho de Faro, as entidades que sabem quem são as pessoas que têm carências alimentares". "Ninguém vem bater à porta e há muita dificuldade escondida", lembrou, salientando que, "por vezes, são pessoas idosas que vivem sozinhas e que têm reformas baixas". O autarca advertiu ainda que "há neste momento um fenómeno que tem a ver com a desestruturação familiar". "Desemprego de um ou outro elemento do agregado familiar que cria problemas específicos em relação às crianças e é perante essa situação, que tem a ver com a natureza urbana, que é preciso responder", frisou. "Aproveitar onde sobra para distribuir onde falta" é a filosofia subjacente aos Bancos Alimentares, evitando o desperdício de alimentos e fazendo-os chegar às pessoas carenciadas. A organização recebe ao longo de todo o ano todo o tipo de géneros alimentares, recolhidos localmente e a nível nacional no estrito respeito pelas normas de higiene e de segurança alimentar. 78,5 toneladas de alimentos recolhidos no passado fim-de-semana no Algarve Os cerca de 1000 voluntários do Banco Alimentar Contra a Fome do Algarve (BACFA) recolheram no passado fim-de-semana 78 toneladas e meia de alimentos naquela que foi a primeira campanha daquela entidade realizada em várias unidades comerciais da região. O Algarve foi assim a quinta região do País a conseguir recolher a maior quantidade de alimentos, logo a seguir a Lisboa, Porto, Setúbal e Aveiro, o que representa 7 por cento das 1322 toneladas de alimentos recolhidas a nível nacional. Só no concelho de Faro foram recolhidas cerca de 18,4 toneladas de alimentos. Em relação à campanha realizada em Maio do ano passado, o total nacional representa um aumento de 13,8 por cento. O espírito de solidariedade demonstrado pelos algarvios levou mesmo o presidente do BACFA, Adriano Pimpão, em declarações à FOLHA DO DOMINGO, a considerar que “não há individualismo no Algarve, ao contrário do que por vezes injustamente se diz”. Refira-se que todos os alimentos frescos e perecíveis oferecidos durante a campanha foram logo na segunda-feira distribuídos por cinco instituições de solidariedade do município de Faro, nomeadamente as Irmãs de Calcutá, Casa dos Rapazes, Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS), Fundação António Silva Leal e Grupo Sócio Caritativo da Conceição de Faro. Mais de 210 mil pessoas receberam ajuda em 2006 De acordo com os dados da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome, ao longo de 2006 foram apoiadas com produtos 1380 instituições, que concederam ajuda alimentar a mais de 210 mil pessoas comprovadamente carenciadas. No ano passado os dez Bancos Alimentares Contra a Fome distribuíram um total de 18.014 toneladas de alimentos (equivalentes a um valor global estimado superior a 24,3 milhões de euros), ou seja, um movimento médio de 72 toneladas por dia útil. Estes valores resultam da solidariedade e generosidade dos particulares, patenteadas nas duas campanhas anuais de recolha de alimentos, e de uma acção continuada de aproveitamento dos excedentes produzidos pela cadeia de produção e comercialização de produtos agro-alimentares, que de outro modo teriam sido objecto de destruição. As carências alimentares com que se debatem muitos portugueses são um fenómeno típico das grandes aglomerações urbanas e têm tendência a agravar-se em períodos de abrandamento da actividade económica. Samuel Mendonça