“Só conheço uma Senhora que é a Mãe de Jesus”. Foi desta forma que o Prelado introduziu as suas intervenções logo no primeiro dia em que começou por explicar não vir falar de devoções, mas da “teologia sobre Nossa Senhora, a Mãe de Jesus”. Entrando directamente no tema, que lançava a interrogação “Quem é esta Senhora com tantas invocações?”, D. Manuel Madureira Dias sublinhou que “se somos filhos de Deus, Maria é particularmente filha de Deus”. “Se a graça de Deus é que nos faz seus filhos e Ela é a cheia de graça, então essa presença de Deus-Pai na relação com Maria é muito mais profunda e acentuada em Maria do que em nós”, justificou. O Bispo Emérito do Algarve explicou ainda que, “como filha, Maria é de todas as criaturas aquela que mais perfeitamente participa na filiação divina”. “Se há um Filho de Deus por excelência é Jesus Cristo. E numa escala sucessiva, descendo em degraus, logo a seguir, noutra maneira e noutra acepção, a Filha mais perfeita que existe, humanamente falando, chama-se Maria, a Mãe de Jesus”, concretizou. Lembrando que, na relação como o Espírito Santo, Nossa Senhora adquire alguns nomes, como o de esposa, D. Manuel Madureira Dias defendeu que “se há alguém que possa chamar-se esposa de Deus é a própria Maria”. “Não porquanto seja deusa porque não o é, – é criatura –, mas é a criatura onde o amor mais puro pode existir”, justificou. Outra das classificações de Nossa Senhora é sacrário “porque transportou n’Ela própria, durante nove meses, o próprio Filho de Deus”, apontou. “Se com razão, São Paulo diz: «não sabeis que sois filhos de Deus e que o Espírito Santo habita em vós», porque razão Maria não há-de ser chamada o santuário onde o Espírito Santo habita?”, questionou o conferencista que salientou que “Cristo entrou «em cheio» na história humana porque a Mãe d’Ele estava «em cheio» metida no interior da história humana de um povo em particular”. D. Manuel Madureira Dias evidenciou que “o mesmo Deus que fez do nada todas as coisas, fez que, do seio de Maria, brotasse um Ser que já era ser divino e que passou também a ser humano”. “E essa natureza humana de Jesus não se deve a uma geração humana, mas a uma geração divina no seio de uma mulher”, acrescentou. Considerando que, “para merecer o título de mãe”, uma mulher tem de gerar, gestar, dar à luz e educar um filho, D. Manuel Madureira Dias admitiu que hoje, com as produções in vitro e com as «barrigas de aluguer», estas realidades já não são tão “transparentes”. No entanto sublinhou que “a mãe só é completa quando tudo isto acontece e Maria foi a Mãe completa”. O conferencista explicou que “a maternidade de Maria é singular porque concilia a maternidade propriamente dita e a virgindade e vice-versa”. “Quando dizemos que Maria foi virgem antes do parto queremos dizer, teologicamente falando, que entendemos que a sua maternidade teve uma singularidade especial no momento da concepção do seu Filho. Concebeu Jesus por meio de uma intervenção de Deus. Se nos referimos à virgindade no parto entendemos que também o parto de Maria, por meio do qual Jesus nasceu, aconteceu de um modo extraordinário, mesmo organicamente falando. Se nos referimos à virgindade depois do parto estamos a afirmar que Jesus não teve mais filhos além de Jesus”, referiu D. Manuel Madureira Dias, explicando que desde o século II que a Igreja afirma com convicção a virgindade de Maria na concepção e no parto. E o Bispo do Algarve explicou o que se refere com o termo virgindade. “Não queria que ficassem com a ideia que estou a referir-me aos aspectos anatómicos do corpo. Quando muito esses aspectos anatómicos são um sinal exterior de uma virgindade muito mais profunda que é a do coração, da alma, do pensamento e da identificação com o mistério de Deus. Então a grandeza de Maria consiste sobretudo na virgindade da mente, do coração e dos sentidos. E essa virgindade corpórea exterior, que tem importância como sinal, é apenas e só sinal disto tudo”, explicou. Criticando os ataques de outras confissões cristãs, o Bispo Emérito do Algarve negou que os católicos adorem Nossa Senhora de Fátima. “Nunca adorei Nossa Senhora, se algum de vós a adorou fez mal. Uma coisa é estimar, querer bem, amar, venerar, outra coisa é adorar. Nós não adoramos”, frisou. Por outro lado, recusou igualmente a acusação de que os católicos divinizam demasiado Maria. “Não queria divinizar Nossa Senhora porque Ela não é Deus, mas é divina como nós somos divinos”, afirmou. A terminar, criticou ainda as vozes que interpretam erradamente a Escritura para negar a virgindade de Nossa Senhora defendendo que Ela teria tido outros filhos para além de Jesus. “Em hebraico e aramaico só há uma palavra para dizer irmão, primo e parente e a mesma palavra só se entende a quem se está a referir pelo contexto”, justificou, sublinhando peremptoriamente que “não há sítio nenhum de onde se possa concluir que Maria teve mais filhos além de Jesus, por mais «casamentos» que arranjem por aí e por mais «descobertas» de arqueologia que façam”. “O que está nos Evangelhos é claro”, concluiu.