O conferencista começou por desejar “longe do nosso tempo” a “visão de um Deus justiceiro, vingativo, castigador, face ao qual não conseguíamos conciliar o amor com a existência do sofrimento”. “O nosso Deus é simplesmente amor”, clarificou, explicando, no entanto, que “o amor de Deus, ao ser-nos comunicado, fica dependente do uso que dele fazemos, torna-se frágil e chega a degradar-se em nós e por causa de nós”. D. Manuel Madureira Dias, que apelou à “capacidade de transmitir aos que estão em estado de fragilidade que Deus está neles e com eles”, lembrou que “a cura acompanha a evangelização porque evangelizar é recuperar o homem por inteiro” e “também nas suas mazelas”. O Bispo Emérito do Algarve exortou mesmo à existência de “uma força transformadora e humanizante” nos cristãos. “O doente precisa de descobrir que é amado por Deus, mas o instrumento de que Deus se serve posso ser eu, na minha atitude junto de quem sofre”, complementou. Considerando “mais importante o modo como evangelizamos do que o conteúdo da evangelização”, ou seja, que “importa mais a qualidade do que fazemos do que a quantidade das acções que realizamos”, o Prelado destacou que “o essencial é uma atitude de proximidade feita com amor por meio de gestos muito simples”. Como chave de leitura da dor e do sofrimento humano, D. Manuel Madureira Dias apontou o exemplo de Cristo. “Temos de olhar para Cristo para ver o que aconteceu com Ele e como é que Ele reagiu e, no meio de tudo, soube amar”, afirmou, considerando que “era bom que, quando estamos a sofrer, fossemos capazes de, pela fé, fazer esta descoberta: nunca Deus esteve tanto comigo como agora!”. “Quando estou a sofrer, Deus está a sofrer comigo”, reforçou, visibilizando um dos aspectos da paternidade de Deus. Aos presentes, D. Manuel Madureira Dias explicou que, apesar de indesejável, “o sofrimento não é um verdadeiro mal”, mas um “mal relativo”. “A designação de verdadeiro mal não cabe nem ao sofrimento, nem à morte, mas ao pecado. Há males e há o mal. Males há muitos, entre os quais o sofrimento e a dor. O mal por excelência é um só: o pecado, que destrói irremediavelmente o homem e lhe retira a vida eterna”, clarificou. Neste contexto, o Bispo Emérito lembrou que “Cristo não nos remiu por ter sofrido”. “Cristo remiu-nos porque amou e amou muito mais porque sofreu. O que nos salva não é o sofrimento, mas o amor”, elucidou, considerando que “a maior prova do amor é dada quando somos chamados a sofrer”. D. Manuel Madureira Dias mostrou ainda o quanto o sofrimento pode ser “uma forma de solidariedade e de comunhão com os irmãos”. “Estar preso a uma cama, sem poder movimentar-se e a depender de toda a gente, pode ser um acto de fraternidade e solidariedade incomparável a qualquer outro”, considerou, garantindo que “tudo depende do que vai no coração de quem sofre”. O conferencista deixou claro que sofrimentos e doenças “não são castigo de nada, nem de pecados”. “Os sofrimentos podem tornar-se imensamente frutíferos se soubermos vivê-los como expressão de amor de Deus por nós e do nosso amor em favor dos irmãos. Assumidos como caminho de redenção, os sofrimentos geram paz e confiança em Deus”, observou D. Manuel Madureira Dias, apelando a que a presença dos cristãos “ajude os doentes a cultivar o amor”. “Precisamos de ser libertos do mal que arrefece o amor”, alertou o Bispo Emérito do Algarve , considerando que a doação de “uma grande dose de amor” pode equivaler a «sangue» para transfusões. “Que bom seria, se antes de a morte nos apanhar, tivéssemos oferecido a vida”, aspirou. A terminar, D. Manuel deixou algumas orientações práticas aos cristãos que trabalham com doentes. Considerou que “o evangelizador deve transmitir uma experiência de salvo”. “Um visitador de doentes deve transmitir uma irradiação de uma alma que se sente salva”, concretizou, advertindo ainda que “tem de ser muito gratuita a presença junto dos doentes”. O Bispo Emérito defendeu ainda que se acompanhe mais de perto “os mais desfavorecidos” e pediu aos cristãos que “não se armem em curadores do corpo, nem em salvadores da alma”. “Se a nossa presença, junto do doente, for uma bênção será uma presença evangelizadora”, concluiu. Confrontado sobre a forma de abordar os doentes que não são crentes, D. Manuel Madureira Dias defendeu dever tratar-se “humanissimamente” a pessoa. “Não podemos levantar conflitos, mas também não vamos abdicar do que somos”, sustentou. Mais fotos brevemente na Galeria de Imagens Ouça novamente as conferências ou veja as conclusões aqui