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“Cada um de nós trouxe um tesouro no coração”

FOLHA DO DOMINGO – Iam preparados para a realidade que encontraram? Marlene Brito – Vivenciámos tudo o que nos tinha sido dito, mas houve coisas que poderíamos estar à espera que fosse pior e isso não aconteceu. Tudo aquilo que foi diferente foi para melhor. Martin Lassen – Não tinha grandes expectativas, mas abri o meu coração e recebi muitas graças. Foi uma experiência única mesmo. Vivendo a minha fé e testemunhando a caridade cristã, fiquei a saber que a realidade do nosso mundo ainda é muito diversa, mas existe uma alegria no coração de cada um que se abre quando estamos juntos partilhando a esperança através da nossa fé e das nossas obras. O grupo de candidatos era maior? Ana Mateus – Sim, éramos 15 e todos queriam ir, mas acabámos por restar só nós porque os outros, por várias razões, não puderam ir. Enquanto estiveram em Moçambique o que é que fizeram? Juary Ribeiro – A primeira semana foi para reconhecer o terreno. Depois dei aulas de guitarra a seminaristas do 3º ano e orientei duas formações a 50 acólitos. As aulas dadas no seminário eram também para 10 alunos externos que frequentam ali a formação mas não são seminaristas. O primeiro ano corresponde ao 11º daqui, o segundo ao 12º e o terceiro é só para seminaristas. Limpámos, recuperámos e decorámos uma sala de estar do Lar de São Gabriel que acolhe crianças e jovens órfãos dos 6 aos 21 anos. Quisemos deixar ali uma marca nossa. Quase todos os dias passávamos por lá para mantermos o contacto com as crianças. Soraia Niquice – Quando chegámos lá sentimo-nos incomodados com a sala, por não ser acolhedora e pensámos em reabilitar o espaço. Eu também dei aulas de Psicologia ao 3º ano do Seminário e de Biologia ao 1º ano. Participei num projecto de sensibilização para o cuidado e manutenção dos materiais que são doados, como os livros. Ana Mateus – Participámos ainda num projecto que decorre ao sábado no Seminário, também com crianças órfãs, algumas das quais vêm de muito longe, que tem em vista a realização de actividades lúdicas. Eu e o João íamos todas as manhãs para a ‘Escolinha da Mana Nilsa’ trabalhar com crianças até aos 5/6 anos. Ensinávamos-lhes os números, letras e músicas. Basicamente íamos estar com eles. Muitos não sabiam sequer pegar na caneta. Precisaríamos de muito mais de um mês. Marlene Brito – Eu também dei explicações aos seminaristas. Martin Lassen – Eu dei aulas de música ao 2º ano do Seminário e Inglês e Geografia ao 1º e 2º anos. Trocámos impressões sobre a cultura moçambicana e dinamarquesa. Todos os seminaristas trabalhavam ainda na agro-pecuária e eu também os ajudei nessas tarefas. Conheci bem a vida do Seminário. Começavam a trabalhar a que horas? Ana Mateus – Levantávamo-nos às 5.30h, às 6h tínhamos a oração de laudes e a Eucaristia e às 7.30h tomávamos o pequeno-almoço e seguíamos para as nossas actividades. O dia terminava às 18h porque já era de noite. Quando saíram daqui já sabiam que iam ser professores? Marlene Brito – Não, mas sabíamos que o trabalho iria ser mais na área educativa. Tínhamos uma ideia do que havia para fazer. Visitámos também uma associação que acolhe crianças, cujo edifício da escola é feito com barro e o telhado é uma chapa de zinco. Juary Ribeiro – Os professores que existem lá não têm qualquer formação para dar aulas. Marlene Brito – O problema é que não há dinheiro para pagar aos professores. Soraia Niquice – O material também é muito escasso e há outro problema: estive a ver um manual do 10º ano e a filosofia do meu 10º ano era muito mais avançada do que aquela. E os alunos também não têm iniciativa crítica para reivindicar outra educação. Eu vi alguns professores a dar explicações absurdas. Marlene Brito – A maior parte dos professores não são formados e podem dar aulas com o 9º ano. No caso da Matemática achei o nível de exigência igual ao de cá e os professores explicavam muito bem. O panorama que traçam do país não é nada animador. A realidade é mesmo essa ou há depois algumas áreas onde a situação melhora? Marlene Brito – Acho que é tudo mais ou menos assim ou pior. Juary Ribeiro – Há depois também alguns contrastes. Quem é rico é muito rico e quem é pobre é muito pobre. Marlene Brito – Em Chimoio não se nota tanto essa diferença, mas se formos a Maputo há uma parte da cidade que parece a nossa Vilamoura. Quem é que tem acesso a essas zonas mais desenvolvidas? Juary Ribeiro – São os comerciantes indianos e árabes com negócios no Dubai e alguns portugueses. São mais as pessoas de fora, porque os moçambicanos que vivem bem ou têm alguém ligado ao Estado ou então… E notaram que os moçambicanos se revoltam contra isso ou aceitam já como uma fatalidade? Juary Ribeiro – O que me tocou mais foi a humildade deles, o aceitarem a realidade, vivendo naturalmente, parecendo que não precisam de nada. E apesar disso são pessoas mais ou menos felizes que os europeus? Todos – Muito mais felizes. Martin Lassen – Sabem aproveitar, respeitar e valorizar aquilo que lhes foi dado por Deus. Mesmo com falta de meios sabem comunicar de uma forma incrível. É admirável os talentos que têm para aprender coisas. Ficaram com a sensação que a sociedade é corrupta? Juary Ribeiro – Muito corrupta. Falando com alguns jovens disseram-me que o grande problema de Moçambique é a corrupção. É uma terra muito rica em ouro, diamantes, petróleo, gás natural, tem as maiores barragens do mundo que geram electricidade para a África quase toda, mas apesar disso é muito pobre. Qual o sentimento dos moçambicanos em relação aos portugueses? Todos – Fomos muito bem acolhidos e até nos chamavam manos. Nas redes viárias também há esse nível de subdesenvolvimento? Juary Ribeiro – Algumas estradas são muito esburacadas e a única asfaltada é uma estrada nacional que vai de Maputo ao Zimbabué. As outras são de terra batida e quando chove não se pode lá passar por causa da lama. Marlene Brito – Também não há muitos carros a circular porque um depósito de combustível custa cerca de 1500 meticais e o ordenado médio mensal é de 800 meticais. E ao nível de outras infra-estruturas como os hospitais, como está o país? Juary Ribeiro – Em comparação com a Guiné e alguns sítios de Angola está muito mais desenvolvido, pelo menos por fora. Por dentro não percebi como funciona. Marlene Brito – Na cidade pode haver condições, mas o hospital serve uma zona muito mais vasta e quem mora na periferia talvez só tenha acesso aos cuidados de saúde uma vez por mês. Os próprios técnicos de saúde têm fazer contas para ver se conseguem ir a determinadas zonas. A religiosidade do povo moçambicano é notória? Há também muitas seitas a aparecer? Ana Mateus – Sim, em cada esquina há uma seita, mas a maioria ainda é católica. Juary Ribeiro – No domingo toda a gente se veste bem e se calça porque é Dia do Senhor. Martin Lassen – As crianças também rezam sempre antes de comer. Juary Ribeiro – Há muita diferença entres as comunidades da montanha e a cidade. Na montanha as missas são celebradas em dialecto e no ofertório as mulheres trazem galinhas, canas-de-açúcar ou milho para oferecer ao padre e quanto mais oferecem mais contentes ficam. Esses alimentos destinam-se, uma parte à comunidade dos frades, outra parte é vendida para conseguirem dinheiro para os combustíveis e outra parte é doada a instituições. A língua foi também um obstáculo? Ana Mateus – Apenas nas comunidades porque falam em dialecto, mas mesmo aí tínhamos tradutor. Juary Ribeiro – Em Moçambique existem mais de 40 dialectos e cada província tem o seu e isso também é um entrave para o desenvolvimento do país. Soraia Niquice – Muitos também falam inglês por causa da fronteira com o Zimbabué. A Igreja procura ter um papel na busca de soluções para os problemas do dia-a-dia? Marlene Mateus – Sim. Antes da Eucaristia havia uma partilha dos problemas da comunidade com o pároco. Eles aguardam que o padre vá lá para partilharem com ele os problemas existentes. Um dos problemas é que muitos dos professores destacados pelo Estado não vão dar aulas porque não lhes apetece, embora o Estado continue a pagar-lhes. Que significado teve a concretização desta experiência? Soraia Niquice – Foi gratificante porque permitiu um reencontro com Deus e o conhecimento de uma cultura que ainda me é próxima, visto o meu pai ser moçambicano. Todo o trabalho que desenvolvi tem a ver com a minha área de formação e por isso consegui dar mais na tentativa de ajudar aos ideais. Permitiu-me ainda travar um maior conhecimento com todos os elementos do grupo. Aprendi a dar valor a pequenas coisas que me até à data não dava. Juary Ribeiro – Nunca tive o sonho de ser missionário e sempre fui introvertido. Quando surgiu a proposta vivi uma luta para decidir se ia ou não. Aprendi lá a saber estar, a aproveitar o momento e saber dialogar… Senti também a grande presença de Deus. Soube dar valor a ir à Eucaristia todos os dias e agora em Portugal sinto essa falta. A humildade e a simpatia das pessoas foi outra coisa que me marcou. Martin Lassen – Esta viagem fortificou a minha fé, esperança e caridade, todas as virtudes que queremos viver como católicos. Comprovei que Jesus é irmão, amigo e que Deus está no meio de nós. Vi Jesus no meu próximo. Aqueles seminaristas que me abraçavam cada dia deram tanto carinho e atenção a coisas que fizemos e que nem pensava importantes… As pequenas coisas tinham um valor divino. Aquilo que fizemos saiu espontaneamente do coração. Foi uma grande alegria e o viver na felicidade de ser filho de Deus. Senti que ser irmão é algo que devemos praticar mais, acolhendo-nos uns aos outros. Cada um de nós trouxe um tesouro no coração e devemos semear aquilo que recebemos. Por cada sorriso ou abraço que dei recebi dez vezes mais. Vivemos um amor recíproco. Senti-me livre como uma pomba. Esta experiência abriu algo no meu coração que ainda estou a tentar descobrir o que é. Ser feliz, através da caridade e da nossa fé, foi muito enriquecedor. Posso viver esta alegria na minha comunidade em Copenhaga. Vou tentar semear estas sementes e fazer florescer aquilo que Deus plantou no meu coração. A missão do missionário é viver e levar a esperança, a paz e a alegria. Ana Mateus – Custou-me muito mais despedir das pessoas lá do que da minha família aqui. Por mim não me tinha vindo embora. Um mês não deu para nada. Depreendo das vossas palavras que é um objectivo comum voltar? Todos – Sim, todos queremos voltar e vai acontecer. Juary Ribeiro – Senti que estava a ser útil e aqui parece que não o sou. Lá sabem dar mais valor àquilo que damos. Têm a sensação que os europeus já estão cheios de muita coisa e vazios do principal? Ana Mateus – Sim, é verdade. Marlene Brito – Há instantes lá que valem por muitos meses cá. Agora que regressaram com esta experiência de que forma é que querem pôr isso ao serviço dos outros? Ana Mateus – Queremos passar a mensagem… Marlene Brito – …e talvez encontrar uma forma de ajudar o lar. Ana Mateus – Eu penso organizar uma exposição de fotografias, cujo lucro da iniciativa reverta a favor de algum dos sítios onde estive a trabalhar. Cem euros que eu possa mandar dá para eles comerem todos durante uma semana. E têm forma de garantir que esse dinheiro chega aos destinatários? Marlene Brito – Temos, porque há lá duas senhoras que funcionam como uma espécie de «madrinhas» e que nos dão garantias de que o envio, sendo feito através delas, chega ao sítio certo. Juary Ribeiro – Queremos também sensibilizar as pessoas para ajudarem. Depois de termos uma experiência destas não conseguimos ficar parados. Que apoios é que tiveram? Ana Mateus – Tivemos o apoio da comunidade daqui. Ao longo de dois anos, fizemos t-shirts e compotas para vender, cantámos as janeiras e realizámos festas de modo a conseguirmos angariar dinheiro. Podemos dizer que a Ordem Franciscana Secular (OFS) de Faro nos ajudou muito no concretizar deste projecto, uma vez que eles estavam sempre disponíveis e eram os nossos principais "clientes" em todas as actividades. A União Missionária Franciscana (UMF) ficou encarregue da logística, alimentação, alojamento, etc. A nosso cargo ficaram as viagens de avião, ida e volta, que custaram pouco mais de 1500 euros. Não foi fácil conseguirmos todo o dinheiro mas conseguimos! Destes 1500 euros, a UMF ainda pagou as viagens de avião internas Maputo-Chimoio e Chimoio-Maputo e portanto, nós tivemos de pagar 1100 euros cada um. A juntar ao dinheiro que angariámos, tivemos a colaboração de uma irmã da Ordem Franciscana Secular que também se mostrou disponível em ajudar. Resumindo, a UMF, a OFS de Faro e todos os nossos "clientes" fizeram também parte deste sonho. E sentiram apoio por parte das famílias e da paróquia? Juary Ribeiro – Sentimos o entusiasmo das pessoas daqui que sabíamos rezarem por nós. Ana Mateus – As famílias também nos apoiaram. Marlene Brito – As nossas famílias já estão habituadas a que nós andemos sempre por aí. Que mensagem deixariam a alguém que esteja neste momento a por a hipótese de fazer uma experiência semelhante? Ana Mateus – É de arriscar. Juary Ribeiro – Que feche os olhos, mergulhe e viva o momento. Uma das coisas que nos pediram para fazer quando chegássemos a Portugal foi cativar mais jovens para a missão. Brevemente, fotos da missão na Galeria de Imagens

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