Mercê dos fluxos migratórios, Portugal, e naturalmente o Algarve onde residem muitos imigrantes, vai percebendo e interiorizando outras celebrações litúrgicas. Embora a sociedade portuguesa não esteja habituada a esta variedade de ritos, a Igreja Católica sempre manteve vários ritos na sua história. A Igreja algarvia ao receber os imigrantes, acolheu também a sua cultura, dando espaço para a preservação e celebração do culto e a comunidade ucraniana greco-católica salienta esse mesmo acolhimento e disponibilidade da Igreja católica algarvia na cedência dos seus templos para o culto, segundo o rito Bizantino, celebrado pelos cristãos orientais. Este rito surge quando o império romano se estabelece na cidade de Bizâncio – a actual cidade de Istambul, na Turquia – ficando com duas sedes: Ocidental em Roma e Oriental em Bizâncio. As celebrações, por norma mais longas e muito cantadas, foram também realizadas no Algarve, mas separadamente para greco-católicos e ortodoxos. Embora ambos cristãos, as diferenças entre greco-católicos e ortodoxos são evidentes. Enquanto os católicos de tradição Bizantina estão ligados a Roma, tal como os cristãos ocidentais, os ortodoxos seguem as orientações de Moscovo. O padre Oleg Trushko, o único sacerdote greco-católico a dar apoio à comunidade ucraniana no Algarve, considera que as celebrações natalícias dos católicos de tradição Bizantina decorreram de forma muito positiva. O sacerdote relata que a participação foi muito numerosa, ilustrando como exemplo a presença de 350 ucranianos na pequena igreja de Santo António do Alto (10.30h), em Faro, e de 200 fiéis na igreja matriz de Albufeira (7h) nas Eucaristias da passada segunda-feira. Para além destas duas, o padre Oleg Trushko, que não dormiu na madrugada da passada segunda-feira, celebrou ainda a Eucaristia no mesmo dia em São Brás de Alportel (0h) e Portimão (4h). Tal como os ocidentais, também católicos de rito Bizantino celebram a consoada na véspera do dia de Natal. Assim, no dia 6 de Janeiro, o último dia de jejum segundo o rito Bizantino, a consoada é festejada com 12 pratos diferentes (símbolo dos apóstolos) confeccionados sem recurso a gorduras animais ou carnes. Os doces, muitos deles tradicionais, esses têm presença obrigatória. Nataliya Dmytruk, da comunidade greco-católica algarvia, explica outras simbologias da consoada. “Sentamo-nos para jantar assim que aparece a primeira estrela no céu, relembrando o aparecimento da estrela aquando do nascimento de Jesus”, relata. No final do jantar, os católicos de tradição Bizantina entoam canções natalícias tradicionais, de casa em casa, dando glória ao Deus Menino acabado de nascer e os visitados retribuem com qualquer oferta em dinheiro ou doces, mantendo-se esta tradição até ao dia 20 de Janeiro. Tal como os ocidentais, embora a Eucaristia mais importante seja a do próprio dia 7 de Janeiro, participam também na celebração eucarística, após o jantar, que este ano foi realizada na igreja de Nossa Senhora do Livramento (21h), em Tavira. Depois da Missa de Natal há ainda a tradição de se fazer um presépio vivo na rua junto à igreja. “Não podemos representar a Sagrada Família que são representados através de um ícone, mas os restantes elementos do presépio são pessoas que se vestem de reis magos, pastores ou rei Herodes”, explica Nataliya Dmytruk. Calendário juliano É um calendário solar criado em 45 a.C. pelo imperador romano Júlio César para trazer os meses romanos ao seu lugar habitual em relação às estações do ano, confusão gerada pela adopção de um calendário de inspiração lunissolar. César impõe 12 meses com duração predeterminada e a adopção de um ano bissexto a cada 4 anos. No ano da mudança, para fazer a concordância entre o ano civil e o ano solar, ele inclui no calendário mais dois meses de 33 e 34 dias, respectivamente, entre Novembro e Dezembro, além do 13º mês, o “mercedonius”, de 23 dias. O ano fica com 445 dias distribuídos em 15 meses e é chamado “o ano da confusão.” Esse calendário, que tem um desfasamento de 13 dias em relação ao nosso, começa a ser substituído pelo calendário gregoriano a partir do século XVI – a Rússia e a Grécia só fazem a mudança no século XX. Outras tradições Dia 19 de Dezembro é celebrado o dia de São Nicolau. Na noite deste dia são colocados presentes debaixo das almofadas das crianças, excepto àquelas que se portaram mal durante o ano, a quem é feita a oferta de ramos com que supostamente deveriam ser açoitadas. No mesmo dia é realizada uma festa infantil na igreja com um adulto vestido de São Nicolau, a quem as crianças iram recitar poesia, cantar, tocar instrumentos, entre actividades. No final da celebração também a Igreja oferece presentes às crianças. No dia 13 de Janeiro – dia de São Basílio – celebram a mudança do calendário juliano que marca o começo de um novo ano. É uma tradição que se manteve ao longo do tempo. No dia da Epifania, último dia da festividade do Natal, fazem uma procissão grande até um rio que nesta altura do ano se encontra gelado. Cortam o gelo de uma ribeira em forma de Cruz, levantando-a para ser benzida pelo sacerdote. Essa água da cruz será depois consumida. Alguns homens também tomam banho no rio gelado. Mais fotos na Galeria de Imagens