O padre Pedro Manuel explicou, no entanto, que é melhor viver sem o deus que o escritor advoga. “É possível vivermos sem aquele deus que o escritor escreve com ‘d’ pequeno, mas o Deus em que eu acredito, acho que não é possível viver sem Ele”, afirmou o jovem sacerdote, considerando que “o autor desconhece que a narração dos primeiros 11 capítulos dos Génesis é feita segundo o género literário do mito que não nos diz que aqueles acontecimentos ocorreram mesmo daquela maneira”, mas que o seu significado quer “falar” à vida dos cristãos. “O autor parece desconhecer que existem na Bíblia outras passagens concretas onde Deus aparece como um Deus próximo e amoroso”, lamentou. Radhouan Ben-Hamadou lembrou que “o prémio Nobel não dá a uma pessoa a legitimidade de magoar e fazer tanto mal”. “A forma como o Saramago interpreta a Bíblia é distorcida, não tem em conta a sua totalidade, retirando alguns acontecimentos para demonstrar a eventual crueldade de Deus”, acrescentou o representante do Islamismo. O padre Miguel Neto, leitor do prémio Nobel, evidenciando que “o próprio Saramago admitiu que fez uma análise superficial da Sagrada Escritura”, adverte que “não podemos comparar diversos géneros literários como um texto narrativo com um texto poético ou um de 10 séculos antes de Cristo com um de 6 séculos antes de Cristo porque as realidades eram completamente diferentes”. “Se tivesse sido o homem a criar Deus, haveria várias leituras de Deus e isso não acontece”, justifica, lembrando que apesar de haver uma “imensidade de pessoas na Bíblia a fazer experiência de Deus”, “há uma linha comum de um Deus que é o mesmo”. Ralf Pinto, fundador da comunidade algarvia judaica, lembrou que mais do que discutir sobre esta questão, importa o testemunho. No último fim-de-semana, também o padre Joel Teixeira, discordando de José Saramago, abordou publicamente a polémica sob o ponto de vista do escritor. “Não concordo em nada com o que disse, mas tenho de admitir que tem razão em muito do que diz”, afirmou o pároco de Raposeira, Sagres e Vila do Bispo, admitindo que o que motiva Saramago possa ser uma “constatação” de uma imagem que por vezes a Igreja deixa passar. “Por vezes somos maus, marginalizamos, não acolhemos e não amamos os outros. Por isso, José Saramago, um homem ateu que não é da Igreja, olha para os cristãos e faz um raciocínio simples: se aqueles que são cristãos são maus uns para os outros, quer dizer que o Deus deles é mau”, lamentou o sacerdote, exortando à mudança de atitude, sem condenar o escritor.