Tendo lugar no auditório da Biblioteca Municipal de Olhão, a iniciativa reuniu cerca de 110 técnicos e profissionais, oriundos de diversas instituições do Algarve e Alentejo, e foi constituída por três painéis: o primeiro ‘Da Família à Institucionalização’, o segundo ‘Que Projecto de Vida?’ e o terceiro sobre ‘Boas práticas em Lares de Infância e Juventude’. À FOLHA DO DOMINGO, o director do CBESNSF explicou que a organização desta acção procurou corresponder ao “carisma próprio” da instituição e “aos desafios lançados hoje pela sociedade, cultura e às dificuldades a respeito do acolhimento das crianças e jovens em risco”. O padre Carlos de Aquino sublinhou a necessidade de trabalho conjunto, entre as várias instituições que procuram promover cada vez mais a “dignidade de cada pessoa humana”. Também Cláudia Bragança, directora técnica do CBESNSF, considerou que neste momento há uma “mudança de paradigma em relação às instituições”. “A nossa ideia é que a comunidade perceba que as instituições do passado já não são iguais às de hoje e aquilo em que se devem tornar”. “Ao trazermos pessoas de diferentes instituições quisemos dar uma perspectiva global de que todas as instituições falam a mesma linguagem, embora agindo de forma diferente”, complementou. O sacerdote explicou que, “com alguma inquietação, em todos os temas apresentados notou-se que o trabalho a este respeito deve focalizar-se mais sobre a criança”, embora a prática seja diferente. “Questionou-se o princípio consagrado do direito do seu superior interesse, uma vez que se dá muito pouca importância à família através das políticas do próprio Estado”, elucidou. “Queremos que as crianças não estejam institucionalizadas, promovemos projectos de autonomia para a não institucionalização e a referência maior continua a ser a família, mas o que é ser é certo é que na prática a família continua a estar muito afastada destes processos”, lamentou aquele responsável. Por outro lado, o director CBESNSF explica que foram reivindicadas “medidas diferenciadas para casos diferenciados”. “As várias experiências, mesmo de institucionalização, são muito diferentes e mesmo dentro das instituições muitas vezes não há essa diferenciação consubstanciada em projectos de vida particulares orientados para cada caso”, reconhece. Lamentando a burocracia e a ampla legislação existente, o padre Carlos de Aquino constatou que se “proclamam muitos documentos que depois nem facilitam o trabalho das instituições e nem sempre são promotores do que é melhor”. “Na prática nem sempre as leis são exequíveis, cumpridas e claras”, concretizou, afirmando que também “a formação parental ainda está muito longe de ser a desejável e é uma lacuna grave”. “A criança é pouco escutada no processo de promoção da sua dignidade e da sua valorização”, criticou o sacerdote. No segundo painel, que não pôde ser participado por Rosa Clemente, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Jorge Ferreira, assistente social, e Luís Villas-Boas, psicólogo clínico e director do Refúgio Aboim Ascensão, apenas foi partilhado o tema da ‘Autonomia de Vida’. “Sublinhou-se que o projecto de autonomia de vida, não sendo o que o Estado mais deseja – crianças integradas em famílias –, é mesmo o mais indecente”, adiantou o padre Carlos de Aquino, destacando que a maioria das experiências com institucionalizados acontece em projecto de autonomia e que a introdução nas famílias é feita apenas com uma percentagem muito pequena de crianças e jovens. “As instituições têm de rever o exercício da autoridade sem recorrer a práticas que comprometam a confiança da criança no seu projecto de vida e no seu desenvolvimento”, defendeu ainda o padre Carlos de Aquino. O dia concluiu-se então alguns desafios para que as futuras jornadas promovidas pela instituição possam ser “mais vivenciais e de partilha e mais interactivas em torno de temas específicos mais emergentes”, como a Família. “Era importante que estas jornadas promovessem a publicação de um documento que apresentasse propostas concretas às instituições do Estado para as implicar”, concluiu o padre Carlos de Aquino.