Procurando esclarecer esta sua posição lembrou a “melhoria espectacular do nível de vida nos últimos anos” em que, segundo o conferencista, “foram arrancados à situação de pobreza 500 milhões de pessoas nos últimos 10 anos e 1500 nos últimos 25 anos”. “É uma coisa incomparável com qualquer outra época da história, só que o sistema que proporciona isso não é organizado, mas composto por milhões de pessoas, cada qual a puxar para o seu lado”, constatou César das Neves, considerando que “o surpreendente é porque é que corre bem” um sistema que, “de vez em quando, corre mal”. Defendendo a actual economia de mercado como o melhor sistema existente, ironizou que “houve um tipo que inventou um sistema que não tem crises, o marxista, mas também não tem mais nada”. César das Neves, disse aos cerca de 40 empresários algarvios presentes que a crise financeira foi causada por um “louco produto financeiro que correu mal”. Apesar disso, segundo o economista, “as possibilidades que este novo produto tem de vir a dar enormes desenvolvimentos é espectacular”. No entanto “a primeira vez que foi usado, e sem os cuidados correspondentes, foi uma catástrofe”. O conferencista defendeu que “quando acontece uma crise destas é preciso salvar os bancos porque os bancos são a base do sistema”. “Não é para salvar os ricos mas os pobres, porque se os bancos vão abaixo quem se trama são os pobres e não os ricos”, disse, considerando “fundamental que se salvem as instituições, mas não as pessoas que fizeram o disparate”. “Esses têm de ser punidos financeiramente”, defendeu. Apontando as previsões como a de uma crise “séria embora não catastrófica”, ressalvou que “neste momento ninguém sabe” e lembrou que “Portugal já estava em crise antes de cair na crise”. “Portugal não tem uma crise financeira porque a CMVM não deu licença e os bancos portugueses não puderam comprar os tais produtos «tóxicos»”, frisou, congratulando-se que economia nacional esteja a viver uma “reestruturação brutal” mas lamentando que seja vítima de “obesidade”. “Andámos a comer mais do que devíamos e estamos gordos: endividámo-nos”, explicou. “O Guterres «comeu, comeu», foi ao «médico», descobriu que estava a ficar «gordo» e com «problemas de coração» e fugiu. Depois veio o Durão Barroso, recebeu a «dieta», «comprou fruta» e fugiu. Depois veio o Santana Lopes, disse que «gordura» era formosura e puseram-no fora. O Sócrates fez uma «lipoaspiração» e continuou a «comer»”, caricaturou, lamentando que o endividamento de Portugal tenha passado de 8 para 100 por cento do PIB, de 1996 para 2009. “Quem se endividou não foi o Estado, mas nós todos”, clarificou. Voltando a caricaturar, explicou que “em cima da «obesidade» que tínhamos apanhámos «tuberculose» que é a crise internacional”. “Agora temos um «médico» a dizer que temos de fazer «dieta» porque estamos «gordos» e outro a dizer que temos de «comer» porque estamos «tuberculosos»”, complementou, explicando: “por causa da crise temos de gastar dinheiro para apoiar a economia a ver se ela recupera, por causa do endividamento temos de «apertar o cinto» porque estamos muito «gordos»”. “É a pior altura para fazer «dieta»”, constatou, lembrando que não resta alternativa ao país porque não o fez em anos mais favoráveis. João César das Neves, que defendeu que neste momento “em termos políticos a prioridade é o emprego”, lembrou que “num momento de crise os cristãos são chamados a ajudar os que sofrem”. Constatando que, “à primeira vista parece que o Evangelho é hostil à economia”, exortou os empresários cristãos a “começar por viver com os olhos no céu”. “É aqui, na realidade em que vivo, que tenho de procurar o reino dos céus e a sua justiça. Estamos aqui para fazer disto o céu e administrar as coisas, desde as pequenas, como se já estivéssemos no céu”, referiu, considerando que os empresários e gestores cristãos têm de agir sempre dentro do quadro da legalidade. Simão da Cunha, do núcleo algarvio da ACEGE, anunciou que este pretende que estes encontros se tornem uma rotina no mínimo de dois em dois meses.