Em causa está a construção de uma infra-estrutura que pretende assumir-se como um centro de formação escutista, único a sul de Lisboa, e que, gerida pelo Agrupamento 100 de Tavira do CNE, servirá não só o Algarve e o resto do País, mas também os grupos espanhóis de escuteiros da vizinha Andaluzia que olham com muito entusiasmo para o projecto. A ideia de criar aquela estrutura de apoio aos escuteiros surgiu muito por força das dificuldades impostas pelo decreto-lei que veio regular diversos licenciamentos, entre os quais o de acampamentos ocasionais, fora dos locais próprios para a prática de campismo e caravanismo. Para aquele tipo de actividade, o diploma veio exigir uma autorização da Câmara Municipal, um parecer favorável do delegado de saúde e do comandante da PSP ou da GNR consoante os casos, além do consentimento do proprietário do terreno. Um acréscimo de exigências, dado que anteriormente apenas era necessária a autorização do Governo Civil e a anuência da pessoa ou entidade proprietária do espaço. Ao abrigo desta lei (DL 310/2002), algumas Câmaras Municipais passaram a cobrar taxas para conceder a autorização e, mesmo com o consentimento do proprietário, a GNR até terá, nalguns casos, aplicado coimas e obrigado os escuteiros a levantar campo. O projecto para o terreno de 2,6 hectares, onde funcionou um antigo estaleiro de obras da Via do Infante, irá não só permitir que os escuteiros passem a acampar de forma completamente legal, como possibilitará a organização de inúmeras outras iniciativas. Ao abrigo do protocolo agora assinado, a Câmara de Tavira comprometeu-se a ceder ao CNE, por 50 anos, o direito de superfície do terreno, a “permitir a utilização do espaço para actividades escutistas nacionais e internacionais” e a “instalação das infra-estruturas e equipamentos necessárias para o bom funcionamento do espaço”, e a “colaborar na recuperação das infra-estruturas que venham a ser construídas no local”. O CNE comprometeu-se não só a gerir o CAE através do Agrupamento de Tavira, mas também a realizar no concelho de Tavira actividades a nível regional, nacional e internacional que promovam a formação de jovens, a promover acções de sensibilização e formação ambiental e acções de limpeza, a implementar trilhos interpretativos e colaborar nas acções de vigilância durante a época de fogos e a promover acções de protecção contra incêndios. Caberá ainda ao Agrupamento 100 de Tavira realizar um planeamento anual de gestão do CAE e das actividades a desenvolver. À AFN caberá assegurar o apoio logístico. Na sua intervenção, que procurou fazer a contextualização e explicação do projecto, o chefe do Agrupamento 100 de Tavira, Vitor Martins, sublinhou que o futuro equipamento “não servirá só para o CNE, mas será também para outras associações escutistas” como a Associação dos Escoteiros de Portugal, a Associação Guias de Portugal, a Fraternidade Nuno Álvares, bem como outras associações escutistas estrangeiras, como as da vizinha Espanha que, lembrou, “têm muitas mais restrições do que em Portugal”. “Na área da educação ambiental havemos de trabalhar com grupos escolares e outros”, complementou o dirigente, salientando igualmente a colaboração com outras entidade ligadas ao ambiente e à defesa da floresta como os bombeiros ou a GNR. “Vamos tentar aproximar as pessoas da mata”, concluiu. O chefe nacional do CNE, Carlos Alberto Pereira, destacou a incidência dos resultados desta parceria sobre as crianças e os jovens e caracterizou o futuro CAE como “um espaço de desenvolvimento da natureza”. “Natureza permite educar para o conhecimento, compreensão, a solidariedade e para a missão. Queremos ser capazes de rentabilizar esta infra-estrutura na formação de bons cidadãos”, acrescentou. Também António Miranda, director regional das Florestas do Algarve, se regozijou com acordo formalizado, esperando que a parceria com o CNE possa ajudar na missão de “explicar à sociedade que não interessa só a economia, mas existem bens ambientais que têm muito valor”. Macário Correia, presidente da Câmara de Tavira, desejou que o CAE “seja um espaço onde os jovens possam ter condições para a formação escutista, a relação com a natureza, a vida em sociedade, o respeito pelos outros, saber trabalhar em comum, ter sentimentos solidários, resolver problemas em conjunto”. Depois do terreno limpo, regularizado, adaptado e vedado, o projecto do futuro centro de formação contempla a construção de 4 salas de formação, 1 camarata para 100 pessoas (metade para cada sexo) com balneários, cozinha e refeitório, ateliês, oficinas, espaço multiusos e espaço polivalente, anfiteatro para fogo-de-conselho e balneários ao ar livre. Todas estas construções deverão ser feitas em madeira, de forma a não só garantir o enquadramento paisagístico adequado, no terreno, mas também as normas do CNE para que o futuro equipamento possa vir a ser homologado como centro de formação. Segundo o chefe Vitor Martins, há já a ideia de instalar “um centro interpretativo como existe em Marim” em que se possa conhecer a fauna e a flora local. Certo de que “o CNE não terá só por si condições para fazer uma obra destas”, o chefe Vitor Martins, considera fundamental a colaboração de entidades apoiantes, assegurando que “os custos iniciais do projecto apontam para 600 mil euros”.