O Bispo Emérito do Algarve exaltou a oferta da vida dos cristãos como sacrifício a Deus, lembrando a propósito que “a comunidade cristã, na sua reflexão de fé, ajudada pelo Espírito Santo, foi descobrindo que o verdadeiro sacrifício dos cristãos era o sacrifício da natureza do que Jesus fez”, ou seja, “não era dar coisas, era dar-se”. “Deus não precisa de nada. Deus quer o coração e é exactamente aqui que está a grande dimensão da oferta sacrificial da vida”, explicou D. Manuel Madureira Dias, recordando que “na Ceia Pascal, estamos diante do verdadeiro sacrifício”. O Bispo Emérito do Algarve considerou mesmo o espaço compreendido entre a Ceia de Jesus e a sua morte no Calvário “um único acto”. “Na Ceia é a entrega de Jesus no sacramento; no Jardim das Oliveiras acontece mais uma manifestação da sua identificação com a vontade do Pai; e no Calvário acontece o sacrifício, real, vivo, cruento, da sua própria entrega. É um único sacrifício, que na Ceia é antecipado de forma sacramental e no Calvário é consumado com a sua morte e ressurreição”, aludiu D. Manuel Madureira Dias, designando o acontecimento como “o princípio do sacrifício da própria vida de Jesus Cristo”, “o sacrifício dos cristãos”, que se realiza na Eucaristia. “Este sacrifício tornou-se sacrifício para nós”, afirmou, explicando que Jesus “fez o sacrifício de si mesmo ao Pai em favor de todos nós”, “de tal maneira que ele implicou connosco na Ceia”. “O que Jesus fez na Ceia e no Calvário em nosso favor foi como se dissesse: «o mesmo que eu fiz, fá-lo tu também»”, interpretou. Confirmando isso mesmo, D. Manuel Madureira Dias, evocou o gesto do lava-pés, realizado por Jesus aos apóstolos antes da Ceia, quando disse “se eu, sendo Mestre e Senhor, vos fiz isto, fazei vós também uns aos outros”. “Ligando o lava-pés com a instituição da Eucaristia temos aqui um recadinho velado, mas muito bonito: «olhem que isto tudo que está a acontecer não é para assistirdes, é para vos incluirdes também»”, observou, considerando o amor como o “acto unitivo” da ligação entre a Ceia e o Calvário. O Bispo Emérito do Algarve considerou igualmente que “no sacrifício está a primeira razão do amor fraterno”. “Só na medida em que eu for capaz de me entregar eucaristicamente à imagem do próprio Jesus Cristo é que eu estou habilitado para amar”, concretizou o Prelado, considerando que “as acções externas realizadas, chamadas de caridade ou de amor fraterno, se não forem tocadas e enformadas na base pela entrega a Deus, são vazias”. Lembrando que “o que comemos transforma-se em nós”, o conferencista procurou descodificar o gesto de Cristo. “Jesus ao dar-se como comida e bebida quis dizer isto: «quero que tu te identifiques comigo porque eu estou identificado contigo»”, afirmou, frisando que “Jesus, identificado connosco desde o momento da incarnação, agora quer dar-nos oportunidades para que nos transformemos n’Ele”. “Eucaristia não é apenas a comunhão sacramental que se transforma em nós, mas é sobretudo o desejável: que nós nos transformemos n’Aquele que recebemos. Esta é que é a comunhão”, elucidou. D. Manuel Madureira Dias sublinhou igualmente o sentido comunitário da Eucaristia. “Jesus não se deu a cada um individualmente e em separado dos outros. Se eu estou na Eucaristia e recebo Cristo em comunhão, – dele comigo e de mim com Ele –, recebo Cristo em comunhão com a sua Igreja e Ele quer também que eu, como membro da Igreja, esteja em comunhão com a Igreja para estar em comunhão com Ele”, explicou, justificando que “por isso não há uma comunhão com Cristo separado da comunhão com a Igreja”, ou seja, “não há uma comunhão verdadeira com Cristo se não houver comunhão com os irmãos”. D. Manuel Madureira Dias explicou que não é a comunhão eucarística que vai “produzir” a comunhão, mas apenas “vem selar, confirmar e tornar mais sólida a comunhão se ela já existe”. “Eu posso ter a minha piedade pessoal, os meus momentos de adoração diante do Santíssimo Sacramento, mas a Eucaristia que eu estou a adorar diante do Santíssimo Sacramento, é uma Eucaristia que foi celebrada da comunidade, para a comunidade e na comunidade”, disse. O conferencista explicou ainda o sentido do amor fraterno. “É uma maneira de estabelecer ligação com o irmão para que Cristo passe por esse gesto e o meu irmão descubra, a trás do meu gesto, que a razão de ser dele é o próprio Cristo”, concretizou. Sobre o sentido missionário da Eucaristia, o Bispo Emérito do Algarve, lembrando o último documento saído do Vaticano II “Presbyterorum Ordinis”, elucidou que “a Eucaristia deve levar os cristãos às obras de caridade, à acção missionária e às várias formas de dar testemunho cristão”. “Aquilo que aconteceu no altar vai passar por mim para outros que lá não estiveram. A Eucaristia foi ali naquele espaço e para aquela comunidade, mas como eu vou eucaristiado, vou, em nome da Igreja, da comunidade em que estou inserido, e da humanidade de que faço parte, ser presença eucarística d’Aquele que esteve comigo durante aquele tempo”, frisou. A terminar, o orador referiu ainda que “não há verdadeira celebração eucarística sem a busca da própria santificação que se realiza no amor quotidiano nos irmãos”. D. Manuel Madureira Dias deixou ainda claro que “o Corpo de Cristo não é apenas a hóstia consagrada”. “O Corpo de Cristo é a comunidade que está ali a celebrar o mistério de Jesus ressuscitado”, concluiu.