A Noite de Natal, – independentemente de ser celebrada exactamente nesta ou noutra data –, constitui para os cerca de 2 biliões de cristãos de todo o mundo, a par da Vigília Pascal, a maior ocorrência da História da Salvação. O mistério de um Deus que se fez homem –, da mesma carne dos demais que povoam a Terra –, que se despe de uma imagem imposta e abstracta do transcendente e que vem para salvar a humanidade inteira, torna-se particularmente visível para os cristãos por estes dias. Estes dois acontecimentos constituem em si mesmos o núcleo do Cristianismo. Acreditam os cristãos que o Menino de Belém, que é Filho, vem para dar a conhecer um Deus, que sendo Pai, é Amor. Amor pela humanidade no seu conjunto, concretizado no amor particularizado em cada ser humano que Deus considera único. É este o conteúdo e a síntese da mensagem de Cristo pela Terra. Tantas vezes acusado de estar desprovido de sentido, o Natal continua a ser celebrado pelos cristãos por reconhecerem-no como dom de Deus. Isso mesmo o sublinhou o Papa Bento XVI quando, encontrando-se, a semana passada, com jovens universitários de Roma e de toda a Europa na Basílica de São Pedro, lembrou que “é importante que não se perca de vista o principal dom: o Natal é o dia em que Deus se deu a si próprio à humanidade”. E o Sumo Pontífice indicava mesmo uma forma de os cristãos mergulharem mais profundamente na celebração natalícia. A presença de Deus, destacou Bento XVI, tem a sua máxima expressão na Eucaristia, “um concentrado de verdade e amor”. “Entramos no Mistério do Natal, cada vez mais próximo, através da porta da Eucaristia. Na gruta de Belém adoramos o mesmo Senhor que no Sacramento quis tornar-se nosso alimento espiritual, para transformar o mundo desde dentro, a partir do coração do homem”, disse. A solenidade do Natal do Senhor A solenidade do Natal é, liturgicamente, caracterizada por três Eucaristias: a da Meia-Noite ou do Galo (“ad noctem” ou “ad galli cantum”), que remonta, parece, ao Papa Sisto III, por ocasião da reconstrução da basílica liberiana no Esquilino (Santa Maria Maior), depois do concílio de Éfeso, em 431; a da Aurora (“in aurora”), originariamente em honra de Santa Anastácia, que tinha um culto celebrado com solenidade em Roma no século VI e, na liturgia actual, conserva ainda uma oração de comemoração; a do Dia (“in die”), a que primeiro foi instituída, no século IV. A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II confirma a estrutura desse tempo, que vai das primeiras vésperas do Natal até o domingo que se segue à Epifania. Enriqueceram-se os textos litúrgicos das celebrações e inseriu-se a Eucaristia vespertina da vigília; solenizou-se a maternidade divina de Maria, bem como o Baptismo de Jesus. O tempo de Natal compreende as festas da Sagrada Família (domingo após o Natal, ou, se este não ocorrer, a 30 de Dezembro); a de Santa Maria, Mãe de Deus, a 1 de Janeiro; a solenidade da Epifania do Senhor, a 6 de Janeiro, ou no domingo que ocorre entre os dias 2 e 8 de Janeiro. O tempo de Natal termina com a festa do Baptismo do Senhor, no domingo após a Epifania, ou, se esta coincide com o dia 7 ou 8 de Janeiro, na segunda-feira seguinte.