Perante uma assembleia de cerca de 36 pessoas, o orador começou por explicar o New Age (em português, Nova Era) como um “fenómeno de uma complexidade muito grande”, “fenómeno cultural, mas que extravasou a cultura imediata e toca a mentalidade do homem contemporâneo”. Trata-se, segundo o padre Joaquim Nunes, de uma realidade que “não é para todos”, mas apenas “para alguns”, pese embora o New Age toque as mais diversas áreas da vida quotidiana e da sociedade, da publicidade aos programas de televisão, passando pela música, entre outras expressões artísticas. E precisamente a música foi uma das bandeiras do surgimento daquele movimento. O orador lembrou a propósito, a estreia em 1969/70, em Nova Iorque e Londres, de uma das primeiras óperas rock. “Uma peça de teatro musical, chamada Hair, que causou celeuma e atraiu a atenção de toda a gente, onde era apresentada uma música emblemática chamada a Era do Aquário”, recordou, acrescentando que “a Nova Era é a Era do Aquário”, caracterizada pela “atracção contemporânea pelos signos do zodíaco, pelas previsões, entre outras coisas”. “Fazem-nos crer que, se ordenarmos a vida segundo o que é sugerido, temos a felicidade garantida em todos os aspectos: material, amoroso, psicológico, bem-estar, da saúde, etc”, observou. Baseando a sua intervenção num documento, intitulado “Jesus Cristo portador da água viva”, da autoria do Conselho Pontífício da Cultura e do Conselho Pontífício para o Diálogo Inter-religioso, o padre Joaquim Nunes, explicou que a Era do Aquário “relaciona os planetas, as constelações e o movimento dos astros, com o tempo, as pessoas e a sua vida, numa visão que não é a concepção científica e que continua a ser geocêntrica, com a terra no centro do universo”. “Esta visão do mundo, da história e das pessoas diz que o mundo também atravessa os sucessivos quadrantes do zodíaco”, complementou, referindo que o princípio de uma Nova Era, a Era do Aquário, é “caracterizada pelo bem-estar, saúde, harmonia, paz e tranquilidade, tudo centrado na pessoa, no indivíduo e na subjectividade”. “Enquanto o Cristianismo é fundamentalmente comunitário, esta nova mentalidade é individualizada, centrada na pessoa: se eu estiver bem, o resto não me interessa”, elucida o padre Joaquim Nunes, garantindo que “o homem completo da Nova Era procura ser consciência perfeitamente individualizada”, uma nova mentalidade que constatou ter os seus filósofos, sociólogos e psicólogos. Paradoxalmente, o orador explicou que “há um cruzamento muito grande entre a New Age e o Cristianismo”. “Parece que se aproximam, no entanto são exactamente o oposto. Ou seja é uma aproximação disfarçada. Veja-se o lugar que dá à meditação como caminho de perfeição, mas uma meditação centrada na própria pessoa”, clarificou, testemunhando que “os grupos de New Age promovem encontros que chamam de meditação/oração/reflexão”. “Enquanto para os cristãos a oração pressupõe falar com Deus, para o New Age é falar comigo próprio, ir ao fundo de mim próprio, descobrir a minha consciência. Não há diálogo”, elucidou. “Jesus Cristo é, para o New Age, um entre diversos”, sublinhou o padre Joaquim Nunes, referindo tratar-se de “uma espécie de expressão privilegiada no meio de muitos outros, que defendem, entre outras coisas, ter estado nos Himalaias a fazer um retiro entre os budistas”. Ao longo da sua intervenção, o sacerdote relacionou ainda o New Age com a cromoterapia, a aromaterapia, a musicoterapia, entre outras áreas e garantiu ser um movimento “com raízes gnósticas”. “A gnose é uma espécie de atitude, movimento filosófico e religioso também. No Cristianismo é central a salvação. Somos salvos por Jesus Cristo que deu a vida por nós. A gnose propõe como motivo para a salvação, o salvar-se a si próprio. A gnose propõe a salvação como qualquer coisa que eu posso obter, por exemplo, por via do conhecimento”, clarificou, salientando que “a gnose encerra sempre dentro de si um conhecimento fechado, que é apenas para alguns”. O padre Joaquim Nunes afirmou ainda que o New Age manifesta-se sobre as mais variadas formas e iniciativas como “encontros, seminários, retiros, grupos de estudo e terapias”, procurando o “equilíbrio das energias”. Com base no documento já referido, o sacerdote concordou que se deve “reconhecer que a atracção exercida pela religiosidade Nova Era em alguns cristãos é, em parte, devido à falta de uma atenção séria das comunidades cristãs”. “A busca de um significado para a vida, o nexo entre os seres humanos e o resto da Criação (natureza), o desejo de uma mudança pessoal e social e a rejeição de uma visão racionalista e materialista da humanidade” foram algumas das razões apontadas para a adesão ao New Age. Neste sentido, o padre Joaquim Nunes reconheceu que a Igreja, ou seja, os cristãos que a constituem, devem procurar solucionar essa problemática. “Não damos resposta a essa sede que é própria e típica do homem contemporâneo. Damos sucedâneos”, frisou.