Na iniciativa, que teve lugar no auditório Teresa Gamito, no Campus de Gambelas, D. Carlos Azevedo começou por explicar que a iconografia paulina, iniciada no século IV, junta geralmente Pedro e Paulo como as “duas colunas da Igreja”. “Esta associação de Pedro e Paulo está muito presente na primitiva arte cristã”, elucidou D. Carlos Azevedo, garantindo que “não são muitas as representações só de São Paulo”. “A origem da evolução da aparição de Paulo deve-se a Pedro”, considerou mesmo. Através da apresentação de diversas obras representativas do apóstolo de Tarso, desde o ano 348 até à actualidade, o Bispo Auxiliar de Lisboa mostrou que é frequente a sua figuração de rosto comprido, nariz aquilino, calvo ou com farta cabeleira, de barba longa ou ondulante, normalmente com expressões vigorosas de um ancião que lhe concedem um carácter asceta de um patriarca. O prelado salientou a propósito que foi o livro apócrifo dos actos de Paulo, do século II, que “passou a ser o cânone que inspirou a maior parte dos artistas e iria marcar muito a iconografia”. Mais tarde, haveria de justificar que a arte cristã recorre com frequência a episódios que não vêm no Evangelho, mas nos livros apócrifos porque “os Evangelhos são demasiado «secos» em pormenores, romance e detalhes e os livros apócrifos são mais sedutores no desenvolvimento daquilo que gostávamos de saber mas não temos informações históricas”. Para além da pintura, D. Carlos Azevedo trouxe também exemplos de azulejaria, ourivesaria, escultura, iconografia, xilogravura, imaginária e paramentaria. Muito embora a temática se referisse à representação de São Paulo na arte portuguesa, o conferencista trouxe exemplos de obras estrangeiras quando pretendeu mostrar temas não existentes na produção nacional como o da Concordia Apostolorum que mostra, através da iconografia oriental, Pedro e Paulo num abraço/beijo ou o da Traditio Legis, muito frequente na época paleocristã, que mostra Cristo a entregar a lei a São Paulo, “ele que soube perceber que a lei não era o mais importante mas antes o espírito que estava na lei”, lembrou o conferencista. D. Carlos Azevedo, que sublinhou que “a iconografia oriental coloca facilmente Paulo entre os doze”, ilustrou a sua conferência com peças algarvias. A primeira foi uma pintura da matriz de São Pedro de Faro, das primeiras décadas do século XIX, que integra a representação dos doze apóstolos. Mostrou ainda a representação dos apóstolos Pedro e Paulo, do artista Tommaso Conca, do Museu Municipal de Faro, apresentou a imagem de uma dalmática, de finais do século XVI, da mesma igreja de São Pedro de Faro, e, por fim, referiu-se ao São Paulo de Marcelo Leopardi, uma obra tardo-barroca, patente no Paço Episcopal de Faro. Apontando os principais atributos associados a São Paulo, D. Carlos Azevedo destacou o livro ou volumen (na antiguidade) e a espada que alude ao seu martírio (decapitação), mas também à Palavra de Deus, como o refere a carta aos Efésios que destaca a “espada do espírito” como “a Palavra de Deus”, “viva e eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes”. O conferencista destacou ainda os ciclos da vida de São Paulo representados na arte, como a sua conversão, baptismo, pregação no areópago, naufrágio, encontro com Pedro, lapidação e decapitação. Lamentando a “falta de inventários e de meios” para se poder saber “o que existe para além do que está publicado”, defendeu, por isso que “não podemos dizer que não há na arte portuguesa representações de alguns ciclos da vida de Paulo”. Veja as fotos da conferência de D. Carlos Azevedo, brevemente na Galeria de Imagens