O Bispo Auxiliar de Lisboa explicou, no Centro Pastoral e Social da Diocese do Algarve, em Ferragudo, aos cerca de 122 participantes da Jornada de Reflexão, que “não se pretende apontar soluções técnicas, nem intrometer-se na política dos Estados, mas cumprir a missão de verdade de realizar uma sociedade que respeite a dignidade e a vocação da pessoa humana”. “E a Igreja não se pode calar perante esta missão”, advertiu, reconhecendo que “se essa missão põe em crise algumas posições e atitudes do Estado isso já são consequências” e explicando que “o tema central da encíclica é o desenvolvimento autêntico do ser humano” como “chave de leitura para o desenvolvimento global”. O prelado garantiu que “a insistência da realização da caridade na verdade insere-se no desejo para favorecer a harmonização do mundo que é dominado pelo egoísmo, interesses e conflitos”, reconhecendo que “as pessoas não buscam a harmonia que a globalização deveria permitir” porque “querem é globalizar os seus interesses”. D. Carlos Azevedo lembrou que “o que está no horizonte do tudo o que é dito” no documento é “o projecto de Deus para a humanidade”. Considerando que “a caridade acontecerá se for exercida à luz da verdade e se a verdade for traduzida em caridade”, o orador explicou que “a encíclica é um «tapete» tecido por dois «fios» – caridade e verdade – que vão passando por todos os grandes problemas do mundo contemporâneo”. “Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo”, evidenciou, apontando dois critérios presentes na encíclica que decorrem da caridade na verdade: justiça e bem comum. Citando o Papa, lembrou que “«sem verdade, confiança e amor não há consciência e responsabilidade social porque a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder». Foi o que aconteceu na crise em que estamos envolvidos”, considerou, recordando que “dizer a verdade é uma forma de caridade que deve ser apresentada com humildade e convicção e testemunhada com a vida”. D. Carlos Azevedo acrescentou que “a caridade exige e supera a justiça, mas é inseparável”. “Não podemos fazer caridade sem justiça”, alertou, sublinhando, numa citação do Papa, que “o bem comum é o caminho político da caridade”. As estes princípios associou os da “subsidiariedade e da solidariedade” que Bento XVI acrescenta. Recordando o confronto do Papa entre a actualidade e os tempos da encíclica ‘Populorum Progressio’ do seu antecessor Paulo VI, retomou a evidência pontifícia dos resultados conseguidos e dos que estão em falta. Neste sentido questionou “o que é que é o progresso?”. “Hoje não há muito mais escravatura do que em 1967? Quem tem emprego não está muito mais escravizado? A natureza não tem sido muito mais destruída pela industrialização?”, interpelou, constatando que “a noção de progresso alterou-se muito”. O Bispo Auxiliar de Lisboa reconheceu não obstante que “milhões de pessoas saíram da miséria desde 1967 e isso é um dado positivo”. “A riqueza cresceu em termos absolutos mas em modos muitos desiguais e é preciso encontrarmos modos com base na concepção cristã”, contrapôs. Pese embora alguma melhoria, lembrou os “muitos países onde persistem graves problemas e dramas” e os consequentes “mecanismos perversos” elencados pelo Papa. A “actividade financeira especulativa”, os “fluxos migratórios imponentes”, a “fruição desregulada dos recursos do planeta”, a “distorção das ajudas internacionais” ou a “excessiva protecção dos direitos de autor no campo da saúde” foram alguns dos exemplos apontados, lembrando os “muitos países pobres onde persistem modelos culturais que atrasam o processo de desenvolvimento”. Também os processos “ambivalentes”, com efeitos positivos e negativos, como a “deslocalização de empresas” não são esquecidos pelo Papa, nem o foram pelo conferencista. D. Carlos Azevedo defendeu que “é preciso uma nova síntese sobre o que é o ser humano porque há falta de reflexão” e criticou aqueles que procuram distrair as pessoas. Rejeitando as críticas que acusam Bento XVI de anti-progressista, justificou que “o Papa tece um elogio ao desenvolvimento, mas recusa o progresso tecnológico como fim em si mesmo” e explicou que não se pretende “nem a utopia do regresso a uma sociedade primitiva, nem um progresso somente assente na tecnologia”. “O mal está em quem utiliza a técnica, o mercado, de modo pecaminoso”, complementou, acrescentando que “a encíclica insiste numa renovação cultural”. O conferencista manifestou ainda o “medo de que esta crise em que estamos a entrar seja ultrapassada sem ser uma renovação profunda dos valores”. Intervindo sobre a economia, à qual é dedicado o terceiro capítulo do documento papal, criticou que, para fins económicos, valha tudo. “A experiência amarga da crise demonstrou a incapacidade do mercado para se auto-regular. O mercado não deve ser demonizado porque pode ter muitas vantagens e não deve tornar-se o lugar de prepotência do forte sobre o débil”, advertiu, lembrando que “a actividade económica não pode resolver todos os problemas sociais” e que “a comunidade política tem de intervir na regulação da economia, porque ela abusa facilmente”. Apontando as “considerações inéditas” trazidas por Bento XVI para uma encíclica pontifica exemplificou com as questões relacionadas com a “responsabilidade social das empresas” e lembrou que o documento “elogia também actividades económicas como o comércio solidário, actividades mutualistas, o microcrédito ou a economia de comunhão”, “iniciativas que contrariam o tipo de economias baseadas apenas no lucro” e que lamentou “não sejam favorecidas pelo sistema jurídico e de gestão”. Também o ambiente e os recursos naturais foram destacados como outra área que merece pela primeira vez reflexão alargada numa encíclica papal. Sobre a ética na economia e nas finanças lembrou que éticas têm de ser “as pessoas que lá estão”. A propósito da autoridade política mundial desejada pelo Papa, lamentou que isso seja difícil de implementar até na Europa. “A ONU não corresponde a muitas das ânsias do nosso mundo globalizado”, lastimou. Recusando a “absolutização da técnica”, D. Carlos Azevedo explicou que Bento XVI rejeita que tudo o que é factível tecnicamente e economicamente útil possa ser sempre eticamente admissível. “Cria-se a confusão entre os fins e os meios”, justificou. Segundo o orador, “outras noções são ordenadas com insólita determinação e clareza como a defesa das organizações sindicais numa época em que não têm vida fácil”. “O papel do Estado e a proposta de uma subsidiariedade fiscal que permitiria aos cidadãos decidir sobre o fim dos seus impostos”, foram outras questões da encíclica destacadas. “O Papa nunca fala de capitalismo, mas está nas entrelinhas e convida a superá-lo, regressando à economia onde esteja presente a fraternidade”, referiu ainda. Apontando a centralidade da pessoa humana a salvaguardar nas intervenções em prol do desenvolvimento, considerou que “os organismos da Igreja têm de ser capazes de se abrir a novas soluções” e criticou as famílias que não formam tendo em conta todas as dimensões da pessoa humana, incluindo a espiritual. “A ética individualista não pode desentender-se da moral natural. O ser humano é uma unidade estruturada e social chamada à transcendência”, justificou, considerando que “os crentes são os que contribuem mais para a novidade da História”. D. Carlos Azevedo salientou que a encíclica reclama o “acesso ao trabalho para todos” e denuncia que “o aumento das desigualdades entre grupos sociais e dos índices da pobreza, tende não só a minar não só a coesão social – e por este caminho põe em risco a democracia –, mas tem também impacto negativo no plano económico com a progressiva corrosão das relações de confiança, credibilidade e respeito pelas regras, indispensáveis em qualquer convivência cívica”. Alertou também para o problema da ciência sem escrúpulos éticos, afirmando que “em nome da integralidade da pessoa humana é preciso dizer que a investigação científica à margem da pessoa não tem legitimidade ética para criar patentes de genoma humano como rentabilidade económica”. A terminar, evidenciou a incoerência entre a “valorização da vertente técnica” e o “vazio interior”, a “grande valorização dos meios” e a “atrofia dos fins”. “Nem angelismo, nem materialismo”, defendeu, mostrando que “o ser humano domina o universo material e cai no paradoxo de não se dominar a si mesmo” e criticando que o “humanismo materialista” tenha reduzido as pessoas a um número. Também o relativismo com a sua “tirania do indivíduo e das opiniões” foi alvo da crítica do orador. D. Carlos Azevedo disse que a encíclica lembra que “o mundo depende do sistema moral em que se baseia e sob este argumento a Doutrina Social da Igreja tem um contributo específico para dar”.