O Bispo Auxiliar de Lisboa começou por afirmar, perante uma assembleia manifestamente diminuta (sobretudo ao nível dos alunos do Curso de Património Cultural da UALG) composta por cerca de 30 pessoas, que a religião se serviu da arte como “comunicação da fé”, pois sublinhou que “a mensagem de fé não é apenas verbal”. “Na perspectiva católica a arte tem um papel mais importante porque é capaz de atingir a íntima realidade da pessoa na comunicação da fé”, considerou D. Carlos Azevedo, acrescentando que a arte “é uma exposição de fé, um suporte para a oração e um instrumento de transmissão da experiência ao lado dos textos”. O conferencista, que desaconselhou declaradamente a utilização do termo sacro para a arte religiosa, lembrou que “a sacralidade é o momento transitório da essência religiosa do ser humano”. “O termo sacro para a arte cristã é a mais banalizante das adjectivações. Sacros são os valores”, clarificou, frisando que “a arte pode ser (ou não) toda sacra quando está ao serviço do Cristianismo”. Feita esta ressalva inicial, o vogal da CECBCCS, esclareceu igualmente que, também ao nível da arte “no Cristianismo, a matéria não se opõe ao Espírito”. “Através da matéria pode-se ver o Espírito. A divindade contempla-se na matéria”, justificou D. Carlos Azevedo. Na sua intervenção garantiu que “é na forma de Jesus de Nazaré que se baseia o cânone estético cristão” e destacou as dimensões da “ harmonia da forma”, da “clareza”, da “luminosidade”, e do “esplendor” como fundamentais para a arte religiosa. “A linguagem da arte guarda o mistério transcendente”, considerou D. Carlos Azevedo, defendendo que ao avaliar os “produtos da arte cristã” é preciso “ter em conta a inculturação”. “E aqui houve muitos pecados [cometidos] que foram mortíferos e mortificantes”, lamentou. Entendendo que “a estética cristã é trabalho de transfiguração” do ser humano, “um processo progressivo e doloroso que nada retira ao humano”, explicou que “a arte cristã, através dos séculos, manifestou-se como catalisador simbólico do culto ritual”. D. Carlos Azevedo advertiu que “a arte cristã, se não diaconisa a festa celebrativa da salvação, não contribui para uma liturgia segundo o espírito de Cristo”. O Bispo Auxiliar de Lisboa justificou ainda que “o património cultural da Igreja serve para a promoção cultural e para a evangelização”, sendo os museus a “memória sensível da história da evangelização”. “Há uma visão própria do património por parte da Igreja que sublinha a dimensão espiritual, teológica e eclesiológica”, acrescentou. “Se conservarmos este património histórico-artístico é para transmitir a mensagem e tem de haver programas capazes de assegurar esse sentido eclesial pela compreensão do seu significado autêntico, originário e único”, considerou, defendendo a constituição de projectos culturais diocesanos que incluam as dimensões da inventariação, catalogação e fruição do património. “A arte eclesial há-de ser símbolo da transcendência daquilo que se vive espiritualmente”, desejou. Na sua conferência valorizou também a “ importância do lugar iconográfico que corresponde a cada imagem”, criticando “alguns arranjos de igrejas” que os “desordenam completamente”. D. Carlos Azevedo considerou também que “os bens culturais da Igreja servem de meio para um projecto pastoral”. “Hoje as pessoas em contacto com o património vivem alguma elevação espiritual”, observou. No processo de inventariação do património identificou um entrave. “A evolução dos inventários tem sido lenta porque se tem faltado a especialização. Não pode fazer um inventário uma pessoa só. O património avança muito mais se houver especialistas em cada área”, sustentou. Considerando que a “História da Arte, geralmente silencia, na abordagem da arte religiosa, o seu conteúdo específico”, destacou a importância de “manter viva a mensagem religiosa da arte e do património em geral”, “um campo fundamental de respeito para com o património”. “A valorização pastoral do património contribuirá para equilibrar as portas de acesso ao mistério de Deus”, afirmou. “Tudo isto exige uma atenção e um investimento maior para que possamos honrar-nos com o património do nosso tempo e deixarmos alguma coisa para o futuro”, concluiu assegurando haver mais produto artístico religioso relevante do que eventualmente se possa pensar.