Perante uma numerosa assembleia que encheu por completo a Catedral do Algarve, o Bispo diocesano lembrou que “Aquele que encarnou pelo Espírito Santo no seio de Maria e se fez homem, é o mesmo que foi anunciado pelos profetas; Aquele que percorreu as estradas da Palestina, proclamando a Boa-Nova do Reino; é o mesmo que por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado; é o mesmo que ressuscitou ao terceiro dia e está vivo e glorioso, à direita de Deus Pai”. Observando que “muitos definem o Cristianismo como a religião do Livro, equiparando-o a outras religiões”, o Bispo do Algarve objectou que os cristãos não seguem um Livro, mas uma Pessoa. “Celebrar o Natal é passar do Livro, da Palavra à Pessoa do verbo encarnado de Deus”, complementou, salientando que “há uma identificação plena entre a Palavra e a Pessoa”. Frisando que “Cristo não pode ser reduzido ou mesmo equiparado a um profeta que falou”, D. Manuel Quintas explicou que Jesus “é a própria Palavra de Deus encarnada, o «rosto visível» da Palavra”. “Ele é Alguém – uma Pessoa – que é preciso escutar e acolher na fé e no amor, e seguir através da identificação e da actualização, hoje, dos seus gestos e atitudes”, acrescentou. Lembrando que “quando deixamos que esta Palavra, que é a própria pessoa viva de Jesus, se transforme na nossa própria vida” e “quando deixamos que os nossos gestos e atitudes sejam os mesmos de Jesus”, o Bispo diocesano considerou que o Natal acontece “todos os dias”. D. Manuel Quintas sublinhou mesmo que estas referências sobre a identidade entre a Palavra de Deus e o próprio Deus, podem ajudar a “iluminar” o modo como os cristãos se devem situar no novo ano, caracterizado não só como “o ano de todas as eleições, mas também, e infelizmente se tal vier a verificar-se, como o ano de todas as crises”. Relativamente à primeira ocorrência formulou votos “que as muitas palavras que vão ser proferidas e escritas, não entrem no rol daquelas que o «vento» leva, mas, iluminadas pelo testemunho, pela verdade e autenticidade desta Palavra de Deus Encarnada, tenham por detrás o rosto e a pessoa daquele que as profere, de compromisso de honra no presente, de garantia para o futuro, de credibilidade no cargo em que vai ser investido, de competência e isenção no serviço que será chamado a prestar”. A propósito e relativamente ao “ano de todas as crises”, recordou a sua última mensagem natalícia dirigida a todos os diocesanos do Algarve e a quantos passaram na região a quadra festiva. “Não podemos permitir que a insegurança e a instabilidade geradas pela crise financeira, económica e social nos tornem surdos ao clamor dos pobres; nos ceguem ou nos induzam a desviar o olhar dos mais necessitados; nos fechem o coração diante do sofrimento dos outros; venha a retrair ou mesmo anular a partilha solidária com quem tem menos do que nós e sem possibilidade de satisfazer necessidades humanas elementares”, voltou a exortar, relembrando que “os pobres e necessitados são sempre os mais vulneráveis e os mais atingidos nestas circunstâncias” de “aumento do desemprego, redução do horário de trabalho, endividamento, impossibilidade de satisfazer encargos pessoais e familiares, dependência permanente de medicamentos de elevado custo, pensões baixas e muito inferiores a uma justa retribuição por uma vida de trabalho”. Voltando a exortar os cristãos algarvios, bem como todas as Instituições sociais diocesanas ou civis a “unir ainda mais os seus esforços, para ir ao encontro e minorar o sofrimento de quantos passam ou começam a passar necessidades”, o Bispo do Algarve desejou que a celebração da quadra natalícia leve a todos a “destruir os muros que, porventura e perante as ameaças da crise”, tenham já construído à sua volta. O Prelado pediu ainda na Missa Estacional de Natal que “o acolhimento na fé e no amor” do Deus feito Menino, mobilize a todos a “descobri-l’O no rosto e na vida de quantos reclamam a partilha solidária e fraterna”.