Falando aos casais algarvios e espanhóis no 12º Encontro Luso-Espanhol das Equipas de Nossa Senhora do Algarve e de Huelva, que teve lugar na Escola Secundária de Tavira, o Bispo timorense enumerou as muitas “sombras” que presentemente atormentam a Família. O orador alertou para “uma cultura provisória que dá prioridade ao que é efémero sobre as realidades perenes sem a marca da eternidade”, que “propõe que se viva ao sabor do imediato e do momento, subalternizando as opções definitivas e os valores duradouros”. D. Ximenes Belo criticou a cultura actual “do prazer” que considerou orientar para a “satisfação imediata e egoísta dos próprios anseios e desejos”, “uma cultura do consumo e do bem-estar material” que cria “ilusões e necessidades inúteis”, “ao seduzir os homens com o perigo dos bens perecíveis, ao potenciar o reinado do ter sobre o ser” que “escraviza o homem e relativiza a busca da identidade espiritual”. “É uma cultura da facilidade que ensina a evitar tudo o que exige esforço, o sofrimento e a luta, que não produz pessoas capazes de lutar por desafios exigentes e de realizar projectos que exijam esforço, fidelidade, compromisso e sacrifício”, observou o Bispo Emérito de Díli, classificando-a como “a cultura do indivíduo porque sublima fortemente os direitos e deveres do indivíduo, mas anula a dimensão da comunhão e fere de morte a Família como comunidade de vida em comunhão” e como “cultura mediatizada” porque “submetida aos meios de comunicação social”. A juntar a esta análise, que salientou retratar sobretudo a sociedade ocidental, o orador acrescentou ainda outras problemáticas que atormentam igualmente nos dias de hoje o contexto familiar. O terrorismo, a violência, incluindo a doméstica, a droga, o egoísmo e o hedonismo foram alguns dos aspectos negativos enumerados. Não obstante reconhecer que o contexto oriental é diferente, D. Ximenes Belo advertiu para a existência também de aspectos negativos que martirizam as famílias do chamado terceiro mundo, como a pobreza ou as doenças como a malária, a tuberculose, ou a SIDA, entre outros. Apesar deste quadro pouco animador, D. Ximenes Belo exortou as famílias a não desanimar. “O Espírito Santo dá-nos forças para sermos o sal da terra e a luz do mundo. Deus colocou-nos no mundo como Família para representar o amor, a esperança e lutar contra o mal. Não vamos ter medo. Vamos encará-lo de frente, estudá-lo e procurar ajudar a melhorar a situação da nossa Família, do mundo e da Igreja”, complementou. No entanto, o Prelado fez questão de identificar primeiramente os aspectos positivos que considerou como as “luzes” que se opõem às “sombras” que enunciaria mais tarde. “Muito positivo é a vossa presença aqui hoje para reflectirdes sobre a vossa realidade, vocação e missão”, começou por afirmar aos muitos casais presentes. D. Ximenes Belo destacou nos dias de hoje o testemunho positivo dos “casais que se mantêm fiéis à sua vocação e vivem alegres a sua fidelidade”. “Há uma maior responsabilidade dos noivos na sua preparação e há mais abertura no casal, respeito mútuo e a consciência de igualdade entre os sexos, melhorando assim as relações interpessoais”, constatou o Bispo timorense, reconhecendo igualmente “uma maior responsabilidade na educação dos filhos, feita em clima de diálogo, democracia e tolerância, o que leva os filhos a serem mais espontâneos”, bem como uma “maior abertura dos casais entre si”, “uma nova sensibilidade para participar em cursos e em encontros”, uma “consciência da necessidade de uma autêntica espiritualidade”. “Estes são os aspectos positivos e damos graças a Deus por isso”, reconheceu. A intervenção do Bispo Emérito de Díli começou com a referência ao que o magistério tem dito e sobretudo escrito sobre esta temática. “O tema que vou trazer não é uma doutrina nova, é a doutrina da Igreja. São as ideias da moral cristã sobre a Família”, clarificou de início D. Ximenes Belo. “Todos nós aqui presentes não caímos do céu, como a chuva, nem surgimos da terra como as ervas do campo. Cada um de nós, quando nasceu, teve uma Família que o acolheu e nessa Família aprendeu a dar os primeiros passos”, começou por referir, lembrando que “é na Família que tecemos os primeiros laços das relações que nos ajudam a desenvolver as nossas capacidades pessoais e sociais”. “É na Família que também tomamos consciência da nossa dignidade e aprendemos os valores. É na Família que descobrimos a nossa vocação de amor e de comunhão”, sublinhou o orador. Referindo-se à Carta Pastoral dos Bispos Portugueses de 2004, D. Ximenes Belo afirmou que “a Família é importante e central em relação à pessoa”. “No berço da vida e do amor, o homem nasce e cresce. Quando nasce uma criança, à sociedade é oferecido o dom de uma nova pessoa que é chamada, desde o seu íntimo, à comunidade com outros e à doação aos outros”, frisou, destacando que “a Família é importante para a sociedade”. “A Família é a comunidade natural que experimenta a sociabilidade humana e contribui de modo único e insubstituível para o bem da sociedade. A comunidade familiar nasce da comunhão de pessoas. A comunhão vive e respeita a relação pessoal entre o eu e o tu. A comunidade, pelo contrário, supera este esquema na direcção de uma sociedade de um nós. A Família é a comunidade de pessoas que foi a primeira sociedade humana”, destacou. Lembrando que “a Igreja tem dedicado, desde os tempos do Concílio Vaticano II, especial atenção à Família”, D. Ximenes Belo salientou a importância da reflexão que a reunião magna dos Bispos dedicou a esta temática através da constituição Gaudium et Spes. O orador referiu-se ainda às intervenções do Papa Paulo VI sobre o assunto e, de modo especial, à sua encíclica Humanae Vitae sobre o tema, que classificou “de valor inestimável”, na sua afirmação do “amor conjugal como plenamente humano, sensível, espiritual, total, fiel, exclusivo e fecundo”. A criação por aquele Papa da Comissão Pontifícia para a Família com o objectivo de coordenar e dinamizar a teologia e a pastoral familiar foi ainda outro dos aspectos sublinhados pelo Bispo timorense. Também a exortação apostólica do Papa João Paulo II Familiaris Consortio mereceu a referência do orador, documento que aconselhou as famílias presentes a adquirir. “Neste documento as famílias podem encontrar luzes de apoio para a sua vida cristã e apostólica”, disse. D. Ximenes Belo lembrou ainda as publicações do Conselho Pontifício Justiça e Paz na linha da doutrina social da Igreja, bem como a proclamação pelas Nações Unidas em 1994 do Ano Internacional da Família. “Deste modo, todos os países do mundo são convidados a sentirem-se empenhados na reflexão constante do tema”, observou D. Ximenes Belo, destacando a Família como “capacidade e responsabilidade no mundo em transformação”. O Prelado abordou também a visão cristã sobre a Família. Neste contexto, o orador lembrou que “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”. “Se Deus criou o homem à sua imagem e criou a mulher à sua imagem, também criou a Família à sua imagem e semelhança. A Família no mundo é o espelho da Santíssima Trindade. Temos Pai, Filho e Espírito Santo e na Família temos o pai, a mãe e os filhos, a Trindade na Terra”, comparou. A terminar, D. Ximenes Belo exortou os cristãos “abrir os olhos às famílias mais pobres”. “Aí está a nossa missão para construirmos a unidade e a comunhão com as famílias em dificuldade, com as famílias separadas, com as famílias dos divorciados e sobretudo hoje com as famílias dos imigrantes que vêm dos países de Leste, do Brasil ou de África, à procura do pão e de uma sociedade melhor. Se vos abris a receber essas famílias sereis realmente apóstolos”, afirmou. Num tempo de questões, que se seguiu à sua intervenção sobre a temática ‘Família, torna-te aquilo que és’, D. Ximenes Belo aconselhou as famílias ocidentais a “reforçar a sua fé na existência de Deus, uno e trino, a reforçar o seu amor no Deus-amor”. “Se Deus é amor, a Família foi posta no mundo para ser essa comunhão e esse sacramento do amor”, afirmou, defendendo que “a Igreja e a Família vão tornar-se como ‘o resto de Israel’ neste Ocidente que está a secularizar-se”. O Bispo timorense incitou então à coragem das famílias cristãs para continuarem a ter “fé e amor”, “estudarem e apresentarem os valores da Família contrabalançando com as culturas de morte e da sua destruição”. “Um dos segredos é o diálogo no interior da Família, diante de Deus, com fé”, apontou D. Ximenes Belo. Reconhecendo que “as crises acontecem”, o Bispo timorense defendeu a necessidade da reconciliação. “Os divórcios acontecem, mas a responsabilidade da Igreja é acompanhar”, afirmou, defendendo que a prevenção como a melhor solução. “Para que não haja mais esta possibilidade de divisão é preciso começarmos cedo a educação da juventude. Quando se fala do serviço do casal à Igreja, um dos campos de trabalho é também dedicação à juventude”, complementou. O Bispo Emérito de Timor pediu ainda, à semelhança do que aconteceu com Timor, que a solidariedade internacional, particularmente das famílias portuguesas, continue para com os povos do Paquistão, Bangladesh e Darfur. Mais tarde, numa entrevista conjunta, concedida à FOLHA DO DOMINGO, ao Jornal do Sotavento e à Rádio Gilão, D. Ximenes Belo defendeu a necessidade de se procurar um amor oblativo no seio da Família. “Procuremos morrer para nós próprios para fazer viver o outro”, apelou, consciente da dificuldade do seu apelo. Por outro lado, o Bispo Emérito de Timor, destacando o trabalho que a Igreja tem feito no campo da pastoral familiar, sobretudo na preparação dos jovens para o matrimónio, considerou que “a Família tem de ser uma comunidade de comunhão, de vida e de amor”. “Esta é a primeira característica da identidade da Família”, observou. Às famílias algarvias pediu “que sejam fiéis à sua vocação”. Mais fotos disponíveis em ‘Galeria de Imagens’.