FOLHA DO DOMINGO – Que análise e avaliação fazes do teu percurso vocacional? Diácono António de Freitas – Olhar para trás significa olhar para 14 anos, porque as primeiras interpelações surgiram aos 12/13 anos. O meu percurso não foi linear porque acabei por sair do Seminário. Fui caminhando e discernindo e, tanto nos formadores como nos colegas, vi sempre – e agora consigo vê-lo ainda melhor – instrumentos de Deus que me ajudaram a seguir o caminho a que Deus me chamava. E sobretudo olho para trás e sei reconhecer a graça e o perdão de Deus. Vejo que, pelos meus erros, faltas, fugas e indecisões, nada disto teria sido possível se não fosse dom e chamamento de Deus. Costumo olhar para o ano decisivo da minha vida – o ano em que saí do Seminário – e vejo-o como o ano em que Deus se manifestou de modo claro. Ou então, se calhar, fui eu que percebi de modo claro as manifestações de Deus. Com os medos e dúvidas que tinha aquele foi quase um ano de fuga e ao mesmo tempo de discernimento. Achava que não teria as capacidades para o sacerdócio e percebi, através da minha família, do acolhimento do meu pároco e do trabalho que me foi pedido na paróquia, e, a nível diocesano, na Pastoral Juvenil, que Deus se manifestava através disso. E percebo que a misericórdia e o amor que Deus nos tem manifestou-se sempre ao longo destes anos todos para comigo. A forma, ainda que limitada e imperfeita, que tenho de responder ao amor de Deus é entregar minha vida e dar-me. Por isso escolhi como lema do meu ministério “Tu amas-me?”. E se eu respondo sim implica o outro imperativo: “Apascenta as minhas ovelhas”. Resolveste fazer uma reflexão nesse ano de paragem? O quinto ano foi para mim o ano mais complicado do Seminário, não só por questões institucionais, mas por ser um ano em que eu tinha de decidir começar o estágio pastoral e integrar-me na vida ministerial. Quando me deparei com o facto de ter de tomar uma decisão definitiva, aquele momento teve impacto. Comecei a pensar muito no que seria a minha vida e havia muita coisa por decidir. Tive medo e achei que o que me era pedido era muito exigente e que eu não seria capaz de responder positivamente. Tudo isso fez com que eu saísse. Mas foi também um ano decisivo por várias razões. Primeiro porque continuou a haver da comunidade cristã a exigência de que me entregasse noutras coisas. Depois o acolhimento da parte da minha família foi fora do comum. Lembro-me que nesse ano os meus pais, embora espantados e certamente a sofrer um pouco nunca o manifestaram e nunca me fizeram crer que os tinha decepcionado. Respeitaram sempre a minha decisão e da parte do meu pároco o mesmo. Nunca houve pressão. Percebi nesse ano que afinal Deus continuava a chamar-me apesar de eu fugir. Continuava a amar-me e chamava-me a mais. Percebi que a Igreja precisava de gente que se entregasse e aprendi que Deus não chama os capacitados, mas capacita os chamados. Decidi entregar-me com as minhas limitações e falhas e com aquilo que me faz ser pequeno diante de tão grande mistério. Esse ano foi essencial porque dissipei muitas dúvidas que, se assim não fosse, continuariam a existir. Reingressei com medos em relação às minhas capacidades, mas já não com dúvidas acerca do que Deus queria de mim. Esses sinais foram então acontecimentos-chave que te levaram a tomar a decisão? Sim. Eu sempre entendi esse ano como um ano de graça, um ano em que Deus se haveria de manifestar de modo a que eu percebesse o que era chamado a ser na vida. Portanto todos estes sinais, acontecimentos e pessoas deram-me a perceber que Deus continuava a chamar-me. Entendi que tinha vindo ao mundo para isto. Entendes que este é o momento certo para seres ordenado? Essa é uma pergunta à qual é difícil responder porque o tempo do homem nunca é o tempo de Deus. Por vezes somos precipitados em relação ao tempo de Deus e queremos adiantar as coisas. Por aquilo que foi percebendo pelos responsáveis pela minha formação acho que este é o tempo. Não devemos pensar que deveria ter sido mais cedo ou mais tarde. O tempo de Deus manifesta-se quando tem de ser e eu quero olhar para este tempo como o tempo em que Deus, respeitando a minha liberdade, me quer para si. Portanto considero este o tempo ideal. Sentiste sempre o apoio da tua família ao longo de todo o percurso? Sim e de vários modos. No início foi uma surpresa para os meus pais. Não estavam à espera que isto acontecesse. E aí o seu apoio foi o terem respeitado. Naturalmente que lhes custou ver um filho, o mais novo, sair de casa aos 14 anos. Depois, mais tarde, apoiaram-me também integrando-se na comunidade cristã e respeitaram sempre as minhas opções. E sei também que os meus pais rezam por mim. Tudo isso para mim é estímulo. No ano em que saí do Seminário saboreei bem isso. Como pensas exercer o ministério? Sentes-te vocacionado para alguma área de modo mais particular? Há uma coisa que me assusta muito no ministério: cair num activismo desregrado. Há, por outro lado, um aspecto do ministério do sacerdócio a que eu dou a maior importância: a vida espiritual. Isso é uma das coisas a que eu quero dar sempre prioridade porque sinto que daí vem a fonte de um ministério equilibrado e em permanente doação. Depois, na minha relação com os outros, há um aspecto que eu gosto muito de trabalhar que é a juventude. Apaixonei-me por esta área desde que entrei no CNE e, mais tarde, através da Pastoral Juvenil. Sinto que é uma necessidade e um desafio permanente que dá gosto. É algo prioritário na Igreja de hoje. Mais do que debitar doutrina é importante podermos escutar e estar com os jovens. É uma necessidade à qual eu gostava muito de me dedicar. Depois gostava também de poder ter tempo para o sacramento da Reconciliação. Sinto que o mundo e os cristãos de hoje têm necessidade, mas também medo e desconfiança desse sacramento. Gostava de dar prioridade na minha vida como presbítero a procurar levar as pessoas a reconciliarem-se com Deus, consigo e com os outros. E em relação àqueles que são os três pilares da acção da Igreja – pastoral sócio-caritativa, litúrgica e profética – qual a área em que te sentes melhor? Na profética, muito por causa de uma experiência que tive no estágio pastoral e mesmo antes, na minha paróquia, quando estive fora do Seminário, e que foi a catequese de adultos. É uma das coisas mais gratificantes e que mais gosto me dá de fazer. Percebemos como os adultos, caminham na fé e andam sedentos dessa formação. Essas experiências que tiveste no estágio pastoral e depois, em continuidade, o trabalho desenvolvido no Seminário, foram determinantes para o exercício que vais fazer do teu ministério? Foram porque, tanto em Albufeira como em Portimão e depois no Seminário, vejo que a minha acção partia e orientava-se para os dois aspectos que considero os dois pilares da vida tanto do diácono como do presbítero: a Palavra e a Eucaristia. Se a nossa vida não partir daqui e não se orientar para aqui, o ministério transforma-se em profissão. De servos de Deus transformamo-nos em administradores ou funcionários. A vivência do ministério passaria a ser um fardo em vez de uma alegria. Estás preparado para o dia 31? Que sentimento é que te invade? Como humanos que somos temos tendência a considerar que nunca estamos preparados. Se calhar, para o momento que vou viver, Deus preparou-me o suficiente para o poder receber. Olhando para mim, se calhar acho que ainda me faltava cultivar tanta coisa e que estou aquém do que sou chamado a ser. Mas se é agora que Deus me chama, se a Igreja olha para mim e entende que se reúnem as condições mínimas para que eu possa exercer o ministério, sinto-me minimamente preparado para me entregar. Não sei se estarei bem preparado. A verdadeira preparação é poder chegar a este ponto e ter a capacidade de dizer que me confio totalmente a Deus, apesar da minha fraqueza. De que me adiantaria ter muitas capacidades se depois, na vida ministerial, não fosse capaz de me confiar totalmente a Deus? Onde vais trabalhar no próximo ano? Não sei. Da parte do senhor Bispo ainda não me foi dada nenhuma orientação, nem fui chamado a falar do meu futuro pastoral. A minha nomeação para prefeito do Seminário é sem data limite, portanto, pelos dados que tenho, tudo indica que continuarei a ser formador do Seminário. Que mensagem deixarias dirigida àqueles jovens que poderão estar neste momento a sentir alguma interpelação vocacional no sentido de se questionarem: “porque não eu?” Pegaste no aspecto que eu ia sublinhar. A nossa primeira tendência é dizer “Eu não!”. “Eu não tenho capacidades, eu não sirvo para esta vocação, Deus não me chama, os outros não me aceitam assim”. Aquilo que eu proponho é que vejam a questão de outra forma: “E porque não eu?”. Olhamos para nós e vemo-nos sempre muito mais pequenos, limitados e sem capacidades e vemos naqueles que já são padres «super-heróis». E não são. Já passaram por tudo o que qualquer jovem passa. Interroguem-se “E porque não eu?” diante de Deus e não diante de outros porque Deus consegue dissipar as dúvidas que há dentro de nós. Não olhem para a vida consagrada como uma vida em que temos de deixar coisas. Em qualquer opção da vida deixamos coisas. Entregar-se é ocupar a nossa vida com coisas que valem a pena. Não é perder coisas, mas ganhar coisas que permanecem, que dão sentido à vida. Não olhemos tanto para a nossa falta de capacidade, mas para aquilo que Deus quer fazer em nós.