Tendo como moderador Simão Daniel, da Sociedade Bíblica de Portugal, a iniciativa que se realizou precisamente no dia de São Bento, padroeiro da Europa, contou com as intervenções de Isilda Gomes, governadora civil do Distrito de Faro, e de José Eduardo Franco, especialista em História Moderna e Contemporânea e História das Civilizações. A governadora civil, que reconheceu não ter preparado a intervenção, apresentou o que disse ser o resultado de uma reflexão pessoal que muitas vezes ocupa o seu pensamento. Isilda Gomes lançou à assembleia várias interrogações como pistas para uma reflexão mais aprofundada, começando por questionar “qual o papel da Bíblia, da Palavra de Deus, na nossa vida quotidiana?”, lembrando que “quem faz a sociedade somos todos nós e cada um de nós”. “Muitas vezes olhamos para a Bíblia como um livro com mensagens muito distantes, escritas há muitos anos. Mas afinal o que é que isso nos diz hoje? É que a nossa sociedade tem de ser baseada em valores. E onde é que vamos colher esses valores? À Bíblia, obviamente”, observou, questionando o papel de cada um na sociedade, à luz da Bíblia, e a sua contribuição para a construção de uma sociedade com valores. A conferencista prosseguiu interpelando a assistência. “Há uma interrogação que se me coloca diariamente: Sou política, católica e praticante. De que forma é que tudo isto se cruza? Qual o nosso contributo para a construção de uma sociedade que nos foi legada?”, questionou, lembrando que “é com católicos na política que, se calhar, se pode mudar alguma coisa”. Isilda Gomes, que valorizou a leitura da Bíblia em grupo, considerando que “a Bíblia não é para ser lida a solo, mas é para ser falada e conversada”, referiu-se à dimensão do testemunho cristão. “Será que, na nossa vida, damos exemplo bíblico no dia-a-dia?”, interrogou, argumentando que o testemunho de vida dos cristãos contradiz um pouco aquilo que professam. José Eduardo Franco referiu-se à importância da Bíblia a partir dos primeiros séculos do Cristianismo na configuração progressiva de uma nova identidade que emerge a partir do império romano e vai moldando o continente europeu. “É a partir da Bíblia que se vai construindo uma civilização nova de matriz cristã”, lembrou. O conferencista, que recordou que “a estruturação do tempo foi feita a partir de Cristo”, referiu-se ao “papel determinante” das ordens religiosas na ordenação do tempo, sublinhando “a importância da Bíblia na configuração de uma nova temporalidade: a temporalidade cristã”. José Eduardo Franco garantiu também que “os princípios judeo-cristãos da Bíblia influenciaram a construção progressiva de um novo quadro ético que vai influenciar a proclamação dos Direitos Humanos”. Referiu-se igualmente à influencia da Bíblia no conceito das nacionalidades europeias e no conceito de universalidade. A este nível lembrou que “Portugal abriu a Europa ao mundo, através dos descobrimentos (proto-globalização), procurando também cumprir o mandato bíblico de universalizar o Cristianismo”, assegurando assim que “o processo de globalização tem na sua base um objectivo de carácter religioso e bíblico”. Segundo o conferencista, “a Bíblia tem um papel central na fundamentação teológica das nações europeias”. “A partir do século XVI e XVII as nações europeias procuraram ter por paradigma a Bíblia para encontrar fundamento teológico neste desígnio de afirmar-se como povo com papel importante a desempenhar na história”, explicou, acrescentando que “uma das dimensões da mitificação das nações tinha por base um acontecimento primordial de inspiração divina e também o modelo do povo eleito da Bíblia” e que “todas as nações que se criam e desenvolvem no século XVI desejam criar um império marcante e importante no quadro da história universal, desejo que tem fundamentação bíblica”. Eduardo Franco explicou que as “nações desenvolvem uma dinâmica universalista que envolve o desejo de fazer chegar e levar a fé monoteísta e o ideário cristão a todos os povos, congregando esses povos e incluindo-os todos na mesma bênção divina e consagração a um mesmo Evangelho que permita reunir todos os homens à volta de um só pastor”. Fotos de “A Bíblia em Festa” na Galeria de Imagens