As conferencistas foram ainda coincidentes na apresentação de testemunhos que evidenciaram a mudança de comportamento e de estimulação e acolhimento à doença e ao seu tratamento, resultante de alguns contactos mais humanos com os pacientes. Fernanda Nascimento, médica do Serviço de Pneumologia do Hospital de Faro e membro do Secretariado da Pastoral da Saúde da Diocese do Algarve começou por salientar a importância da formação contínua pós-graduada no desempenho e competência da sua área profissional. No entanto, destacou que “o grande desafio” com que o médico se depara “não é executar melhor determinada técnica ou ser o melhor especialista em determinada matéria”, mas “reside no facto de ter de cuidar de vidas”. “Vidas que são únicas e que em mim depositam a sua confiança e que se entregam à minha consciência”, complementou. Aquela técnica apresentou o seu compromisso para com os doentes que assiste. “Para além de médica, sou cristã e isso exige de mim, além da competência técnica e profissional, uma dedicação e amor ao próximo que se convertam num verdadeiro testemunho cristão. É esta a minha missão: evangelizar em todos os meios em que me movimento, mas especificamente naquele que é o da minha profissão”, afirmou. A sua intervenção carregou-se de emoção quando testemunhou ter percebido “o rosto de Cristo” em determinado paciente que tratou, confessando que a partir daí tenta sempre fazer o esforço dessa percepção. Mais adiante, uma outra técnica, mas da área de enfermagem, testemunharia que é possível perceber que os doentes, por vezes, conseguem «ver» Jesus no profissional que os trata. Concluindo com uma “chamada de atenção acerca das grandes responsabilidades éticas” do médico, Fernanda Nascimento considerou que “o contínuo progresso da medicina e das ciências biomédicas exigem uma absoluta e rigorosa formação ética e também religiosa”. “A intervenção do médico cristão não se pode limitar a esta intervenção individual-profissional. Temos de ir mais além. Deve estender-se ao plano sócio-politico tendo intervenção nas várias estruturas institucionais e tecnológicas por forma a defender os interesses humano-cristãos que levem a uma maior humanização da medicina”, afirmou, considerando que “a primeira exigência do médico cristão é aquela que deriva do seu encontro com Cristo: o amor ao próximo, não já como mandamento mas como uma necessidade”. Mércia Vargas, voluntária do Hospital de Faro e membro também do Secretariado Diocesano da Pastoral da Saúde (SDPS), enquadrou a sua intervenção no âmbito da sua actuação como voluntária católica integrada naquele sector da pastoral da Igreja. Começando por explicar que “voluntário é o cidadão que doa o seu tempo, trabalho e talento de maneira espontânea e não remunerada para causas de interesse social e comunitário”, Mércia Vargas esclareceu que a sua função é “contribuir para melhorar a qualidade de vida da comunidade”. “Trabalho voluntário é toda a actividade desempenhada no uso e gozo da autonomia do prestador do serviço ou trabalho sem recebimento de qualquer contraprestação”, complementou, defendendo a profissionalização e profissionalismo daqueles colaboradores. Mércia Vargas lembrou os direitos e deveres inerentes ao desempenho daquela missão, sublinhando que o voluntário deve “respeitar a vida privada e a dignidade da pessoa; respeitar as convicções ideológicas, religiosas e culturais; guardar sigilo sobre assuntos confidenciais; actuar de forma gratuita e interessada sem esperar contrapartidas nem compensações patrimoniais; e garantir a regularidade do exercício do trabalho voluntário”. Testemunhando que no Hospital de Faro “há muitos irmãos sem a visita dos familiares, por estarem longe”, frisou que “o voluntário hospitalar deve ser mensageiro de esperança e esperança equivale a fé” e prosseguiu apontando que “o voluntário deve ser responsável”. “Quantas vezes, depois do trabalho, estou desejando chegar a casa. Mas se me comprometi a doar aquelas horas não me sinto bem se não o fizer e podem querer que é nesses dias que me deparo com situações em que sinto a presença do Senhor”, testemunhou, salvaguardando que “o doente precisa de companhia também no seu domicílio”. Aquela voluntária lembrou ainda que “quem realiza caridade em nome da Igreja nunca procurará impor aos outros a fé da Igreja”, pois “sabe que o amor, na sua pureza e gratuidade, é o melhor testemunho do Deus no qual acreditamos e pelo qual somos impelidos a amar”. “Se amo realmente a Deus como é que me relaciono com os meus semelhantes? O verdadeiro culto que agrada a Deus é a ajuda e o cuidado com o irmão”, concluiu. Brígida Tomé, enfermeira do Serviço de Oncologia do Hospital de Faro, igualmente membro do SDPS, subscreveu a ideia de que a componente relacional é igualmente um aspecto muito importante inerente à enfermagem. “Quando cuido de uma pessoa olho-a em todas as dimensões: física, psicológica, social, emocional e espiritual. É muito importante valorizar também estas duas últimas porque vão influenciar muito a forma como a pessoa pode ultrapassar ou viver com a doença”, salientou, assegurando que, “por vezes, a medicação não faz tudo”. Como exemplo disso mesmo relatou experiências com doentes que cujos índices de tensão não baixavam “com qualquer tipo de medicação” e obtiveram resultados surpreendentes com recurso à oração ou à música. “Quando as pessoas aprofundam a sua vida espiritual conseguem viver o momento de doença e de confrontação com a morte de uma forma mais serena, digna, feliz e até ensinar muito os que os rodeiam”, concluiu. A irmã Andreia Berta, da comunidade de Faro do Instituto Missionário Filhas de São Paulo (Paulinas), na condição de doente que recentemente viveu o tratamento de um cancro no pulmão, testemunhou a confiança, esperança e atitude posteriormente à confrontação com o diagnóstico. “Senti que a minha doença foi um espaço de tempo para me encontrar mais de perto com Cristo”, afirmou, garantindo que “a força da oração” e o apoio da sua comunidade bem como de toda a diocese foi “muito importante”. Mais fotos, brevemente na Galeria de Imagens