No estudo realizado por três investigadores a trabalhar no Algarve – João Paulo Pestana, psicólogo da Associação Oncológica do Algarve (AOA); David Estevens, director clínico do Serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, em Portimão; e Joseph Conboy, docente no INUAF – Instituto Superior Dom Afonso III, em Loulé –, foi verificado que, “quanto mais elevados os índices de espiritualidade do doente, maior era a sua qualidade de vida geral, nomeadamente ao nível do seu bem-estar físico, funcional e emocional”. Os autores desta investigação, que teve por base a análise de 23 doentes em tratamento de quimioterapia no Serviço de Oncologia Médica do Hospital Distrital de Faro e na Associação Oncológica do Algarve, referem que os resultados encontrados foram “muito interessantes” e algumas das conclusões seguem a mesma linha de outros trabalhos internacionais já publicados que se debruçaram sobre esta temática, “tendo sido estabelecidas correlações estatisticamente significativas entre espiritualidade (bem-estar espiritual) e melhor qualidade de vida”. Na prática, e de uma maneira geral, garantem os investigadores, “os doentes que apresentavam índices de espiritualidade mais elevados sentiam menos os efeitos secundários do tratamento, como os enjoos e as náuseas, apresentavam menos dores, dormiam melhor, sentiam-se menos cansados e tinham maior prazer nas suas actividades diárias”. “Como é fácil de perceber, estes resultados podem ter implicações clínicas importantes, mas também, potencialmente, económicas, uma vez que estes doentes necessitaram de menos actos médicos para combater alguns dos efeitos secundários que normalmente acompanham o tratamento de quimioterapia”, constatam os investigadores. Ao longo do artigo publicado na ‘Cons-Ciências’, os autores tentam também, embora de forma resumida, explicar de que forma uma dimensão não física ou não material, como a espiritualidade, pode influenciar uma dimensão física ou material, como é o caso do corpo humano. As diferenças conceptuais entre religiosidade e espiritualidade são também abordadas, uma vez que cientificamente e a nível de investigação são considerados constructos independentes. Por fim, são sugeridas algumas medidas consideradas “importantes” e que poderiam ser implementadas no sentido de “ajudarem o doente a desenvolver o seu bem-estar espiritual”, nomeadamente através da “busca de sentido para a sua vida e para as actividades diárias que muitas vezes tomamos como garantidas e desprovidas de significância”, mas também para a própria doença. A este nível, os autores consideram que “o apoio psicológico e os grupos de ajuda mútua são importantíssimos e deveriam ser muito mais desenvolvidos e apoiados”. João Paulo Pestana, David Estevens, e Joseph Conboy salientam ainda que, “apesar de internacionalmente existir um interesse crescente e uma vasta investigação publicada sobre o papel da religiosidade e da espiritualidade ao nível da saúde, em Portugal pouca importância tem sido dada a esta questão, isto apesar de mais de 90 por dos portugueses professarem algum tipo de orientação religiosa”. “Por isso mesmo, este é um trabalho que consideramos ser pioneiro entre nós, inclusive pelo facto da população estudada ser constituída unicamente por doentes com cancro”, acrescentam. Actualmente, em parceria com o INUAF, a AOA está a trabalhar com o intuito de, brevemente, iniciar nova investigação, desta vez com o objectivo de “caracterizar clínica, social e demograficamente, a população de doentes que actualmente realizam tratamento de radioterapia na Unidade de Radioterapia do Algarve”. “Este tipo de dados parece–nos fundamental para que se possam delinear as estratégias de intervenção que mais beneficiem esta população”, afirma.

Ver também, na secção opinião, o artigo da autoria da Comissão da Pastoral da Saúde e da Coordenação das Capelanias Hospitalares da Diocese do Algarve