Ao concluir o nº 6 da recente Exortação Apostólica sobre a Eucaristia, o Papa faz uma afirmação que merece ser reflectida: “Quanto mais viva for a fé eucarística no povo de Deus, tanto mais profunda será a sua participação na vida eclesial”. Esta premissa, coloca-nos várias questões, a que não podemos fugir: Como avivar a fé do povo de Deus na Eucaristia, quando em tantas comunidades a Igreja está quase sempre fechada e apenas abre ao Domingo, durante pouco mais de uma hora para a missa dominical? Não será possível encontrar em cada comunidade alguns voluntários que assegurem a abertura diária da Igreja, nem que seja apenas numa parte dia, para que todos se possam aproximar do sacrário? Como alimentar a fé do povo de Deus na Eucaristia, quando em muitas comunidades apenas se celebra a Eucaristia de quinze em quinze dias e à vezes apenas uma vez por mês? Como centrar a fé do povo de Deus na Eucaristia, quando mesmo essas poucas Eucaristias são celebradas apressadamente, porque o sacerdote tem de “ir pregar a outra freguesia”? Como educar a fé do povo de Deus na Eucaristia, quando não nos detemos em oração diante da reserva eucarística, quando não rezamos junto ao sacrário, quando não ajoelhamos diante do sacrário, quando se passam anos sem que se realizem actos de adoração diante do Santíssimo Sacramento? Na nossa Diocese, o Seminário de São José e a Pastoral das Vocações, propuseram-nos há uns dois ou três anos um Lausperene que percorre todo o Algarve durante quinze dias a propósito da oração pelas vocações. Em boa hora o fizeram, pois foi a maneira de muitas comunidades cristãs se deterem por algum tempo junto do Santíssimo Sacramento solenemente exposto. Mas é pouco, é preciso mais, muito mais! Pelo menos uma vez por mês, cada comunidade cristã se deveria reunir em adoração junto da Santíssima Eucaristia, e aí permanecer e saborear esse momento de intimidade com o Senhor, em adoração ao Mistério da fé e na escuta orante da Palavra de Deus. Consta que o Papa João Paulo II, quando era Arcebispo de Cracóvia, trabalhava numa espécie de escritório-capela, pois tinha no seu gabinete um sacrário com a reserva eucarística e assim contava sempre com a presença de Jesus no meio dos graves problemas que constantemente se lhe deparavam à frente de uma Igreja local que vivia oprimida p or um Estado totalitário, materialista e ateu. Quantos problemas humanos, sociais e eclesiais poderíamos resolver mais fácilmente se procurássemos com maior frequência e assíduidade a companhia da Eucaristia Não podemos ignorar, especialmente na nossa prática quotidiana que “a Eucaristia é constitutiva do ser e do agir da Igreja”, que, como salientou João Paulo II, a Igreja «vive da Eucaristia» ou que, como refere Bento XVI, existe uma “sugestiva circularidade, entre a Eucaristia que edifica a Igreja e a própria Igreja que faz a Eucaristia”. Nesta Quinta-feira Santa, estimulados pela Exortação Apostólica Sacramento da Caridade, lancemos, hoje e contínuamente, “todos os dias, enquanto dura o tempo que se chama «hoje»”, “um olhar contemplativo para «Aquele que trespassaram» e que aguarda por nós na Eucaristia.